Bad Bunny usou o Super Bowl para afirmar que a América não é apenas uma nação, mas um continente
Ao cantar quase toda a apresentação do intervalo em espanhol no maior palco da TV americana, Bad Bunny expôs quem sempre foi excluído da ideia de América
Ao longo de décadas, o show do intervalo do Super Bowl funcionou como vitrine estética do poder cultural norte-americano. Mais do que entretenimento, sempre foi um ritual de consagração simbólica: quem ocupa aquele palco pertence ao centro; quem assiste, aprende quais vozes importam. Em 2026, essa lógica sofreu um deslocamento raro. Ao assumir o intervalo do principal evento esportivo dos Estados Unidos em uma apresentação fascinante quase integralmente em espanhol, Bad Bunny rompeu uma fronteira invisível, mas decisiva, na engrenagem cultural dos Estados Unidos.
A apresentação, assistida por cerca de 135 milhões de espectadores apenas no território americano, não se limitou a disputar atenção. Ela disputou significado.
Ao escolher não traduzir sua língua nem suavizar sua origem, o artista porto-riquenho transformou o maior palco da televisão estadunidense em um espaço de afirmação identitária e questionamento histórico. O que estava em jogo não era apenas música, mas pertencimento.
Desde os primeiros minutos, a encenação recusou o exotismo confortável. Campos de cana-de-açúcar, trabalhadores anônimos, vendedores populares e cenas cotidianas de Porto Rico compuseram um cenário que remetia diretamente à história colonial da ilha.
Não se tratava de folclore decorativo, mas de memória política. O açúcar, base da economia colonial caribenha, apareceu como símbolo ambíguo: riqueza para poucos, exploração para muitos. Bad Bunny começou ali para lembrar que sua trajetória artística nasce desse solo desigual.
Cantar em espanhol no Super Bowl não foi gesto estético isolado. Foi uma intervenção na lógica da hegemonia cultural. Pela primeira vez, o espetáculo mais assistido da televisão americana recusou a língua inglesa como requisito de universalidade. Não houve legenda, adaptação ou concessão pedagógica.
A mensagem foi direta: não é a língua que limita o alcance de uma obra, mas a disposição do poder em reconhecer outras centralidades.
Essa escolha ganhou ainda mais densidade pelo contexto recente. Poucos dias antes, Bad Bunny havia vencido o Grammy de Álbum do Ano com Debí Tirar Más Fotos, tornando-se o primeiro artista a conquistar o principal prêmio da indústria fonográfica com um disco integralmente em espanhol. O intervalo do Super Bowl funcionou, assim, como extensão simbólica dessa vitória: não como celebração individual, mas como afirmação coletiva de uma cultura historicamente marginalizada.
A narrativa do show avançou por camadas. Entre dança, festa e coreografias elaboradas, surgiram referências explícitas aos apagões que assolaram Porto Rico após o furacão Maria, às desigualdades estruturais e à condição ambígua da ilha como território dos Estados Unidos sem plena cidadania política.
A presença de artistas de diferentes gerações da música latina reforçou a ideia de continuidade histórica, não de moda passageira. Foi um dia de celebração da caça. Coube ao caçador apenas se lamentar, se lamuriar e destilar amargura sem fim.
O momento final condensou o gesto político do espetáculo.
Dançarinos entraram carregando bandeiras de todos os países das Américas, enquanto Bad Bunny pronunciava, um a um, seus nomes, do sul ao norte, encerrando com Porto Rico. A América apresentada ali não era sinônimo de Estados Unidos, mas um continente plural, linguística e culturalmente diverso.
Mas não parou por aí: ao segurar uma bola com a frase “Together, We Are America”, o artista propôs uma redefinição simbólica do próprio conceito de América — em oposição direta às visões excludentes que associam identidade nacional à homogeneidade cultural.
A reação negativa de setores conservadores, incluindo manifestações públicas do ex-presidente Donald Trump, revelou menos sobre o show e mais sobre o incômodo que ele provocou. A crítica à língua espanhola e à estética latina expôs a persistência de um sistema que tolera diversidade apenas quando ela se adapta ao centro dominante.
O sucesso do espetáculo, entretanto, enfraqueceu esse discurso. Nas horas seguintes, plataformas de streaming registraram crescimento explosivo no consumo das músicas de Bad Bunny, com múltiplas faixas ocupando simultaneamente os primeiros lugares dos rankings globais.
Bad Bunny — nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio, nascido em 1994, em Vega Baja, Porto Rico — construiu sua trajetória fora dos padrões tradicionais da indústria. Filho de um caminhoneiro e de uma professora, trabalhou em supermercado enquanto produzia músicas de forma independente. Desde o início, recusou a higienização estética frequentemente exigida de artistas latinos para alcançar o mercado global. Cantou em espanhol quando sugeriam a tradução, desafiou padrões rígidos de masculinidade e incorporou crítica social à sua obra sem separá-la do prazer e da dança.
Ao ocupar o Super Bowl, Bad Bunny não apenas ampliou sua projeção internacional. Ele deslocou o eixo simbólico de um espetáculo historicamente associado à exaltação de uma identidade única. Seu gesto não foi panfletário, mas estrutural. Ao mostrar que alegria, festa e denúncia podem coexistir, revelou que a exclusão cultural não é acidente, mas escolha política.
O que se viu naquele intervalo não foi apenas um show musical recordista de audiência. Foi a demonstração de que a cultura, quando não pede autorização, pode atravessar fronteiras que a política institucional insiste em manter.
O Super Bowl, por alguns minutos, deixou de ser apenas vitrine do poder para se tornar espelho de suas limitações. E nada mais havendo a tratar, declaro encerrado este artigo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



