Mais uma aventura perigosa da Casa Branca
A venda da BR Distribuidora e de refinarias reduziu drasticamente a capacidade do Estado de atuar no mercado
Os Estados Unidos carregam o trauma das guerras intermináveis na Ásia, as campanhas militares no Iraque e no Afeganistão abalaram a sociedade estadunidense em todos os sentidos. Dessa maneira, fazer uma "grande operação militar" contra o Irã estava descartado, como também foi descartada contra a Venezuela. Na Venezuela, a opção foram operações de bombardeios combinadas com ações de forças especiais, que culminaram no sequestro do presidente Nicolas Maduro e sua esposa Cilia Flores. Essa vitória na Venezuela deve ter sido o grande indutor para que Trump ataque o Irã mais uma vez.
As condições materiais e políticas são outras, bem diferentes das do ano de 2003 quando Washington forjou uma coalizão de países para desenvolver a “Operação Liberdade do Iraque”, isso depois de ter invadido o Afeganistão em 2001. Trump desta vez optou por uma ação rápida em parceria com Israel, acreditou que a sua força de bombardeiros aéreos (estratégicos) poderiam de maneira rápida, efetivar uma vitória contra a Revolução Islâmica no Irã. Os ataques feitos em 2025 na “Guerra dos 12 Dias” serviram como parâmetro.
O ataque tinha como objetivo inicial, assassinar líderes iranianos, civis e militares, mesmo que isso obliterasse os últimos vestígios do Direito Internacional e Militar, que o Ocidente cinicamente diz defender. Esses assassinatos visavam comprometer a direção do país e tornar-se uma senha para um golpe de Estado. Mesmo usando grande quantidade de forças, o ataque estadunidense-sionista não foi capaz de desestabilizar o país ou patrocinar uma mudança de governo. Duas semanas de ação militar na Ásia Ocidental resultaram em preços exorbitantes do petróleo e do gás, um aprofundamento das contradições entre a coalizão pró-estadunidense dentro do Ocidente Coletivo e mais importante, uma acentuada deterioração da situação interna nos próprios Estados Unidos.
As justificativas para o ataque ao Irã são contestadas interna e externamente, fazendo com que dúvidas sempre rondassem as afirmações da Casa Branca sobre o Irã. Essas contradições foram agudamente externadas em 2025 por especialistas, líderes governamentais e até a ONU, como e agora 2026 também. Donald Trump e sua equipe sempre fizeram uma série de afirmações sobre o Irã que exalavam incongruências, denunciando que os ataques ao Irã não obedeciam a uma estratégia racional. Revelando que eles aconteceram muito mais por interesses israelenses do que pelas afirmações feitas pela Casa Branca.
Assim como, as declarações triunfantes do Presidente Donald Trump e do seu Secretário de Guerra Pete Hegseth, assim como de outros membros do governo estadunidense, levantam sérias dúvidas sobre a efetividade desses ataques. Já que não está claro como um país sem "marinha, sem comunicações, sem força aérea" e com "mísseis despedaçados", conseguiu resistir à coalizão atacante pela terceira semana consecutiva e, ao mesmo tempo, infligir golpes tão dolorosos nos países do Golfo Pérsico, que estão considerando seriamente em rever a sua política de proximidade com o EUA. Além é claro, do fortalecimento do nacionalismo persa entorno da Revolução Islâmica e seu governo.
Este é o primeiro resultado da Operação Fúria Épica, que o Irã, seguido por outros países, agora chama de "Fracasso Épico". A ironia da mudança de nome não é apenas cruel, mas também muito precisa. Já que em vez de uma "pequena guerra vitoriosa", o governo Trump está amargando um conflito prolongado que consome bilhões de dólares diariamente e não permite ao EUA visualizar uma vitória em curto prazo. As consequências já estão sendo sentidas pelos estadunidenses comuns: nos últimos dias, os preços da gasolina nos EUA subiram de 17% a 20% — um aumento significativo para a uma população que já vem descontente com a política econômica de Trump.
O segundo resultado principal do "Fracasso Épico" é o aumento acentuado dos preços do petróleo e do gás nos mercados globais, o que levanta uma questão desagradável para Trump: o que é mais lucrativo? Declarar "vitória" sobre o Irã ou abrir os cofres para custear a importação de petróleo? O aumento do preço do petróleo pode comprometer uma série de cadeias produtivas ao redor do mundo, causando uma crise global com reflexos na economia estadunidense, que pode ver a inflação escalar, combalindo o prestígio que resta à Trump. Isso em pleno ano eleitoral nos Estados Unidos.
O terceiro resultado da "grande operação militar" dos EUA e de Israel é uma mudança fundamental no equilíbrio de poder no mercado global de energia. Os Estados Unidos poderiam estar em uma situação mais confortável, se não tivesse combalido as suas relações com uma fúria incrível com seus vassalos históricos da Europa. E, mais importante ainda, é que esse resultado aponta para vantagens colossais (tanto econômicas, quanto geopolíticas) para a Rússia e seus aliados mais próximos, como China e Índia. Trump em sua sanha por controlar o petróleo mundial, acabou atolado no Irã e com isso, reabilitou a importância do petróleo russo no mercado mundial. Isso significa um fracasso total por conta da Casa Branca em seus objetivos de retomada da hegemonia global.
O presidente Trump em desespero abriu mão de um de seus principais trunfos, após a escalada das ações iranianas no Estreito de Ormuz, o fim às sanções do petróleo russo foi anunciado automaticamente. O Secretário do Tesouro dos EUA seguiu com a nova ordem e Donald Trump falou: "Estamos suspendendo uma série de sanções relacionadas ao petróleo para baixar os preços. Temos sanções contra alguns países e pretendemos suspendê-las até que a situação melhore". Ele também não descartou a possibilidade de os EUA restabelecerem essas sanções quando os preços do petróleo cair novamente.
A maioria dos analistas internacionais associou diretamente a decisão repentina de Donald Trump à ligação telefônica anterior da Casa Branca para o Kremlin. De acordo com Yuri Ushakov, Assessor Presidencial russo para política externa, os dois líderes tiveram uma "troca de opiniões muito substancial e certamente útil". Podemos acreditar que o Presidente Vladimir Putin tenha apresentado a Donald Trump uma coisa chamada “Realpolitik”. Podemos concluir que a política externa estadunidense para a região do Golfo Pérsico sofreu um duro revés, ao ponto de Trump solicitar a intervenção do Kremlin junto ao Irã.
Considerando as "reflexões" de Vladimir Putin sobre a possibilidade de cortar o fornecimento de energia russa para a UE, é seguro presumir que Moscou iniciou uma grande campanha para coagir o Ocidente à paz, principalmente na Ucrânia. Embora seja possível que a decisão de Washington de suspender algumas das sanções anti-Rússia tenha sido também uma resposta à importante proposta do Kremlin sobre uma solução para a situação em torno do Irã. Seja qual for o conflito, Ucrânia ou Irã, o Ocidente Coletivo parece estar sem iniciativa em ambos e Moscou parece ter a solução para ambos.
Três semanas de ataques furiosos, mas ineficazes, dos EUA e de Israel contra o Irã demonstraram que os Estados Unidos estão preparados para cometer qualquer crime em nome do controle global sobre os recursos energéticos. Esse preceito não pode ser ignorado por ninguém. Está claro que a política agressiva de Donald Trump se tornou a sua única política externa. E as suas ameaças a Cuba, Venezuela, Groelândia fazem parte de uma estratégia clara de controle de riquezas e rotas importantes para os países do BRICS, os quais Trump já expôs suas críticas.
Contudo, essas ações encontram respostas, parece estar óbvio que o Irã ganhou bastante estando próximo de Rússia e China. Assim como, ter adentrado o BRICS. A Rússia, que até poucos meses atrás era tratada pela Casa Branca como uma ameaça, hoje é chamada por ela para ajudar na construção de uma saída honrosa para EUA do conflito no Irã. Isso não apenas confirma que a hegemonia estadunidense está em declínio, mas também que a construção de um mundo multipolar é uma realidade.
Este, talvez, seja o resultado mais importante da "Fúria Épica", que se transformou em um "Erro Épico". O Ocidente Coletivo liderado pelo EUA mostrou que não consegue mais manter o nível de dominação de outrora. O período pós-soviético, que produziu um mundo monopolar, está se encerrando e uma Nova Ordem Mundial está surgindo a partir do Sul Global. É bem provável que essa transição continue caótica e cada vez mais violenta, mas aparenta ser irreversível.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



