Amizade no Cerrado
No esplendor do Cerrado, a história de uma amizade até debaixo d’água
Existem dois tipos de cronistas: os que aproveitam as férias para descansar e se divertir e aqueles que, mesmo tendo algo melhor para fazer, ficam à caça de assunto para rascunhar novas crônicas. Faço parte do segundo grupo.
Estou de férias e vim para a Chapada dos Veadeiros com minha namorada e amigos. Como se fosse um cronista lá do primeiro grupo, viajei com aquela intenção: vou aproveitar os encantos do Cerrado; nas crônicas, penso depois. Foi assim mesmo, mas apenas nos três primeiros dias.
A Chapada é um dos locais mais belos e surpreendentes do Brasil. Trilhas verdes, cachoeiras de mais de cem metros de altura, paredões de pedra desenhados por água e vento.
Talvez por se localizar no norte de Goiás, região não tão explorada pela indústria do turismo (ainda bem), a Chapada não tem a fama das praias nordestinas ou do Pantanal, mas vale muito a pena conhecer. Pela beleza e pela história. Ali está o Quilombo Kalunga, formado há cerca de trezentos anos por escravos que se rebelaram e se refugiaram nas montanhas da região. Até hoje, os Kalungas vivem ali e organizam com sabedoria o turismo local.
“De mamando a caducando, somos mais ou menos 20 mil”. É o que dizem, com graça, os moradores, ao responder qual é a população kalunga somada à da cidade de Cavalcante.
Nas trilhas até as cachoeiras, seguimos a sombra fresca de indaiás, gameleiras e coco-xodó. É conforto para os caminhantes e pouso certeiro para araras, tucanos, borboletas e tantos outros moradores da Chapada.
Apesar do entusiasmo e do convite para conhecer mais uma queda d’água, no quarto dia de viagem fiquei em Cavalcante. Estava curioso para conhecer a rotina dos moradores, onde se reuniam, o que falavam, se circulavam a cavalo ou de moto e como seria a saída das crianças da escola.
Naquela sexta-feira de sol forte, segui a rota dos curiosos: hospital, fórum, delegacia, prefeitura. Quase ninguém na rua e apenas um velho sucesso de Roberto Carlos a desafiar o silêncio.
Sento na praça. Quem sabe um ou uma cavalcantense boa de prosa não se aproxima? Nada.
Minha única anfitriã tem quatro patas. É uma vira-lata curiosa, corpo roliço e pelo malhado. Tanto ela como eu sabemos, pelo horizonte cor de chumbo, que um aguaceiro nos espreita.
Abandono o desejo da conversa fiada como fonte de mais uma crônica e caminho para a pousada, a mais ou menos dois quilômetros. E ela, a minha companheira peluda, permanece ao meu lado. Mudo de calçada, ela imita. Destroco, ela também. Depois, paro para ler um cartaz e, mais uma vez, sinto sua respiração perto de minhas canelas. O rabo balança.
Por absoluta falta do que fazer, crio uma brincadeira: acelero e a ultrapasso. Depois diminuo, e a andarilha é que se adianta. Meio metro à frente, me encara com alegria, mas nossa traquinagem está com as passadas contadas.
A tempestade de outono desaba. Ela fareja algum risco, me olha e corre para baixo de uma mangueira. Junto da árvore há uma pequena mureta e a ponta de um telhado. O abrigo é perfeito para ela, mas não para mim. Como a enxurrada vem com vento, me molho do mesmo jeito.
Lembro também do perigo de ficar embaixo de árvore durante temporais. Então, me arrisco ao ver que, a duzentos metros, há um supermercado. Ando para lá em meio ao temporal e, mais uma vez, tenho a solidariedade de minha novíssima amiga. A cachorra abandona o abrigo e me guia. Evita as poças e escolhe os pontos com menos lama. Sigo os passos saltitantes e juntos entramos encharcados no supermercado.
Compro bolachas, que a cachorra recusa com elegância, virando lentamente o focinho. O dono do supermercado traz alguns ossos do açougue e, aí sim, minha amiga se alimenta com satisfação.
Quando o temporal vira garoa, ela se vai com um pedaço de costela entre os dentes. Ainda me observa pela última vez. Percebo, no olhar castanho, um sentimento de missão cumprida, como a guia que se despede ao deixar os turistas em local seguro e, no meu caso, com uma história para contar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
