Argentina: inflação em queda, economia em retração
O que podemos aprender com a Argentina e com a mudança de paradigma do FMI
A recente queda da inflação na Argentina, comemorada pela imprensa liberal, é consequência direta de uma forte contração econômica. Sob o governo de Javier Milei, o país implementou um programa de ajuste fiscal severo: cortes profundos de gastos públicos, redução de subsídios e compressão da demanda interna.
Do ponto de vista técnico, a lógica é simples: quando o Estado reduz drasticamente suas despesas, a renda circulante diminui. Com menos consumo e menos crédito, empresas vendem menos, reduzem a produção e seguram preços. A inflação cede — mas à custa de retração do PIB, aumento do desemprego e queda da renda real.
A história econômica argentina ajuda a contextualizar esse fenômeno.
Nos anos 1990, durante o regime de conversibilidade, a inflação foi domada com âncora cambial e disciplina fiscal, mas o modelo culminou na crise de 2001, marcada por recessão profunda e explosão da pobreza. Já entre 2003 e 2011, com políticas mais expansionistas e crescimento puxado por commodities, houve redução significativa da pobreza, ainda que com pressões inflacionárias persistentes. O país oscila, há décadas, entre estabilizações recessivas e ciclos de crescimento com tensões de preços.
O momento atual parece repetir um padrão: estabilização via compressão da demanda. O que pretendo propor à reflexão é o custo sentido, nos médio e longo prazos, pelos países que adotam a austeridade fiscal como solução.
O FMI e a revisão da austeridade
Em 2020, reportagem do EL PAÍS destacou uma inflexão relevante no discurso do Fundo Monetário Internacional (FMI). Após décadas defendendo ajustes fiscais rígidos como condição para estabilidade, o organismo passou a reconhecer que austeridade excessiva pode agravar desigualdades, comprometer o crescimento e estimular instabilidade social.
Essa mudança não foi trivial. Estudos internos do próprio FMI passaram a admitir que multiplicadores fiscais — isto é, o impacto do gasto público sobre o PIB — podem ser elevados em períodos de crise. Em termos didáticos: quando o governo corta 1 unidade de gasto, o PIB pode cair mais de 1 unidade, ampliando o desemprego e reduzindo a arrecadação, o que paradoxalmente dificulta o próprio ajuste fiscal.
Como a austeridade afeta inflação, PIB e pobreza?
Inflação — A inflação resulta do desequilíbrio entre oferta e demanda, expectativas e política monetária. A austeridade reduz a demanda agregada. Com menos consumo e investimento, os preços tendem a desacelerar. Porém, essa desinflação não decorre de ganho de produtividade ou expansão da oferta, mas da compressão da atividade econômica.
PIB — O gasto público compõe a demanda agregada (PIB = consumo + investimento + gasto público + exportações líquidas). Quando o Estado corta investimentos, salários e transferências, o impacto se espalha pela economia. Empresas reduzem a produção, o desemprego aumenta e o crescimento encolhe.
Pobreza — A redução de políticas sociais e o aumento do desemprego elevam a vulnerabilidade. Em economias já fragilizadas, como é o caso da Argentina, o ajuste tende a recair desproporcionalmente sobre os mais pobres. Foi o que ocorreu na Argentina em diferentes momentos históricos — e o que o FMI passou a reconhecer como risco sistêmico.
O paralelo estrutural — O caso argentino recente funciona como laboratório empírico do debate teórico apresentado pelo FMI anos antes. A inflação cai, mas o custo social cresce. O indicador melhora; a realidade social piora.
Isso revela um ponto crucial: estabilidade nominal não é sinônimo de prosperidade. Uma economia pode exibir inflação menor e, simultaneamente, registrar retração produtiva e deterioração do tecido social.
A experiência histórica argentina mostra que programas de estabilização bem-sucedidos no longo prazo combinaram disciplina macroeconômica com políticas de proteção social e estímulos ao crescimento. Ajustes exclusivamente contracionistas tendem a produzir alívio temporário, seguido de tensões estruturais.
Conclusão
Sempre ressalvo: não sou economista, mas aqui o debate proposto não é entre responsabilidade fiscal e irresponsabilidade, e sim entre modelos de ajuste.
A lição que emerge do paralelo entre a Argentina contemporânea e a revisão conceitual do FMI é que políticas econômicas eficazes precisam equilibrar estabilidade de preços, crescimento e coesão social.
Inflação baixa obtida por recessão é um remédio que cura o sintoma, mas pode enfraquecer o paciente. A história argentina sugere que o verdadeiro desafio não é apenas derrubar índices inflacionários, mas construir um ciclo sustentável de desenvolvimento — com estabilidade e inclusão.
Essas são as reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
