Backlash e o silêncio das minorias
Em ano eleitoral, como vozes de minorias são pressionadas ao silêncio dentro da esquerda, em nome de estratégia que pode enfraquecer a democracia
Em ano eleitoral, parte da esquerda masculina volta a pedir moderação justamente às vozes que tornaram possível o avanço democrático recente, mulheres, pessoas LGBTI e pessoas com deficiência, como se ampliar direitos fosse risco e não fundamento da própria democracia.
Quando nos aproximamos de períodos eleitorais, costuma aparecer um comportamento recorrente em setores progressistas masculinos que, mesmo defendendo agendas democráticas amplas, passam a solicitar silêncio estratégico de mulheres, pessoas LGBTI e pessoas com deficiência. Esse movimento não nasce necessariamente de hostilidade explícita. Ele nasce de uma leitura pragmática do campo político. Ainda assim, produz efeitos de backlash. Estudo o fenômeno desde 2015 em diálogo com a jornalista Susan Faludi que descreveu no livro “Backlash: The Undeclared War Against American Women” e diz que o backlash não acontece apenas entre direita e esquerda. Ele também pode surgir dentro de alianças progressistas quando determinados grupos passam a disputar centralidade narrativa.
Em contexto eleitoral isso funciona assim:
Primeiro aparece o argumento da prioridade estratégica, depois surge a ideia de que determinadas pautas “afastam o eleitor médio”, em seguida aparece o convite ao silêncio temporário, por fim esse silêncio vira regra tácita de convivência política!
Esse processo é pedagógico no pior sentido da palavra por que ensina quem pode falar e quem deve esperar e francamente, qualquer pessoa que minimamente me viu, deve perceber que não temos pessoas trans circulando entre nós em séculos de história. E ainda temos que escutar, daqui a pouco falamos disso!?
A filósofa bell hooks lembrava que estruturas progressistas podem reproduzir hierarquias quando confundem unidade política com homogeneização discursiva. Em outras palavras, quando pedem silêncio às margens em nome da vitória do centro.
Durante eleições, homens progressistas frequentemente assumem que precisam “converter” sujeitos de direita ou sujeitos que se apresentam como neutros. O problema não está em dialogar com esses públicos. O problema aparece quando esse diálogo exige reduzir a presença política de quem historicamente já foi silenciado.
Nesse momento ocorre algo muito interessante do ponto de vista da análise do poder. Segundo Michel Foucault, o poder não funciona apenas reprimindo, ele funciona organizando quem pode aparecer como legítimo em determinado espaço de fala. Em períodos eleitorais, a figura do sujeito neutro passa a ser tratada como centro imaginário da democracia e para agradar esse centro, vozes dissidentes são deslocadas.
Assim surge um paradoxo pedagógico que é imposto sob neblina, uma vez que mulheres, pessoas LGBTI e pessoas com deficiência tornam-se fundamentais para construir o campo progressista, mas tornam-se consideradas “excessivas” quando esse campo deseja ampliar sua base eleitoral!?
Para além da estratégia eleitoral percebe-se a gestão simbólica da in/visibilidade.
Na prática, o argumento costuma aparecer com frases como precisamos falar de temas que unifiquem ou este não é o momento dessas pautas ou primeiro vencemos a eleição depois avançamos nas diferenças. Essas frases parecem razoáveis. Porém elas produzem um efeito silencioso de empuxo político sobre os mesmos corpos que sustentam a base ética do projeto democrático.
Como educadora, gosto de explicar assim aos estudantes, neutralidade eleitoral quase nunca é neutralidade real e geralmente é apenas o nome elegante de uma centralidade já existente.
Um outro ponto aparece quando sujeitos dizem não sou nem de esquerda nem de direita, muitas vezes estão dizendo que desejam estabilidade simbólica e estabilidade simbólica costuma significar manutenção de privilégios invisíveis.
Por isso dialogar com esse público é importante, mas dialogar não significa reorganizar o campo progressista a partir do silêncio das minorias.
Uma pedagogia democrática madura ensina outra coisa. Precisamos ampliar alianças não exige apagar diferenças ensina que disputar narrativas e não em como esconder corpos. A ditadura soube bem como fazer isso quando aos seus modos ensina que convencer não exige reduzir complexidade.
E sobretudo ensina que sujeitos historicamente marginalizados não são obstáculos eleitorais, somos produtores de horizonte político e essa ampliação depende de nós, assim como somos nós quem nos diferencia dessas frentes ultraconservadoras.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
