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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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Andorinhando, de Valdenia Silva e outras sugestões de leituras para 2026

Todo início de ano é quase sempre a mesma coisa: iniciar academia, ler mais, sair com amigos, comer comida saudável, priorizar a família e beber menos

Andorinhando, de Valdenia Silva e outras sugestões de leituras para 2026 (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Todo início de ano é quase sempre a mesma coisa: iniciar academia, ler mais, sair com amigos, comer comida saudável, priorizar a família e beber menos. De todas, a única que pretendo cumprir é “ler mais”, e a única que definitivamente não cumprirei é “iniciar academia”. Os livros que lerei no ano de 2026 já estão organizados em três pilhas sobre minha mesa de trabalho. O ano de 2026, sabemos, não será nada fácil. Assim, uma leitura aqui e outra acolá poderá nos ajudar a suportar a leveza e o peso que o novo ano nos reserva. 

Nas minhas três pilhas, crônicas, ensaios, contos e biografias. Os romances pretendidos foram lidos ainda em 2025. Isso não quer dizer que no decorrer do ano que se inicia outros romances não venham a surgir. Surgindo, serão acrescentados às pilhas. O negócio é andar para frente, pois como bem nos lembra o astrofísico Chamkaur Ghag: “o tempo avança e nunca retrocede”. Entre os livros na minha mesa, que muito em breve serão quatro, cinco ou seis pilhas, estou com os olhos compridos para o livro A história é uma literatura contemporânea: manifesto pelas ciências sociais (2020), de Ivan Jablonka, na pilha um. Ao seu lado, Letramento racial: uma proposta de reconstrução da democracia brasileira (2025), de Adilson José Moreira, que dialoga muito bem com Como ser um educador antirracista (2023), de Bárbara Carine que, por sua vez, bate um bom papo com Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro (2025), de Cidinha da Silva, e Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes sociais (2022), de Tarcízio Silva. 


Na segunda pilha, descansam Che leitor (2025), livro com textos de Alberto Manguel e outros autores, Ruas biográficas (2025), de Emmanuel Montenegro, Revolucionários da crítica: cinco críticos que mudaram o modo como lemos (2024), de Terry Eagleton e Chomsky e Mujica: sobrevivendo ao século XXI (2025), de Saúl Alvídrez. Entre aqueles que compõem a pilha três, Raoni: memórias do cacique (2025), O Essencial Chomsky (2024), organizado por Anthony Arnove, Os pêssegos e outros contos (2025), de Dylan Thomas e Andorinhando (2022), de Valdenia Silva, livro este que exige nossa atenção. 


Andorinhando é um livro de poemas de autoria de Valdenia Silva que, embora tenha sido publicado no ano de 2022, pela editora Radiadora, somente agora “caiu” em minhas mãos. Foi a leitura deste livro que escolhi para inaugurar todas as demais leituras que farei ao longo do ano de 2026. Acertei em cheio, pois trata-se de uma obra de altíssima qualidade literária na qual a autora constrói uma poética cujos versos discutem questões sociais, políticas e culturais sem se afastar da leveza e dos afetos que constituem a boa poesia, como podemos ver nos versos: “Que destino dar à minha coleção de selos, /se não tenho mais teu endereço?” (p.53), “Afetos não sobrevivem com migalhas” (p.59), e a ainda: “Não importa:/ Quem escreve um poema/também salva a si mesmo”. 


Além de temáticas como amor, dor, cegueira, feminino, feminicídio, racismo e as demais lutas que travamos cotidianamente, os poemas de Andorinhando estão repletos de intertextualidades, as quais apontam para leituras feitas pela própria poeta. O título Andorinhando já traz em si uma aproximação com a obra As Andorinhas (2009), de Paulina Chiziane. E assim sendo, observamos a poesia de Andorinhando dialogar com a literatura produzida por Carlos Drummond de Andrade (pp. 20, 22, 52, 62, 68, 81), Belchior (p. 34), João Bosco e Aldir Blanc (p.35), Chico Buarque (p.36), Cecília Meireles (p.39), Manuel Bandeira (pp. 50, 86), T.S. Eliot e Adélia Prado (p.63), Clarice Lispector (pp.65, 67), Schopenhauer (p.70), Beatles (p.71), Raul Seixas (p.80), Rachel de Queiroz (p.84) e Shakespeare (p.85) entre vários outros. 


A poesia de Valdenia Silva está entre o que de melhor tem sido produzido na literatura brasileira, o que a aproxima da poesia praticada por Orides Fontela, Angélica Freitas, Stephanie Borges e Lupi Prates, por exemplo. Ao traçarmos tal aproximação com autoras estrangeiras, não tenho medo de errar ao afirmar que sua poética dialoga de perto com aquelas produzidas por Pat Parker, Audre Lorde, Claudia Rankine, Adrienne Rich e Jean “Binta” Breeze, entre tantas outras. Em Andorinhando, a poeta Valdenia Silva nos oferece palavras. E isso é tudo. Na sua própria voz, tem-se: “Ofereço-te palavras/como quem borda os acontecimentos”. Depois deste verso, senhoras e senhores, o que quer que ainda se diga aqui se torna completamente irrelevante.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.