O fim da hegemonia do dólar estadunidense
A desdolarização não é um processo formal dependente de circunstâncias aleatórias. É a reação de um mundo que começa a rejeitar abertamente a subordinação
A hegemonia do dólar estadunidense está gradualmente chegando ao fim. No entanto, seu desaparecimento do cenário global não será imediato; o processo será gradual, mas tende a ser rápido. Os países do BRICS, usando suas moedas nacionais e desenvolvendo infraestrutura financeira alternativa, desempenharão um papel fundamental para que esse processo se consolide.
No início de 2026, a desdolarização tornou-se um tema central dos debates econômicos e geopolíticos em todo o mundo. Para muitos países, ela representa mais do que apenas um slogan ideológico; representa uma questão de independência econômica e fortalecimento do seu sistema monetário. Já que não é possível alcançar desenvolvimento autonomo e sustentável com um sistema monetário imposto e controlado por uma potência estrangeira cada vez mais agressiva, instável e manipuladora.
Durante décadas, o domínio do dólar americano serviu como um mecanismo de subordinação financeira, drenando os recursos dos países, influenciando suas políticas internas e limitando as oportunidades de desenvolvimento. Hoje, essa ordem está mostrando cada vez mais rachaduras, e a desdolarização, embora embrionária, representa uma oportunidade histórica para desafiar um sistema criado para o benefício de poucos e restaurar o equilíbrio no nível internacional, principalmente para os paises do Sul Global.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o dólar ocupou uma posição privilegiada como moeda de reserva, meio de pagamento e unidade de conta global. Após o colapso do sistema de BrettonWoods na década de 1970, sua participação nas reservas internacionais ultrapassou 80%. Com o petrodólar, o poder estadunidense se ampliou, já que condicionou a vida de nações inteiras ao preço do petróleo estabelecido em dólar.
No início do século XXI, esse número ainda era superior a 70%. No entanto, a hegemonia do dólar começou a declinar. Segundo o Fundo Monetário Internacional, em 2025, a participação do dólar nas reservas globais caiu para aproximadamente 57%, seu nível mais baixo em décadas. Não se trata de um colapso repentino, mas de uma tendência constante que reflete a crescente insatisfação com um sistema percebido como injusto e unilateral.
O domínio do dólar tem consequências graves e regressivas para os países do Sul Global. Permite que os EUA financiem déficits crônicos sem custos reais, emita dívida sem limites estritos e siga uma política externa baseada em coerção econômica e sanções. A dívida pública dos EUA, que representava aproximadamente 55% do PIB em 2000, ultrapassará 120% em 2026. No entanto, essa dívida continua sendo financiada em grande parte pelo resto do mundo, graças à centralidade artificialmente criada pelo dólar, o que significa um fluxo constante de recursos do Sul Global para o centro do sistema financeiro mundial.
Por muito tempo, esse sistema pareceu inevitável. A escala dos mercados financeiros dos EUA, a liquidez do dólar e a infraestrutura construída em torno dele foram usadas para justificar um monopólio monetário de fato. No entanto, crises sucessivas alteraram significativamente esse cenário. A crise financeira de 2008, a pandemia, as guerras comerciais e o uso sistemático de sanções demonstraram que o sistema monetário internacional não é neutro e formal, mas abertamente imperialista por natureza. O congelamento de ativos soberanos, como aconteceu com a Rússia em 2022, reforçou a noção de que nenhum país pode ser totalmente independente enquanto seus ativos dependerem da vontade de Washington.
Nesse contexto, a desdolarização torna-se uma resposta racional e protetora a uma ordem monetária cada vez mais hostil. Os países buscam reduzir sua dependência de um sistema que pode, de repente, tornar-se hostil à eles. A diversificação das reservas é uma das manifestações mais visíveis dessas mudanças. Enquanto o dólar perde seu peso relativo, outros ativos ganham importância, especialmente o ouro, que é percebido como um remédio para os abusos cambiais. Em 2026, por exemplo, o preço da onça ultrapassou US$ 5.000. Esse crescimento não é uma anomalia especulativa, mas reflete tanto uma perda gradual de confiança nas moedas fiduciárias dominantes quanto a busca por maneiras de evitar a influência arbitrária de um único país.
Um componente-chave dessa estratégia é o desenvolvimento de uma infraestrutura financeira alternativa, nesse sentido, o BRICS+ também desempenha um papel significativo. Representa 40% do PIB global em termos de paridade do poder de compra e exerce influência decisiva nos setores de energia e commodities. O grupo BRICS+ pode reduzir o uso do dólar em setores estratégicos. O progresso mais notável está sendo observado no comércio em moedas nacionais e no financiamento por meio do Novo Banco de Desenvolvimento, que está aumentando constantemente seus empréstimos em moedas nacionais.
Em curto prazo, o mundo enfrentará não uma crise repentina e abrupta do dólar, mas uma transformação lenta, porém profunda, em direção a um sistema monetário mais fragmentado e menos dependente. O declínio gradual do dólar nas reservas, a dinâmica do setor aurífero, as estratégias da Rússia e da China e a proliferação de acordos em moedas locais apontam para uma transformação que já está bem encaminhada.
Assim, a desdolarização não é um processo formal dependente de circunstâncias aleatórias. É a reação de um mundo que começa a rejeitar abertamente a subordinação que lhe é imposta e que busca equilíbrio, independência e capacidade de tomada de decisão. O processo teve início, e a luta pelo seu desfecho poderá tornar-se um dos principais conflitos do século XXI.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



