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Laurez Cerqueira

Autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes - vida e obra; Florestan Fernandes – um mestre radical; e O Outro Lado do Real

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Censuraram os nomes de partes do nosso corpo

Talvez o gesto mais revolucionário seja simplesmente devolver às coisas o seu nome, sem medo, sem constrangimento

Censuraram os nomes de partes do nosso corpo (Foto: Freepik)

Há algo de profundamente revelador na forma como nomeamos o próprio corpo, esse território íntimo que habitamos desde o primeiro sopro de consciência. Entre o que o povo diz e o que a ciência permite dizer, interpõe-se uma muralha antiga: a moral religiosa, a sombra pálida de um pudor herdado, que se insinua nas conversas, nos gestos, e sobretudo nas palavras proibidas. Porque, sim, há palavras proibidas, não por ferirem, mas por revelarem a verdade simples do que somos.

O povo, sábio em sua espontaneidade, batizou cada pedaço de si com a liberdade de quem reconhece a vida como um organismo pulsante. Mas a moral, essa guardiã dos “bons costumes”, tratou de pôr mordaça nos termos que considerou inconvenientes, como se pudesse extirpar da carne aquilo que existe por natureza. Orelha, nariz, boca, dedo: esses escapam à vigilância, talvez porque se exibem ao sol, porque não escondem segredos. Já o que se oculta e, no entanto, sustenta nossa sobrevivência é envolto em silêncio, vergonha e censura.

Curioso é que a ciência, ao nomear, absolve. O mesmo orifício que o pudor proíbe pode ser pronunciado sem escândalo quando vestido de latim. O corpo, traduzido para o idioma clínico, torna-se aceitável; perde a carne, ganha solidez conceitual. A boca é um orifício superior, elegante e funcional; o traseiro, quando dito como “região glútea”, ganha uma respeitabilidade repentina, como se tivesse passado por um processo de batismo laico. A linguagem científica opera esse milagre: desodora, dessexualiza, desumaniza mas, paradoxalmente, liberta o que antes era vergonhoso.

Talvez seja por isso que o alimento, antes de entrar no corpo, é festa, arte, ritual. Brilha nos salões, inspira poetas, orgulha chefes que lhe conferem aura estética. Contudo, basta que cruze o portal da digestão para ser banido das conversas. A culinária, celebrada na mesa, é expulsa do vocabulário ao final do percurso, e o “bolo alimentar”, termo asséptico que a ciência habilmente inventou torna-se um véu para aquilo que a vida, simplesmente, faz. Não se menciona o resultado final desse processo, ainda que todos dele dependamos, democraticamente iguais na mais biológica das rotinas.

O mesmo se dá com os órgãos do prazer e da continuidade da espécie. Nascemos deles, voltamos a eles na intimidade, construímos afetos e histórias a partir do que despertam, mas seus nomes populares permanecem interditados. Preferimos eufemismos, siglas anatômicas, como se a nudez da palavra fosse mais indecente que a nudez do corpo. Só admitimos os termos científicos, mas mesmo estes, pronunciados em voz baixa, carregam o rubor dos que ainda temem a própria natureza.

É como se tivéssemos aprendido a viver numa contradição permanente: habitar o corpo, mas negar-lhe o vocabulário. Recusamos as palavras que o nomeiam justamente quando elas nos aproximam da verdade mais elementar, a de que somos matéria viva, desejante, digestiva, mortal. Esquecemos que nomear não é ofender; é compreender. Que a palavra não suja: revela.

O corpo não é indecente. Indecente é o silêncio que o cerca. Talvez o gesto mais revolucionário seja simplesmente devolver às coisas o seu nome, sem medo, sem constrangimento. Reconhecer que nossa humanidade não está apenas no que escondemos, mas também no que dizemos e no que ousamos dizer com todas as letras: C* B* P* B** e tantos outros nomes dados pelo povo, que "no los puedo contar."

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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