Bolsonaro, em chamas, empurra Lula

Denise Assis avalia que os 19% de vantagem de Lula no Datafolha demonstram que a suposta preocupação de Bolsonaro com a alta dos combustíveis não colou

www.brasil247.com - Bolsonaro e Lula
Bolsonaro e Lula (Foto: Isac Nóbrega/PR | REUTERS/Washington Alves)


Por Denise Assis, para o 247

Hoje, Dom Philips e Bruno Pereira serão entregues às famílias. Não são “remanescentes humanos”, como fria e tecnicamente a Polícia Federal os chamou. São dois cidadãos que se empenharam até o fim nas atividades a que se dedicaram. Graças ao trabalho dos indígenas da região, os policiais e os militares envolvidos na busca puderam trazê-los de volta, para que os familiares tivessem sobre o que prantear e fechar o luto.

A elucidação do caso no sentido de localizá-los demorou a ser iniciada, mas quando foram a campo, auxiliados conforme citei pelos locais, conseguiram esclarecer e deter os que estavam na cena do crime. Falta contar o restante da história.  

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Após as prisões a PF se apressou em dizer que estava tudo elucidado. Não havia mandante. Dois pés de chinelo se invocaram com dois “aventureiros” audaciosos e abelhudos, dispararam em seus corpos, carregaram-nos por três quilômetros para dentro da mata, atearam fogo. Como não deu muito certo partiram então para o esquartejamento, que Michel Foucault, chama de “morte em suplício”, e descreve: “a morte em suplício é a arte de reter a vida no sofrimento, subdividindo-a em mil mortes”. Sim, Bruno e Dom morreram muitas mortes.  

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Havia um “desfecho” e as autoridades se apressaram, não só em dizer que o caso estava resolvido, como não tinha um mandante. Precipitação. Logo a pressão internacional, da sociedade e o absurdo da afirmação saltaram do caso.  

Para a PF era importante dizer que não havia mandante. Aparelhada e dividida internamente, não se sabe ao certo quantos e quais são os fiéis ao capitão. Por via das dúvidas, se afirmassem que havia um mandante as investigações teriam de prosseguir, o Estado se posicionar, entrar com ações e diligências pesadas, mapeando atividades que não deviam. Deus e os micos da floresta sabem que há interesse em desmatamentos e outras atividades extrativistas lá no comando central.  

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Há um ponto, no entanto, a ser levado em conta. Eis que a parcela aparelhada da Polícia Federal ficou sabendo que não vai receber aumento de jeito nenhum, que os olhos do mundo estão virados para a Amazônia e que o melhor para ficar bem na fita seria continuar com os devidos trabalhos. E, mais: que a versão de que dois atiraram, conseguiram sozinhos arrastar dois corpos mortos mato adentro e ainda afundar um barco de 40 pés, não convencia nem mesmo aos índios isolados cuidados por Bruno.  

Ludibriados, os integrantes da PF caíram na promessa vazia do aumento, barrado pelo ministro Guedes. Sem o aditivo, já descobriram que o bando é muito maior do que os dois “Pelados” presos. Enfezados, possivelmente chegarão aos interessados nas mortes dos defensores da Amazônia.

Aquela esperança de tudo se ajeitar, Bolsonaro, pode esquecer. A PF segue fazendo o seu trabalho. E tanto é assim que partiu para o caso do ex-ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, até então deixado em descanso. (Com perspectiva de retornar ao cargo, segundo promessa do chefe no ato de demissão).  

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Parecem dispostos a não deixar nada parado, os integrantes da PF. O delegado Bruno Calandrini, que conduzia o caso da prisão do ministro, denunciou aos colegas interferência em sua atuação. "O deslocamento de Milton para a carceragem da PF em SP é demonstração de interferência na condução da investigação, por isso, afirmo não ter autonomia investigativa e administrativa para conduzir o inquérito policial deste caso com independência e segurança institucional", diz trecho da sua mensagem.  

À tarde Milton Ribeiro foi solto, mas o delegado não deixou de botar a boca no mundo, quanto às esquesitices que detectou no inquérito. De acordo com o seu texto, Ribeiro, apontado por ele como o "principal alvo" da operação, "foi tratado com honrarias não existentes na lei".

Calandrini disse também que comunicou ao seu superior a situação e que irá manter a postura "de que a investigação foi obstaculizada ao se escolher pela não transferência de Milton a Brasília à revelia da decisão judicial".

Bolsonaro tem todo interesse em manter o ex-ministro fora da capital e longe das imediações do Palácio. Os 19% de vantagem escalados pelo ex-presidente Lula na corrida presidencial, segundo pesquisa Datafolha, demonstram que as encenações do presidente para fingir que se preocupa com a alta dos combustíveis, não colou. Manter a versão de que o crime na selva estava resolvido e liquidado, tampouco. Os últimos dias no Planalto deixaram ver que não foi só a cara que Bolsonaro botou no fogo. Torrada está a sua imagem. Enquanto isto, a mídia tradicional bate bumbo para Simone Tebet (MDB), na tentativa de colocá-la no segundo turno, contra Lula, fazendo cinzas da pretensão de Bolsonaro. Aspiração tão custosa quanto empurrar um carro alegórico. Afinal, Tebet sair de 1% só porque eles querem, nem por milagre de São João. Mas Bolsonaro também já deve estar fazendo promessa. A continuar assim, Lula levará no primeiro turno.

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