Carlos Bolsonaro e a facada que não sai de cena
Entre coincidências, versões e silêncios, a nova narrativa do filho de Jair sobre Adélio Bispo levanta mais perguntas do que respostas
O episódio da facada em Jair Bolsonaro, ocorrido em Juiz de Fora em setembro de 2018, continua sendo explorado politicamente pela família Bolsonaro. Desta vez, foi Carlo Bolsonaro quem fez de Adélio Bispo de Oliveira uma espécie de trampolim para sua candidatura ao Senado por Santa Catarina.
Ao explicar sua ligação com o Estado, Carlos trouxe novamente à tona o caso Adélio Bispo. Em uma declaração que pode repercutir no debate público, afirmou: "Minhas frequências de formação no clube de tiro foram aqui em São José. O Adélio me procurou no clube que eu frequentava".
Em seguida, o entrevistador, da rádio Jovem Pan, comentou: "O Adélio Bispo, né? Aquele que deu a facada no seu pai”. Carlos respondeu: “Em momentos antes ele, inclusive, quis dar em mim ainda". E completou: "Não sabe-se o porquê e por que a Polícia Federal não investigou isso também."
São afirmações fortes. Mas, ao mesmo tempo, elas levantam mais perguntas do que respostas. Primeiramente, como mostrei no documentário “Bolsonaro e Adélio - Uma fakeada no coração do Brasil”, Adélio, ao se aproximar de Carlos, não parece ter a intenção de atacá-lo, mas de chamar sua atenção, parece até querer conversar.
É como se já se conhecessem e ele quisesse dizer: “Estou aqui”. Isso, sim, é que teria de ser investigado: eles já se conheciam? Não há dúvida de que os dois estiveram em Florianópolis no mesmo dia, 6 de julho. Adélio fazia aulas no clube de tiro, Carlos esteve lá na mesma época. Tanto que postou uma foto no dia 7 de julho, praticando tiro.
E uma análise do perfil de Adélio Bispo de Oliveira revela que ele só começa a atacar Bolsonaro depois que fez o curso. Posta um comentário na própria página de Jair Bolsonaro para ameaçá-lo. Também posta comentários hostis nas páginas de apoiadores do então candidato a presidente, mas só depois de sua passagem pelo clube.
Antes disso, ele até tinha postagens favoráveis às bandeiras bolsonaristas. Uma delas ataca o presidente do Senado na época, Renan Calheiros, quando esteve decidiu não colocar em votação um projeto de lei aprovado na Câmara e que tinha Jair Bolsonaro como um dos autores, o da redução da maioridade penal para 16 anos.
O que mais intriga, no entanto, é a incompatibilidade entre sua condição financeira e os custos associados à prática do tiro. À época, Adélio vivia em condições extremamente modestas, morando em um quarto de pensão simples e pagando aluguel de aproximadamente R$ 200 por mês. O valor necessário para frequentar um curso de tiro em um clube frequentado por empresários, profissionais liberais e integrantes da elite econômica local era significativamente superior.
Como alguém nessa situação financeira conseguiu custear essa formação? Quem financiou essa despesa? Houve ajuda de terceiros? Essas perguntas permanecem sem respostas definitivas.
Outro aspecto relevante é a relação histórica entre a família Bolsonaro e o clube .38. Não se trata de um local qualquer. O espaço sempre foi identificado com setores da direita e da extrema direita catarinense. Na época, a atual deputada federal Júlia Zanatta atuava como porta-voz do clube. O próprio Carlos Bolsonaro admite sua proximidade ao afirmar que realizava ali suas "frequências de formação".
Mas talvez a questão mais intrigante esteja na narrativa apresentada sobre Juiz de Fora. Isso leva a uma pergunta inevitável: eles já se conheciam?
E mais importante: se Carlos Bolsonaro realmente desconfiou de Adélio naquele momento, por que não comunicou os seguranças? Por que não alertou a Polícia Militar, que mantinha um forte esquema de segurança na Praça Halfeld? Se havia uma percepção de risco, ainda que subjetiva, a atitude mais natural seria informar imediatamente às autoridades responsáveis pela proteção do então candidato.
A própria versão apresentada por Carlos sugere que algo lhe chamou a atenção. Se isso ocorreu, por que não houve qualquer providência preventiva?
A pergunta não é uma acusação. É apenas uma consequência lógica da narrativa construída pelo próprio entrevistado.
Também chama atenção o momento político em que essas declarações reaparecem. Carlos Bolsonaro deixou claro que sua mudança para Santa Catarina tem um objetivo político. Ao afirmar que "eu escolhi Santa Catarina porque eu amo estar aqui" e que agora pretende atuar "na linha de frente para que a gente fortaleça ainda mais esse movimento crescente no Brasil", ele confirma sua entrada em uma nova etapa eleitoral.
Nesse contexto, o reaparecimento do caso Adélio não parece casual.
O atentado de 2018 teve enorme impacto na eleição presidencial. O próprio Jair Bolsonaro já sugeriu publicamente que a facada foi decisiva para sua campanha. O episódio gerou uma onda de solidariedade, aumentou sua exposição na mídia e alterou profundamente a dinâmica eleitoral daquele ano.
O problema surge quando um ato de violência deixa de ser apenas um fato histórico e passa a funcionar como um ativo político permanente. A cada eleição, a cada disputa, a cada novo projeto eleitoral, o episódio retorna ao centro do debate sem que novos elementos concretos sejam apresentados.
Enquanto isso, Adélio Bispo continua em presídio de segurança máxima após ter sido considerado inimputável em razão de transtorno mental e absolvido impropriamente pela Justiça.
Talvez a pergunta mais relevante em 2026 não seja quem foi Adélio Bispo. Essa resposta já foi dada pela Justiça.
A questão é outra: por que a facada continua sendo tão útil politicamente para determinados setores do bolsonarismo? E por que ela reaparece justamente quando um dos filhos do ex-presidente inicia uma campanha para o Senado?
Quando um acontecimento traumático retorna repetidamente ao debate público sem que surjam fatos novos, é legítimo perguntar se estamos diante de uma busca pela verdade ou de uma estratégia para manter viva uma narrativa que já produziu dividendos eleitorais no passado.
Veja o meu comentário em vídeo sobre a entrevista de Carlos Bolsonaro:
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PS: Adélio recebeu a visita virtual da irmã Maria das Graças nesta sexta-feira (12/06) e falou sobre o filme “Dark Horse”, mas, para saber o que ele disse, vocês terão de esperar pelo próximo artigo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




