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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Ascensão e queda

A despedida de uma Velha Senhora virou manchete de jornal

Árvore caída (Foto: Luis Cosme Pinto)

Notícia é como pão: quanto mais fresca, melhor. E as redações não tinham do que reclamar naquela quarta-feira. Aumento da gasolina. Punição para juiz suspeito de assédio. Reviravolta no caso do cachorro Orelha. Reforço no Corinthians.

O editor leu, releu e não se convenceu. A manchete do dia não estava entre aqueles fatos; brilhava em uma imagem.

Uma árvore centenária caiu, fechou o trânsito, atingiu um prédio e assustou o bairro. Embaixo da foto, que ocupou metade da primeira página, o jornalista escreveu: Rotina de queda de árvores em SP já não requer chuva forte.

Como informou a manchete, nada houve de tempestade, nem vendaval e muito menos batida de caminhão. A Tipuana despencou sem nenhuma explicação e com o estrondo de 500 trovões.

Passava um pouco das oito da manhã, e um chuvisco frouxo lavava a rua Marquês de Itú, em Higienópolis. Em uma engenhosa combinação de movimentos, a motorista saiu da garagem; o porteiro limpou a mesa de trabalho em vez de varrer a calçada; um homem atravessou de lá para cá; e a estudante seguiu o caminho contrário. Nesse momento, com a rua livre de pessoas e de carros, a árvore, de 20 metros de altura, desabou.

Foi como gangorra. A copa e o tronco caíram, e a raiz emergiu com força, levantando calçada, pedras e terra.

É quase certo dizer que nenhum dos moradores daquela rua tinha a idade da Tipuana, cerca de 110 anos. Mais que isso: quando plantaram a muda, a rua era de terra. Vieram as carroças, as mulas, a gente, os postes, o bonde, a fumaça. Toda essa revolução sem que a veterana moradora fosse observada, tratada. Uma poda aqui, outra ali, vá lá, acredito. Porém, muito menos do que merecia depois de nos dar um século de oxigênio.

Se até os postes são cuidados, por que não as tipuanas?

A gigante crescia e, quanto mais subia, menos espaço tinha. Embaixo, um mísero naco de terra na calçada sufocante; em cima, a busca por um raio de sol, escondido pelos espigões. Dos dois lados, o mesmo aperto. Liberdade ela sempre quis e nunca teve.

A história da velha senhora, que aqui floreio, teve seus capítulos de glória. Sabiás, sanhaços e bem-te-vis batiam o ponto e as asas no conforto de sua copa. Ali fizeram ninho e família.

Macunaíma, cachorro malhado acostumado a respingar a Tipuana com o primeiro xixi do dia, era outro amigo fiel.

Sob a mesma sombra farta e fresca paravam catadores de papelão e a gente que descia em direção ao centro depois de almoçar em um restaurante de prato feito. Às quintas, dia de feira na vizinhança, carrinhos circulavam com as compras da semana.

Eu mesmo passava pela Tipuana, dia sim, dia não. Tronco taludo, casca grossa e firme. A partir do primeiro metro de altura, surgia uma folhagem que se grudava e se espalhava por galhos sinuosos. Na primavera, vestia-se de amarelo-ouro, tal qual gema de ovo. Depois, pintava a calçada.

Muitas vezes parei ali, com o pescoço esticado para cima, a imaginar uma família. O tronco bifurcava; os dois braços viravam quatro, dezesseis. Perdia a conta, mas percebia que eram galhos travessos. Uns se esticavam para o alto; outros se espalhavam para os lados. Tal qual filhos, sobrinhos, netos. Cada um com suas certezas, sua paixão, seu destino.

Quem mora, trabalha ou só passa por ali para, olha e comenta: “Ainda bem que ninguém se machucou”. “Sempre achei que estava torta para aquele lado”. “Você viu que saiu no jornal?”. “Não leio jornal”.

De origem argentina, as tipuanas vieram e ficaram em São Paulo, terra de tantos imigrantes. Será a árvore certa para nossos bairros? É o que pergunto a Takanoli Tokunaga, um mestre que sabe ouvir a natureza e compreender as plantas. “Tipuanas podem fazer muito bem à cidade e devem ser plantadas em áreas verdes com espaço, como praças e parques”. É a resposta do professor.

Carinho e cuidado são o mínimo que nossas velhas senhoras merecem.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.