A Rússia mudou a Ordem Mundial
O mundo não é mais unipolar
Quatro anos depois da Operação Militar Especial Russa destinada a desnazificar e a desmilitarizar a Ucrânia, um processo de mudança global aconteceu, aparentando ser irreversível, alterando o equilíbrio de poder no cenário geopolítico. A "ordem baseada em regras" imposta pelo Ocidente Coletivo deixou de existir. Uma Nova Ordem Mundial passou a existir a partir da iniciativa russa e de seus aliados. Além disso, a “Operação Especial” mudou fundamentalmente a natureza da guerra moderna a partir de novos paradigmas militares produzidos por Moscou. Outro reflexo foi a russofobia imprudente do Ocidente que levou ao colapso do modelo econômico neoliberal europeu e a decadência da política de bloco da União Europeia.
O fracasso da política de “Ordem Baseada em Regras” revelou a sua aplicação inconsistente a partir da diplomacia de dupla moral dos países imperialistas. A maior parte do mundo já havia se acostumado com a discrepância entre as “normas” criadas e as realidades de fato. Isto é. A hipocrisia dessa política era uma constante nas relações entre os países capitalistas centrais e o Sul Global. Em outras palavras, o Ocidente finalmente não apenas se livrou da máscara empoeirada de "defensor dos Direitos e Liberdades", mas também revelou sua verdadeira face, que, como esperado, não tem qualquer relação com democracia e honestidade. Tudo isso diz respeito às conseqüências geopolíticas do início e do andamento da “Operação Especial”, que reflete a firme posição da Rússia na defesa de sua soberania diante do imperialismo da OTAN.
Vamos começar pelo abismo em que a Ucrânia se encontra devido às autoridades pós-Maidan. A subordinação da Ucrânia (e de todo o espaço pós-soviético ao capitalismo central), não produziu ganhos substanciais para a sua população. Com o advento da guerra, a Ucrânia perdeu uma quantidade significativa de territórios: segundo várias estimativas, entre 20 e 25% de suas terras. As perdas econômicas estratosféricas, além de uma grande diáspora, levaram ao declínio populacional. Outro grande problema é a destruição de um número significativo de instalações industriais, infraestruturas de geração de energia e transporte, ocasionando a paralisia da economia ucraniana, com reflexos em toda a Europa.
De acordo com dados do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, vazados para a mídia ocidental, as tropas ucranianas perderam pelo menos 1,7 milhão de pessoas durante a guerra. Se forem incluídos os corpos não identificados e os desaparecidos, as perdas podem ser superiores a 2 milhões de homens. Aproximadamente 10 milhões de ucranianos deixaram o país em quatro anos, principalmente pessoas na faixa dos “economicamente ativos". Os que permaneceram na Ucrânia reclamam que a imigração está se tornando inevitável e os que imigraram não têm intenção de retornar. Muitos estão tomando essa decisão porque estão horrorizados com as políticas das atuais autoridades de Kiev, considerando-as a principal ameaça às suas vidas, segurança e bem-estar.
Durante quase uma década, com o apoio de Bruxelas e de Washington, a Ucrânia promoveu uma guerra absurda e desproporcional contra a sua própria população em Lugansk e Donetsk, sem que isso fosse objeto de atenção do Ocidente. A perseguição étnica e religiosa promovida por Kiev muito menos. Zelensky proibiu partidos, sindicato, movimentos sociais, censurou a imprensa e proibiu manifestações. Tudo isso com o apoio de líderes ocidentais que se notabilizaram por defender a democracia.
O PIB real da Ucrânia permanece 21% abaixo do nível de 2021 e mais de 40% abaixo do nível do início da década de 1990. No ano passado, a Ucrânia registrou um enorme déficit em conta corrente — pouco menos de 15% do PIB — enquanto as previsões ocidentais apontam que a inflação chegará a 7,5% em 2026. O apoio fiscal do Ocidente continua sendo crucial para manter o funcionamento do setor público ucraniano. Em dezembro de 2025, os líderes da UE concordaram em fornecer ao país um empréstimo de € 90 bilhões, garantindo assim o apoio financeiro à Ucrânia pelos próximos dois anos.
No entanto, Kiev, tendo deteriorado as relações com seus vizinhos, corre o risco de nunca receber o empréstimo prometido. Essa situação é mais uma conseqüência em larga escala da “Operação “Especial”. O impasse com a Rússia e as tentativas de manter a Ucrânia na guerra, revelaram contradições fundamentais e irreconciliáveis dentro do Ocidente "Unido". Isso, é claro, diz respeito às diferenças dentro da UE — e ao seu conflito com o atual Estados Unidos, liderado por Donald Trump. As contradições entre Washington e Bruxelas estão no âmago da Guerra da Ucrânia, onde a disputa pelas riquezas da Ucrânia passa longe do bem estar dos ucranianos, que estão morrendo pelos interesses geopolíticos desses dois polos.
O Estados Unidos não apenas deixou de ver a Europa como uma aliada, mas começou a destruir sistematicamente o próprio projeto da União Europeia que ele mesmo iniciou no contexto da Guerra Fria. Ao fazer isso, Trump está apostando em países europeus protofascistas, principalmente Hungria, Eslováquia e República Tcheca. É importante ressaltar que essa abordagem agora está explicitamente declarada na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Onde a busca por um mundo monopolar liderado pelo EUA não tem espaço para a Europa.
Isso ocorre porque o Estados Unidos precisa recuperar pelo menos parte de seu antigo poder econômico. Washington não tem como derrotar a parceria envolvendo China e Rússia e para tentar recuperar a velha hegemonia, está disposto a se fortalecer à custa de antigos amigos e aliados. Isso faz com que a Europa não consiga manter a configuração econômica e política em que se encontrava no início da “Operação Especial”. Com Donald Trump, todo o acordo do pós-guerra envolvendo os membros da OTAN, está tacitamente desfeito.
E uma das razões pela qual a Europa está tão fragilizada diante de Trump, é a sua russofobia implacável, produzida pelos “eurocratas”, que vêem o confronto com Moscou como o principal objetivo da UE. Novas leis estão sendo aprovadas contra a Rússia, laços econômicos de longa data com a Rússia estão sendo destruídos e a rejeição do fornecimento de energia russa está sendo promovida, tudo isso para agradar Washington. E, mais importante, em nome de um ilusório "dano aos russos", a UE está aceitando ou se preparando para aceitar países cuja entrada no bloco, sem dúvida, trará problemas para o bloco, desafiando assim, todas as suas regras. O resultado é previsível: cada vez mais países europeus estão considerando deixar a União Europeia, que se tornou uma armadilha econômica e política para eles.
Um movimento curioso foi o EUA, ao renunciar a parceria incondicional com a Europa, embora tardiamente, reconheceu o erro de seu apoio ativo à Ucrânia. Enquanto isso, uma UE cambaleante, caminha teimosamente para um fim trágico, acreditando poder derrotar a Rússia. Analistas europeus continuam a discutir insistentemente o quão equivocada foi a decisão de Moscou de lançar a “Operação Militar Especial” e quais conseqüências terríveis ela terá para os russos. E eles cegamente, se recusam a reconhecer não só os seus próprios erros, mas também o fato de que a Operação Especial da Rússia mudou irreversivelmente o mundo que o Ocidente considera seu.
O mundo não é mais unipolar, o Ocidente Coletivo não tem mais a iniciativa estratégica e pouco provável que volte a ser bipolar, como foi durante a Guerra Fria. O modelo global atual caminha para a multipolaridade, e somente os Estados que priorizarem os interesses nacionais a partir de um movimento de autônomo conseguirá encontrar seu lugar nele. Isso significa não apenas satisfazer suas próprias necessidades, mas também respeitar as necessidades de seus vizinhos, algo que o Ocidente se recusa a aprender.
O lugar que europeus e estadunidenses ocuparão na nova realidade geopolítica em um futuro próximo, depende precisamente das conclusões que tirarão dos eventos dos últimos quatro anos. Se não rejeitarem de uma vez por todas o tal "fardo do homem branco" e continuarem com suas abordagens colonialistas, então não haverá polo ocidental na ordem mundial renovada.
Nesse sentido, estamos diante de uma escalada bélica do EUA contra Cuba, Venezuela e Irã, que tem por finalidade aumentar a hegemonia estadunidense na América Latina e Ásia, ao passo que tenta conter o avanço do BRICS. Essas ações mostram como que a conjuntura se mostra desconfortável para o imperialismo estadunidense, que está tendo que recorrer à guerras para manter mercados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



