Bolsonaro e Moro: o duelo dos ídolos com pés de barro

O que ambos conseguem, de fato, é degradar a imagem da Instituição Polícia Federal, legitimar o descrédito com a seriedade de investigações e da independência do órgão, já sucessivamente abalado por episódios de perseguição a atores políticos selecionados

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O Brasil vive uma crise política de proporções épicas. E não estou, neste caso, falando da pandemia de Covid-19. Embora ela não possa ser descartada em qualquer análise que ora se faça, para algumas questões foi ponte, apenas, para evidenciar processos que se encontravam submersos nas sombras das relações estabelecidas por e entre membros do governo de Jair Bolsonaro. Estou tratando da falta de alinhamento e direção, que desborda de dentro do Palácio do Planalto, atinge todos os poderes, e cria uma instabilidade muito além da que é causada pelo novo coronavirus.

Hoje, mesmo observadores menos atentos se dão conta de que há um problema grave na conjuntura política brasileira, representado pela presença incisiva de um governante que se nutre da democracia para negá-la, manobra que, historicamente, sempre caracterizou a vocação totalitária. 

Em um presente de isolamento, desemprego, incerteza e desesperança, o Brasil atual é uma caricatura de um passado recente, com uma política pública que amplia retirada de direitos sociais e se deforma, sem que se vislumbre no horizonte sequer uma promessa digna de credibilidade. 

Envolvido em uma polêmica cotidiana sobre restringir a quarentena e reabrir comércio e escolas, o governo federal não aponta caminhos para a saída da crise, expandida com a demissão do ministro da saúde Henrique Mandetta e, mais recentemente, com a saída do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, na última sexta-feira (24), que resolveu retirar-se batendo pesado e fazendo acusações contra seu chefe.

Sobre ele, para que nossa memória nos permita uma análise mais precisa e coerente, Sérgio Moro, na condição de juiz federal da 13ª Vara de Curitiba, condutor da operação Lava Jato, foi o responsável pela condenação do ex-presidente Lula e, portanto, por impedi-lo de participar do processo eleitoral de 2018, no qual aparecia em primeiro lugar nas pesquisas. Quando, ainda juiz, aceitou o cargo de ministro da Justiça do eleito, além de incorrer em desvio ético e contrariar a Lei Orgânica da Magistratura, Moro deixou ainda mais evidente sua parcialidade. 

A ninguém é dada a ingenuidade de crer que Moro não sabia que o discurso contra corrupção de Jair Bolsonaro correspondia a uma fachada para sua eleição. Aceitou o cargo de ministro com total ciência de onde estava se metendo, tendo trabalhado diretamente pelo resultado. Na verdade, sua intenção sempre fora utilizar o governo Bolsonaro como trampolim para sua ascensão política. 

Internamente, passo a passo, dentro do cargo, Moro foi se “bolsonarizando”. Mudou o discurso sobre Caixa 2 para defender Onix Lorenzoni, então ministro da Casa Civil, que apareceu na planilha dos delatores da J&F à Procuradoria Geral da República. Pediu investigação sobre vários atores que teriam “ofendido” o presidente, ao mesmo tempo em que fechou os olhos e ouvidos para as inúmeras acusações sobre a família do dirigente máximo da nação, os membros do partido que o elegera e parlamentares aliados, de corrupção e outros crimes.

No momento mais crítico do governo até aqui, em que fica evidente o despreparo de Jair Bolsonaro para conduzir o país durante uma alteração da normalidade, decorrente de uma ocorrência sanitária de escala mundial, o presidente resolve demitir o Diretor-Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. O Ministro da Justiça, Sérgio Moro, ao discordar, deixa o governo.

Bolsonaro e Moro são duas faces da mesma moeda. Figuras distintas nos métodos, mas construídas no imaginário social a partir dos mesmos pressupostos de ética e retidão, falsamente montados. Apresentados como bravos combatentes da corrupção, ambos correspondem ao modelo de portadores da salvação e redenção, maquiavelicamente engendrados pela mídia, empresários e suas redes de seguidores, a partir da escolha de um antagonista, pessoa ou coletivo, que lhes corresponde na mesma hipótese. 

O inimigo de Bolsonaro é Lula. De Moro também. Isso porque Lula porta toda a simbologia da esquerda, seus líderes e dirigentes. Por isso condená-lo, prendê-lo, retirá-lo da vida pública, persegui-lo implacavelmente. Moro serviu a Bolsonaro de forma exemplar, pavimentou o caminho para que o objetivo do outro fosse alcançado. Nessa linha, usou o cargo de juiz e o sistema de justiça, violando o Estado de Direito, para o único desígnio de “eliminar” o inimigo ideológico. 

Bolsonaro faz parte do mundo da política há cerca de 30 anos, afirmando-se, paradoxalmente, um militante da antipolítica e do antissistema. Foi eleito com e apesar de seu discurso histórico que nega a democracia, defende a ditadura, a prática da tortura e dos fuzilamentos, além de promover abertamente ideias misóginas e homofóbicas, e de negar a necessidade de o Brasil reparar minimamente os efeitos da escravidão com políticas afirmativas. Moro, juiz de carreira há 22 anos, nunca se preocupou em cumprir as mais básicas regras processuais.  Jogava com a mídia e dela sempre se alimentou. Cometeu diversos crimes no curso de processos que conduziu, escolhendo inimigos, negociando os passos da investigação com os procuradores da operação por meio do aplicativo Telegram, como ficou demonstrando pelo portal The Intercept Brasil e parceiros. 

Moro e Bolsonaro se comportam como estrelas em um palco, representando o papel que conseguiram lhes fosse ofertado, onde o legítimo interesse público, a democracia e o respeito à Constituição, somente se apresentam como retórica discursiva.

Enquanto operam o exercício do poder, Bolsonaro e Moro direcionam o olhar do coletivo para o mundo das aparências, das superfícies e da construção de verdades fabricadas. Mitos vazios e falsos heróis, contudo, não resistem ao cotidiano de desafios reais e viram caricaturas de si mesmos. A desilusão que causam quando evidenciam que o excessivo idealismo que vendem não pode provê-los de ideias coerentes, nem respostas sensatas sobre problemas complexos que atingem a sociedade, simplesmente porque não as possuem, é enorme.

Uma lista de crimes foi revelada por Sérgio Moro em sua retirada do governo. Vários cometidos por Bolsonaro, outros por ele próprio. Outros foram apontados pelo seu ex-chefe em resposta. Certo é que nessa encenação não cabem heróis. E só existe uma vítima: a sociedade brasileira.

No conflito posto, o que Bolsonaro e Moro desejam desde sempre é deter o controle sobre a Policia Federal, manter um diretor-geral que obedeça ao seu comando, para interesses nada republicanos.  

O que ambos conseguem, de fato, é degradar a imagem da Instituição Polícia Federal, legitimar o descrédito com a seriedade de investigações e da independência do órgão, já sucessivamente abalado por episódios de perseguição a atores políticos selecionados.

No plano de dignidade, coerência e honestidade, Moro e Bolsonaro, os ídolos, podem possuir a cabeça de ouro, corpo de prata, bronze e ferro, mas os pés são de barro. Como na parábola bíblica do profeta Daniel, os princípios e valores éticos não possuem em ambos qualquer sustentação verdadeira, podendo ser, a qualquer tempo, levados pelo vento sem deixarem vestígios.

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