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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Autoatentado de Flávio faria jus à história dos Bolsonaros

A capivara de arruaças e atentados, consumados ou não, começa em 1987, quando o capitão foi flagrado organizando a explosão de quartéis

Flávio Bolsonaro (Foto: Saulo Cruz/Agência Senado)
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Os estrategistas toscos de extrema-direita que circundam Flávio Bolsonaro lançaram o factoide de que se planeja um atentado contra a vida do candidato. Segundo o fugitivo Allan dos Santos, o feito se daria pelas mãos do Comando Vermelho, que Lula não quer ver como terrorista. A facada ou fakeada que contribuiu decisivamente para a eleição de Jair em 2018 ainda nem foi satisfatoriamente esclarecida, mas a família arruaceira parece já tramar sua versão 2026. Mentir e vitimizar-se são marcas indeléveis dessa gente.

Pergunta-se se não seria ousadia demais forjar um autoatentado com tintas de realidade, sob alto risco de desmascaramento, para obter um salto de intenções de voto. Quem assim indaga desconhece a história de Jair Bolsonaro e seus filhos, bem como dos seus entornos civil e militar.

A capivara de arruaças e atentados, consumados ou não, começa em 1987, quando o capitão foi flagrado organizando a explosão de quartéis. Culmina em 2022/23 com o plano para assassinar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, cereja do bolo golpista desmascarado a tempo e punido conforme a lei. Os que arquitetam tais crimes não teriam o menor pudor em forjar um atentado contra si próprio, se é que já não o fizeram.

Toda estratégia da extrema-direita - a brasileira e a global - calca-se na mentira elaborada, pensada para atingir corações e mentes vulneráveis, pessoas que acreditam em qualquer coisa. É nesse contexto que as narrativas inverossímeis dos Bolsonaros emplacam em tanta gente, gente para quem menções vazias a Deus, pátria e família bastam para que acreditem ser seus autores defensores verdadeiros de Deus, da pátria e da família.

Bastante já se escreveu sobre as mentiras bolsonaristas, algumas de sutil vileza, outras, completas idiotices. A teoria das urnas eletrônicas fraudáveis talvez se encaixe no primeiro grupo, pois qualquer recusa de averiguação técnica poderia soar como tentativa de esconder fraudes eleitorais eletrônicas. No segundo grupo, o das idiotices, o melhor exemplo poderia ser a afirmação de que defecar menos poderia ajudar a salvar o meio ambiente.

Foi, contudo, na pandemia que Jair, sempre secundado dos filhos, cometeu as maiores atrocidades verbais de que se tem notícia, verdadeiros atentados contra a vida, os quais, sem dúvida, foram decisivos para que o Brasil alcançasse a marca das 700 mil mortes.

Em uma transmissão ao vivo, Jair associou a vacinação contra Covid-19 ao desenvolvimento de AIDS, citando supostos relatórios britânicos que não continham tal conclusão. Também afirmou diversas vezes que as vacinas seriam experimentais mesmo após aprovação pela Anvisa e por outras agências internacionais, contrariando o processo regulatório efetivamente concluído para os imunizantes utilizados no Brasil.

Jair Bolsonaro foi um dos principais promotores mundiais da cloroquina e de outros remédios sem eficácia comprovada para Covid-19. A defesa desses medicamentos tornou-se um dos casos mais conhecidos de conflito entre discurso político e consenso científico durante a pandemia.

O diferencial apontado por estudos acadêmicos é a escala, a repetição e a centralidade de narrativas sem comprovação dentro do discurso presidencial de Bolsonaro, especialmente em relação às urnas eletrônicas e à pandemia. Por isso, a ciência política não trata o fenômeno apenas como "alguns erros factuais", mas como um caso de uso sistemático de narrativas conspiratórias e contestação de instituições para mobilização política. Em tempo: Jair sempre contou com o coro coadjuvante, mas estridente, dos filhos.

Diante de tudo que falaram e fizeram no decurso da História, planejar um autoatentado - ou mais um - não seria nada demais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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