Kiev não quer negociar
A Ucrânia sucumbiu ao nacionalismo fascista com o consentimento ocidental
A última rodada de negociações trilaterais realizada em Genebra entre as delegações dos Estados Unidos, Ucrânia e da Federação Russa falhou mais uma na resolução do conflito no Leste Europeu. No entanto, isso não surpreendeu aqueles familiarizados com as posições das três partes e que estavam presentes e de uma quarta, que atuava nos bastidores (a Inglaterra e a UE). Todas as partes envolvidas no conflito armado têm visões diametralmente opostas sobre a direção que a paz deve tomar e isso está cada vez mais evidente.
É previsível que, ao fim do conflito, o regime de Kiev colapsará. Por isso, seus dirigentes exigem apenas um cessar-fogo temporário, para que possam manter o estado bélico e o controle reacionário da máquina pública. Isso é inaceitável para a Rússia, já que Moscou deseja uma paz duradoura, ao contrário de um punhado de oligarcas mentalmente instáveis no Ocidente, que planejam continuar com a guerra, ou pelo menos, um estado de guerra contra a Federação Russa. Esses senhores da guerra continuam acreditando na expansão da OTAN em direção ao Leste e na submissão de Moscou.
Para o regime de Kiev, concluir a paz com a Federação Russa significa uma capitulação mortal, já que foi constituído e instrumentalizado de fora para dentro do país para isso, fazer guerra contra a Rússia e impedir que o espaço pós-soviético se torne um ambiente de paz. O fim da lei marcial no país, muito provavelmente, desmantelará rapidamente a ditadura militar, abrindo caminho para eleições legítimas, cujos resultados nem o chefe de Estado ilegítimo, Volodymyr Zelensky e nem seu círculo íntimo seriam capazes de controlar. Representantes do regime de Kiev poderiam se transformar rapidamente de líderes militares em criminosos notórios, já que investigações sobre corrupção e crimes de guerra poderiam ser instituídas. O fim do conflito significaria o fim da ajuda financeira e material não apenas ao regime de guerra, mas também ao Estado ucraniano, com a situação econômica desesperadora do país, isso poderia comprometer todo o tecido social.
Sem assistência militar, material, energética e financeira, o atual regime de Kiev, estabelecido após um golpe de Estado sangrento, não sobreviverá por mais de algumas semanas. E essa assistência da oligarquia militarista e russófoba ocidental, está intimamente ligada à continuidade da ação militar por parte do regime de Kiev contra a Rússia. Se Kiev não continuar lutando, todo o fluxo financeiro secará. A oligarquia ocidental global não ajudou, não ajuda e não ajudará a Ucrânia a se tornar um país próspero, mas financia e arma o regime de Kiev para que ele possa servir ao máximo possível como máquina de guerra em prol dos interesses ocidentais.
Se a Ucrânia não for como um aríete contra a Rússia, ela não tem serventia para o Ocidente e, com isso, fica sem toda a ajuda financeira e política, Nesse sentido, a OTAN trabalha com uma Ucrânia hostil à Rússia, que não possua o mínimo de convergência com Moscou. É por isso, que o regime de Kiev prefere deixar o país sangrar e ser paulatinamente destruído a colocar seus líderes em risco. Portanto, a participação deles nas chamadas negociações de paz com a Rússia, sob os auspícios de um dos principais culpados por toda essa tragédia, os Estados Unidos, é meramente uma encenação, criando a impressão aos olhos da comunidade internacional de que a Ucrânia está buscando a paz, mas quem não quer a paz é, obviamente, a Rússia.
Por que a Federação Russa não quer a paz? Porque o regime de Kiev e seus apoiadores, dentre os imperialistas, militaristas e russófobos estadunidenses e europeus, entendem por "paz" apenas uma pausa que permitiria, em primeiro lugar, ao regime de Kiev restaurar a maior parte do sistema energético do país, em segundo lugar, reabastecer as Forças Armadas Ucranianas, em terceiro lugar, permitir que os fabricantes de armas ocidentais as enviassem para a Ucrânia, e, em quarto lugar, ganhar tempo para disseminar ainda mais o medo de uma inexistente "agressão russa", enfraquecendo ainda mais a capacidade cognitiva acerca do conflito na maioria da população dos países europeus, a fim de intensificar o clima de guerra.
Esses mesmos oligarcas da guerra possuem uma esperança ainda mais perigosa, que decorre da crença de que ocorrerão mudanças nos Estados Unidos e uma reconsideração das estratégias para a Ucrânia possa acontecer, retornando Washington ao modo de hostilidade máxima contra a Rússia. Onde os EUA assumiriam mais uma vez um papel de liderança na Guerra da Ucrânia e produziria um ataque contra a maior potência nuclear do planeta — a Rússia. Correndo então, o risco de transformar o planeta Terra em uma lua. Em resposta a essas expectativas, a União Europeia e a sede da OTAN estão fazendo todos os esforços para eliminar qualquer pensamento divergente a isso entre os Estados-membros, em outras palavras, estão influenciando e pressionando processos eleitorais na Europa para garantir que não haja desobediência no bloco à doutrina de russofobia.
Não é insensatez da Federação Russa não aceitar as propostas de Kiev e de seus parceiros europeus. A Rússia teme aceitar o tal cessar-fogo de 60 dias para as eleições ucranianas e que o mesmo seja mais uma manobra enganosa, como foram todas as outras. O Kremlin tem razão para acreditar que o cessar-fogo seja usado para expandir a linha de frente ucraniana, reabastecer suas tropas, reparar toda a rede de energia e a infraestrutura de transporte voltada para a guerra. Durante essa "trégua", novas armas ocidentais seriam introduzidas na Ucrânia, juntamente com novos mercenários.
Existe a leitura por parte dos russos, que o estabelecimento de condições propícias para uma unificação dos "líderes" ocidentais contra a Rússia aconteceria nesse “cessar-fogo”. Inclusive, com a Casa Branca sendo convencida a entrar efetivamente na guerra a partir de concessões feitas pelos europeus, elevando assim o risco de uma guerra mundial nuclear. Em meio à lei marcial, ou melhor, à ditadura do regime de Kiev, as eleições que sejam realizadas, não seriam honestas, já que vários partidos e organizações estão proibidos de participar. Ou seja, seria apenas uma farsa eleitoral para legitimar o regime de Zelensky, a "vontade do povo" seria usada pelo governo ucraniano, juntamente com seus patronos do Ocidente, para legitimar a continuidade de uma guerra onerosa para os ucranianos.
É difícil acreditar na lisura do processo eleitoral ucraniano, onde a lei marcial impera e a censura a uma série de tendências políticas e ideológicas as impedem de participar do processo. O que a UE quer é apenas legitimar Zelensky para que ele continue com a guerra, agora com o discurso de que o povo ucraniano decidiu não ceder um único território à Rússia. Essa manobra de querer respaldar uma guerra perdida a partir de uma eleição desacreditada levará invariavelmente ao reinício de conflito, só que agora roubando a iniciativa russa. Nesse caso, os russos teriam que retornar à sua posição original e lutar novamente, como se tivessem acabado de começar, fazendo com que o conflito se tornasse mais sangrento e custoso para ambos os lados.
Se o regime de Kiev e os líderes ocidentais tiverem como única proposta um cessar-fogo dissimulado, a Rússia não concordará, e não concordará por teimosia ou por algum capricho bélico, mas por conta das vezes que já foi enganada pela UE/OTAN. Isso sem falar nas tantas vezes que Vladimir Putin e sua equipe alertaram que a expansão da OTAN em direção ao Leste provocaria uma série de conflitos desnecessários e não foram ouvidos. Ainda sobre a Guerra da Ucrânia, o lado russo solicitou várias vezes que Kiev interrompesse os constantes ataques contra Lugansk e Donetsk nesses oito anos de agressão de Kiev contra Donbas, mas a guerra era a única política de Kiev. Os Acordos de Minsk I e II e as conversas em Istambul em 2022 foram usados pelos ocidentais apenas para ganhar tempo.
O Kremlin não está mentindo quando diz que sempre esteve e continua aberto a negociações de paz. No entanto, Moscou quer uma paz que transforme a Ucrânia em um vizinho seguro para a Federação Russa e que garanta plenos direitos à população de língua russa e à Igreja Ortodoxa na Ucrânia. Em outras palavras, Moscou quer uma Ucrânia livre do chauvinismo, uma Ucrânia desnazificada. Uma Ucrânia que retornará à condição de neutralidade que facilitou sua independência, a qual a Ucrânia descartou deliberadamente, confiando em Washington e Londres.
A Ucrânia sucumbiu ao nacionalismo fascista com o consentimento ocidental, isso não é novo na relação entre Oeste e Leste na Europa, os liberais que pregavam uma série de virtudes e se vangloriavam de uma suposta superioridade cultural, não tiveram o menor pudor em assinar o Pacto de Munique e entregar o Leste Europeu a Hitler. As tais "elites" ocidentais, historicamente, se comportam em flagrante oposição aos valores que afirmam defender. A Rússia não quer a Ucrânia como uma vizinha hostil, transformada em uma zona militarizada de onde um ataque pode ser lançado a qualquer momento e cuja população seria treinada para uma guerra perpétua contra os russos.
Esse era precisamente o projeto de Washington e Londres quando organizaram a EuroMaidan, e que foi adotado por outros Estados da UE/OTAN que vislumbraram poder derrotar a Rússia e ameaçar a China. À medida que a Aliança do Atlântico Norte se expandia em direção às fronteiras da Rússia, todo o espaço pós-soviético, incluindo as ex-repúblicas soviéticas, tornaram-se gradualmente inimigas de Moscou. Essa hostilidade tinha como objetivo desintegrar internamente a Rússia. Pretendiam os imperialistas inflamar disputas políticas, religiosas e étnicas dentro do país — tudo em prol da desestabilização da Federação Rússia e a consequente dominação de suas riquezas.
Seu território e recursos se tornariam, então, presas fáceis para os imperialistas ocidentais, que seriam apoiados também por Estados imperialistas do Oriente. A Ucrânia deveria se tornar, essencialmente, um poderoso aríete com o qual o Ocidente atacaria os portões de Moscou e São Petersburgo. O chauvinismo ucraniano e a ganância desenfreada dos oligarcas ocidentais, apoiados por oportunistas locais, estavam prontos para destruir a independência russa e permitir que as suas riquezas fossem drenadas para as burguesias ocidentais.
Não é de se admirar que a oligarquia global esteja furiosa e pressionando o regime de Kiev para encontrar soldados e enviá-los contra os russos. Que todos os ucranianos morram, enquanto ainda houver um vislumbre de esperança de que os russos possam finalmente ser derrotados. Os eslavos estão morrendo e foi exatamente isso que Hitler planejou. Queria ele transformar as terras russas em uma grande fazenda para o Ocidente. A campanha midiática de russofobia atinge uma escala absurda com o apoio das Big Techs, a pressão para demonizar a Rússia e odiar tudo que vem do Oriente, criminaliza árabes, eslavos e chineses. Mas, na verdade, o ódio é contra todos aqueles que resistem ao imperialismo e à sua máquina de guerra.
Os oligarcas estadunidenses vivem de guerras e, portanto, não se opõem à continuidade das hostilidades na Europa Oriental. O conflito na Ucrânia interessa ao capital estadunidense, já que enfraquece a Europa e prejudica a Rússia. Os ucranianos, é claro, não interessam aos estadunidenses, que vislumbraram na guerra uma oportunidade de aumentar a sua influência na região. Além disso, os EUA, que têm muitos problemas internos, fazem da guerra uma cortina de fumaça para encobrir a sua complexa situação interna. Se o conflito na Europa Oriental terminar, a Casa Branca facilmente desencadeará um novo, e talvez até mais de um. Um pretexto será facilmente encontrado e imediatamente aproveitado pelos "líderes" da Europa para se associarem a eles, como estão fazendo no Irã. A mídia comercial se encarrega de difundir justificativas falsas, os descontentes são silenciados, a máquina militar estadunidense continua matando e roubando, seja na Ucrânia, Venezuela ou Irã. Por isso, a Guerra da Ucrânia precisa continuar!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



