Bolsonaro e o eleitor do rancor

Cada parente ou amigo que votou em Bolsonaro tinha um tipo de rancor, entretanto, achou por bem inventar alguma desculpa razoável para justificar o voto no não-projeto

Hoje para mim, é um dia de luto (no sentido da luta; mas também da perda). Estou a "perder" vários parentes e amigos. E imaginem o porquê. Não sabia que meus próximos tinham tanto, tanto preconceito encubado. Um percentual bastante significativo dos meus entes queridos votaram em Bolsonaro. E deste percentual [1], não por seus projetos de transformação do Brasil; não porque os programas do candidato tendem a uma mudança positiva ao conteúdo civilizatório brasileiro; não porque os pobres, a classe média, as minorias, os pequenos empresários pudessem ver renovadas suas esperanças num País realmente igualitário, justo e a serviço de todos e todas.

Votaram porque sua alma, inflamada pelo trauma do não-aceite à diversidade, precisava de uma cura, mesmo que paliativa, ou uma espécie de morfina simbólica; e Bolsonaro, o ser mais preconceituoso que já vi na minha vida – porém, com muito muito poder – transformou-se na medicação a "liberar a dor" presa em tamanho rancor.

O rancor de alguns era com os pobres, especialmente os que recebem o Bolsa Família. Como algumas famílias têm muita comida, não sabem o que é um pai de família ir procurar emprego (sem empregos) deixando para traz os filhos com a barriga doendo de fome. Os "memes" que recebi ontem davam conta de, a partir da vitória de Bolsonaro, "botar pra trabalhar" os "vagabundos" do Bolsa Família. Que ódio desproporcional; quem tem alimento e oportunidades a sobrar, no lugar de seu conforto, julga quem nada teve na vida.

O rancor de outros, porém, é porque, sendo patrão, viu seu filho ficar fora da vaga de Direito na Universidade Federal (só queria saber de farra o garoto), e o filho de seu jardineiro ocupando aquela mesma vaga. Com uma enorme diferença: o filho do patrão terá inúmeras chances a mais, pois o pai, tanto pode pagar a faculdade no exterior, quanto aqui mesmo no Brasil.

O rancor em outros amigos é de ver a mulher ganhando mais liberdade dia após dia na sociedade, e de seus direitos serem disputados para a igualdade (igual, de fato), a exemplo: exercer a mesma função que um homem no mercado de trabalho, no entanto, com salários diferenciados.

O rancor, que também notei, era de ver a alegria de um casal gay, realizados como humanos por terem encontrado alguém que lhes desse carinho, quando vários casais "convencionais" estavam em pé de guerra em casa, e outros, porém, não se contentavam gratuitamente de ver um gay (humano), como dizem: feliz!

O rancor é ainda de ver os negros começando a disputar em pé de igualdade as vagas nos concursos públicos, nas universidades, nos espaços sociais. Isto é, o negro, que desde 1.500 era sub-gente, passou a ser tratado na sua real condição humana. Mas os desumanos não aceitam isso (só que não assumem sua ira internalizada). E acham belo seu discurso desmontado de lógica de que cota é homologação de preconceito estatal.

Cada parente ou amigo que votou em Bolsonaro tinha um tipo de rancor, entretanto, achou por bem inventar alguma desculpa razoável para justificar o voto no não-projeto.

Nunca tinha visto uma eleição assim; em que o voto não é pelo conteúdo programático, ou a esperança de transformação, contudo, pela anulação do outro humano, aniquilação da alegria de outro humano (com pseudos desculpas de "fim da corrupção" que logo se mostrou discurso vazio, haja vista que Bolsonaro foi pego com a boca na botija e estava envolvido em Caixa 2, além dos 200 mil reais que recebera da Friboi, em 2014 – mesmo assim seus eleitores se mantiveram fies ao candidato também corrupto).

Mas, enfim, fiz esse texto apenas como introdução ao que realmente quero deixar registrado: meu poema abaixo. Será minha cartilha, meu protocolo ao formato que passarei a tratar gente que, por acaso, eu identificar com algum dos rancores acima.[2]

Segue o singelo poema, que dei o título de: "O que faltou de ti".

 

Do dia de hoje em diante

Tratarei diferente

Quem trata como não-gente

O diferente de si.

 

Por que...

Você deseja cordialmente o fim do outro,

Apequena o outro no íntimo

E revela o rancor encubado

Quando confrontado com seu sucesso,

Sua alegria

(Meio vazia).

 

Receberei em minha casa de telha,

Mas não receberei onde habita meu coração.

 

Comunicarei na rotina do social,

Mas não farei dialogia civilizatória.

 

Tratarei com o respeito protocolar,

Todavia, será apenas a etiqueta trivial.

 

E não terei preconceito de ti

Para não ser como tu:

Vazio, de um lado da existência...

 

Assim, talvez me sobre mais tempo

Para preencher no outro

O que faltou de ti!

.................

[1] Primeiro, deixo claro que, dos eleitores do Bolsonaro em minha família, alguns votaram de fato acreditando que ele é uma pessoa do bem e que tem projetos para transformar o Brasil. Não sei onde viram isso. No entanto, tinham uma boa intenção.

Segundo: a metáfora e o poema não é apenas para minha família e amigos; contudo, serve à reflexão de todos os eleitores Brasil afora.

[2] Antes de finalizar, gostaria de, modestamente, aconselhar a que nos espelhemos na ética ecológica. A Natureza respeita todas as formas de vida. E acolhe o rigor e a riqueza da diversidade; une-os. Torna-os como complementares ao mosaico da beleza. Faz da diversidade a harmonia do belo. É a estética do ambiente e da vida.

 

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