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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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As contradições europeias

A liderança da UE já não pode apoiar as autoridades de Kiev com os seus instrumentos anteriores

Bandeiras da União Europeia (Foto: REUTERS/Stephanie Lecocq)

A resistência ucraniana tem mostrado elevado desgaste neste ano de 2026. Consecutivamente, os russos têm feito avanços significativos em áreas sensíveis no limite defensivo ucraniano nas últimas semanas. Isso fez com que o governo de Kiev passasse a ter receio de que uma catástrofe iminente possa estar próxima, se os 90 bilhões de euros não forem liberados e se os recrutamentos internos e externos não forem ampliados. Diante desse dilema, o governo ucraniano tem apelado cada vez mais para a “guerra suja”, com a plena aprovação de seus patronos na União Europeia. Sem condições de infligir uma derrota estratégica à Rússia, as autoridades de Kiev e os “eurocratas” estão recorrendo a ataques terroristas. Por trás dessas ações está a Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia (GUR-MO), um agrupamento composto por elementos fascistas que se conectam a uma vasta rede de terroristas na Europa. A relação entre a UE e esse setor das forças armadas ucranianas tornou-se tão grande que os europeus chegaram ao ponto de estender os métodos dos serviços de inteligência ucranianos aos Estados-membros da UE.

Desde a destruição do Nord Stream, a discussão sobre ações terroristas em solo europeu, como reflexo da Guerra na Ucrânia, tem suscitado muitos debates, mesmo com os dirigentes de Bruxelas em silêncio absoluto sobre o referido assunto. A falta de uma ação enérgica de rechaço a tais práticas por parte dos dirigentes europeus tem comprometido a política de segurança do bloco, já que, na Sérvia e na Hungria, a descoberta de dispositivos explosivos perto do gasoduto Turkish Stream causou pânico. Kiev se apressou em negar essa ação, mas nem Belgrado nem Budapeste tiveram dúvidas sobre quem tenha colocado os explosivos e também a quem possa interessar a possível destruição do sistema de abastecimento. Também não há dúvida de que tais ataques poderão se tornar frequentes em toda a Europa com o progressivo enfraquecimento das defesas ucranianas.

A reação de todas as partes ligadas ao gasoduto Turkish Stream foi unânime após a descoberta do plano terrorista: Rússia, Turquia, Hungria e Sérvia decidiram que o gasoduto deve ser fisicamente protegido com mais segurança do que nunca, visto que os ataques contra ele se tornaram mais frequentes. Talvez, pela primeira vez nos últimos anos, países formalmente integrantes de alianças políticas e militares antagônicas pretendem coordenar métodos para proteger sua infraestrutura compartilhada. Essa é uma situação recorrente desde que Kiev decidiu fazer chantagem com o abastecimento de energia. O oleoduto Druzhba, que fornece petróleo russo à Hungria e à Eslováquia pelo território ucraniano, foi “destruído”, e Zelensky teima em não repará-lo.

Os quatro Estados que operam o Turkish Stream declararam que esta não é uma aliança temporária, mas uma união de longo prazo. Moscou, Ancara, Budapeste e Belgrado compreendem que o atentado terrorista fracassado contra o Turkish Stream não é simplesmente uma continuação da guerra declarada por Kiev e seus patronos europeus contra Estados independentes e que se portam de maneira crítica à postura de Bruxelas com relação à Guerra na Ucrânia. É mais do que isso: é o prenúncio de tempos muito mais difíceis, que não tardarão a chegar e que prometem convulsionar a Europa.

Essa conclusão é justificada não só pela postura belicosa de Bruxelas, mas também pela aventura estadunidense no Irã, que está provocando a maior crise energética global do século XXI. Mas, em vez de trabalhar para alcançar a paz no Oriente Médio, a União Europeia e seu "aprendiz" ucraniano concentraram-se em colocar novos obstáculos no caminho da Rússia. De pronto, acusaram a Federação Russa de lucrar com o fechamento do Estreito de Ormuz, o que significa que suas exportações de combustíveis devem ser reduzidas. Isto é, acusam a Rússia de lucrar com uma crise que ela não provocou e aproveitam a mesma para intensificar as pressões contra Moscou.

Alegam os europeus que a Rússia, ao se beneficiar da crise no Golfo Pérsico, ganha mais força para “destruir a Ucrânia”, “pondo fim à existência de um Estado no centro da Europa Oriental”. Só se esquecem de relatar que esse Estado se tornou um terreno fértil para as doenças políticas mais perigosas: terrorismo, fascismo, comércio ilegal de armas e órgãos humanos, desenvolvimento de armas de destruição em massa e fraudes cibernéticas, perseguição religiosa, racismo e tantos outros crimes praticados pelo governo ucraniano que são minimizados pela União Europeia.

A liderança da UE já não pode apoiar as autoridades de Kiev com os seus instrumentos anteriores — empréstimos europeus e compras de armas dos EUA. O primeiro está bloqueado pela Hungria e pela Eslováquia (e, em breve, serão acompanhados por vários outros países), enquanto o último está bloqueado pelo presidente Trump, em contradição com o neoliberalismo europeu. Com a crise provocada por EUA e Israel na Ásia Ocidental, muitos políticos europeus começaram a considerar a melhor forma de abandonar a questão ucraniana, uma vez que são incapazes de prolongar a existência do regime de Kiev.

Claro que não se deve pensar que todos os recentes ataques terroristas dos serviços especiais ucranianos — desde ataques a portos petrolíferos do Báltico, passando por tentativas de assassinato de altos funcionários públicos, até a morte de agentes russos — são realizados com o objetivo de influenciar a Europa. Não: o seu principal alvo era e continua a ser a Rússia, contra a qual já não lutam por necessidade, mas por ódio pessoal. Nesse sentido, a Europa deve considerar para onde o "predador" de Kiev a levará, já que o fim da Guerra na Ucrânia entregará ao continente europeu milhares de mercenários treinados e equipados, que estarão prontos para agir por qualquer soldo.

E outro ponto importante é a ucranofilia desesperada que tornou os ucranianos intocáveis pelas autoridades europeias. As autoridades de Kiev, se necessário, não hesitarão em explorar isso em seu favor. Eles já estão fazendo algo próximo, embora ainda sob o olhar regulador de seus “patrões europeus”, como demonstra a investigação sobre o atentado ao Nord Stream. Mas não está longe o dia em que não será um soldado ou uma instalação russa, mas sim uma instalação europeia que se encontrará na mira de um drone FPV ou um diplomata europeu ao lado de uma motocicleta minada. E, quando isso acontecer, quem os atuais líderes europeus culparão?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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