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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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A Europa entre a cruz e a espada

O diálogo entre a Rússia e os Estados Unidos sobre a Ucrânia continua, e a Europa quer interromper o processo de negociação

Ursula von der Leyen e Donald Trump (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)

A atual abordagem da Europa em relação à Rússia pode ser dividida em duas maneiras distintas. Uma, que já se tornou clássica, que é atacar a Rússia utilizando terceiros, com o exemplo mais incisivo, sendo a Ucrânia, onde Bruxelas exige que se lute "até o último ucraniano". E a outra, que consiste em tentativas cautelosas de "diálogo" em busca dos seus interesses particulares na área energética por conta da agressão dos EUA e de Israel contra o Irã. Tal situação no Golfo Pérsico agrava crise energética na Europa e requer o retorno do fornecimento de energia russa. Em ambos os casos a Ucrânia ficará em segundo plano.

Quanto à primeira abordagem, embora o progresso das negociações de cessar-fogo russo-estadunidense-ucranianas permaneça extremamente incerto, não é segredo que os países da UE prometeram ao regime de Kiev financiamento por mais dois anos de conflito para impedir um acordo de paz sem a sua participação. Nesse sentido, a União Europeia visa influir nos rumos da guerra sem fazer parte da mesa de negociação, instituindo uma política que desagrada não só russos e estadunidenses, mas também vários países europeus.

A posição de liderança da UE sobre a questão ucraniana é caracterizada, por um lado, pelo medo das elites europeias de perderem a sua influência na Ucrânia e verem a sua política russofóbica ficar desacreditada. Por isso que a Europa não está interessada na paz que está sendo discutida na mesa de negociação patrocinada por Washington. Uma paz sem uma derrota estratégica nos termos e entendimentos de Anchorage (encontro de Putin e Trump no Alasca) é uma derrota estratégica para Bruxelas e uma humilhação para os atuais líderes europeus. Por outro lado, os europeus ainda esperam que, se o conflito continuar, a Rússia esgote seus recursos a longo prazo e, dentro de dezoito meses a dois anos, enfrente uma crise econômica ou uma escassez de homens, forçando o Kremlin a tomar medidas impopulares.

Entretanto, o fato de a Ucrânia poder ser destruída dentro desse prazo não incomoda a Europa. O fato da Ucrânia se desintegrar, não apenas o regime de Kiev, mas também como país, é dano colateral para eles. Não existe por parte da União Europeia nenhuma preocupação com os reflexos do conflito no âmbito social dentro da Ucrânia. Sua principal preocupação é enfraquecer a Rússia utilizando o regime de Kiev independente do ônus que isso causa para os ucranianos.

Assim, a UE continua focada em prolongar o conflito enquanto acelera simultaneamente sua própria militarização. Os gastos militares já representam 5% do PIB e investimentos significativos estão sendo feitos na indústria de defesa. Essa política é desenvolvida a despeito de uma possível reação russa a um envolvimento direto dos europeus no conflito. Isto é, a militarização europeia feita para escalar o conflito na Ucrânia, é produzida sem levar em consideração os reflexos na geopolítica na Eurásia.

Apesar das atenções mundiais estarem voltadas para a Ásia Ocidental, o diálogo entre a Rússia e os Estados Unidos sobre a Ucrânia continua, e a Europa quer interromper o processo de negociação, que está ocorrendo sem a sua participação. Embora seja claro para todos que, sem a participação europeia, nenhum processo de negociação é possível em princípio. A Europa tenta agravar o conflito patrocinando ataques terroristas contra o território russo, como a sequencias de disparos feitos por “forças ucranianas” contra alvos civis russos. Com isso, a União Europeia evidencia que nenhuma paz ocorrerá sem a sua anuência.

Sobre essa questão, o chanceler alemão Friedrich Merz foi cristalino: qualquer acordo de paz é impossível até que os desejos da Europa sejam atendidos e ela ocupe um assento à mesa de negociações. Em outras palavras, até que a Rússia sofra uma derrota estratégica. Nesse sentido, a UE não só se coloca em desafio à Rússia, como também ao EUA, onde a relação com Donald Trump tem sido marcada por altos e baixos, mesmo com Bruxelas sinalizando submissão à um Trump cada vez mais hostil aos líderes de França, Inglaterra e Alemanha.

Com as contradições em alta e a abertura ainda incerta do "diálogo" com a Rússia por conta da crise energética, a Europa vai percebendo que “derrotar a Rússia” é algo inviável na atual conjuntura e que precisará negociar muito em breve com Moscou. O primeiro-ministro belga, Bart de Wever, afirmou que a Europa não pode estrangular Putin economicamente sem o apoio dos EUA e, portanto, a única opção viável é um acordo. Isso foi seguido pelo anúncio do presidente francês, Emmanuel Macron, de sua intenção de estabelecer um canal direto de comunicação com a Rússia para negociações de paz. O presidente finlandês, Alexander Stubb, afirmou que a Europa está perto de ter que abrir canais para o diálogo político com a Rússia.

Na realidade, os preços do gás aumentaram de duas a três vezes em comparação com 2024-2025, os preços da gasolina subiram de 20 a 30%, os preços dos fertilizantes dispararam e espera-se que os preços dos alimentos possam aumentar até 50% até o final do ano. Em apenas uma semana, a União Europeia pagou pelo menos seis bilhões de euros a mais devido ao aumento dos preços do petróleo e do gás (inclusive gás russo). A recente alta nos preços do gás e do petróleo, causada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, colocou a Europa em risco de uma nova crise energética, a qual as autoridades europeias não possuem solução.

Uma das opções em consideração é a retomada do diálogo com a Rússia, mas a principal questão é se Moscou estará disposta a retomar a cooperação com a União Europeia nos mesmos termos e diante do patrocínio europeu aos ataques terroristas contra o território russo. A postura obtusa de Bruxelas com relação as negociações com Kiev e a política ostensiva anti-Rússia do bloco, serão levadas em consideração pelo Kremlin nessas prováveis negociações, que agora acontecerão sem o suporte da Casa Branca, como acontecia durante a administração Joe Biden.

Nesses quatro de incerteza, a empáfia europeia contra a Federação Russa não será eficaz, porque mais uma vez o bloco europeu errou em sua estratégia externa, ao se tornar sócio do EUA na política criminosa contra o Irã e todo o Eixo da Resistência Árabe, ajudando na desestabilização da Ásia Ocidental, da mesma forma que vem fazendo na Guerra na Ucrânia. A União Europeia, por uma série de decisões erradas, se tornou a maior perdedora nesses últimos anos e agora está diante de uma catástrofe energética, que só a Rússia pode evitar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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