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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Arco-íris

Como em tantos momentos de incerteza, entrar no boteco foi a melhor escolha

Céu nublado (Foto: Luis Cosme Pinto)

Na laje dos espigões, parabólicas espetam a escuridão. São as antenas da avenida Angélica, camufladas por nuvens pretas.

Não cabe reclamar: precisamos de chuva. E dá pra dizer que ela, a chuva, é cuidadosa com quem está cá embaixo. Primeiro, se anuncia com vento e queda na temperatura; depois, avisa com suave escuridão e revoada de sabiás. O rugido dos trovões é o último alerta aos atrasados.

Sou um deles e alargo o passo para vencer os duzentos metros até minha casa. Inútil: o primeiro pingo bate na lente direita dos óculos. O segundo, bem mais grosso, na esquerda.

O guarda-chuva passa vexame em sua tarde de estreia. Vira do avesso e quase voa, tal qual folha seca.

Uma porta aberta me chama, corro pra lá. Como em tantos momentos na minha vida, entrar no boteco foi a melhor escolha. Não é qualquer boteco. Este tem cadeira na calçada e toldo.

Entre estudantes, entregadores com suas bicicletas e mochilas, uma executiva de cabeleira bem escovada, duas distribuidoras de panfletos e duas garis, somos doze pessoas. Todos secos e a poucos metros da enxurrada que desce como corredeira.

Se a tempestade fosse peça de teatro, seríamos os privilegiados ocupantes do camarote principal.

Ninguém pede nada, mas o garçom traz café quente e doce em copo descartável para Mariângela, uma das garis. Ela divide com a colega, Zélia. As duas me olham e eu também olho pra elas. A conversa só depende de uma primeira pergunta. Arrisco.

– Verdade que gari encontra muita coisa pela rua?

– Acha sim.

– Acha nada.

Rimos os três.

– Sim ou não? Insisto.

– Hoje em dia só jogam tranqueira na rua. Teve ano que trombei com camisa do Timão, disco do Odair José, até quadro. Hoje em dia, se tiver camiseta, só serve para pano de chão.

Agora, Mariângela:

– Eu disse que acha porque achei mesmo. Faz seis meses que vi em uma caçamba, dessas de botar entulho, duas luminárias de vidro e latão dourado. Meu marido arrumou a fiação, lustrou e instalou. Precisa ver a lindeza que ficou.

A chuva foi embora. De banho tomado, a Vila Buarque se arruma. Ambulantes remontam barracas e dois rapazes saem do prédio para passear com três cachorros.

Então, um arco-íris me chama. Um arco-íris de badulaques coloridos. É um brechó repleto de antigas novidades. Bibelôs, miudezas e também tapetes, conjunto de cadeiras, dois vestidos, bonecas, louças, penteadeira, escrivaninha.

“Parte é do seu Tenório. Ele foi pra casa de repouso. Os filhos deixaram para a gente vender. Outra parte é de um casal que se mudou para a Bélgica. Largaram tudo aqui. Fora o que os catadores me trazem. Junto tudo.”

Uma preciosidade me paralisa: é uma mesa para telefone fixo, de que talvez o leitor ou a leitora mais experiente se recorde. O móvel, de madeira escura, tem cadeira com assento de palha, espaço para o telefone, agenda, caderno de recados, porta-caneta. Embaixo, uma prateleira larga para as listas telefônicas. Minha avó encontrava de tudo nelas: professor de caligrafia, cartomante, aluguel de charrete.

– Quanto é a mesa?

– Já tá vendida, sinto muito.

Do asfalto úmido, que ardeu com o sol e ainda se refresca, surge um filete de fumaça.

É a chuva de amanhã, tão certa quanto o pôr do sol de daqui a pouco.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.