China: vendo os mísseis passarem
O bloqueio de Ormuz pode quebrar o Ocidente. Mas não vai quebrar a China
Indo direto ao ponto: os BRICS estão em coma profundo. Detonados, pelo menos temporariamente, pela Índia – que, aliás, sediará a cúpula dos BRICS deste ano. E por falar em um péssimo timing.
A Índia vem traindo, sequencialmente, ambos os membros plenos dos BRICS, Rússia e Irã. Ao selar seu alinhamento ao Sindicato Epstein, Nova Delhi provou, sem sombra de dúvida, não apenas que é indigna de confiança: mais que isso, toda a sua altissonante retórica de “liderar o Sul Global” colapsou – definitivamente.
Os BRICS terão que ser totalmente remodelados: até mesmo o Grão-Mestre Sergey Lavrov terá que chegar a essa inescapável conclusão. O Triângulo Primakov original, o “RIC”, mais uma vez sobreviveu, mas não para sempre. Mesmo que a Índia não seja expulsa dos BRICS – ela pode ser suspensa –, o “RIC” passará a significar Rússia-Irã-China, ou mesmo “RIIC” (Rússia-Irã-Indonésia-China).
No que se refere a onde nos encontramos no Grande Tabuleiro de Xadrez, o Prof. Michael Hudson resume: “A grande ficção capacitadora chegou ao fim. A América não está protegendo o mundo de ataques da Rússia, China e Irã. Sua meta de longo prazo de controlar o comércio mundial de petróleo exige terrorismo contínuo e guerra permanente no Oriente Médio”.
O que quer que aconteça a seguir, o terrorismo que grassa por todo o Oeste Asiático continuará – como podemos ver quando o Sindicato Epstein, por impotência perversa e pura ira, despeja Chuva Negra sobre a população civil (itálicos meus) de Teerã porque os iranianos recusaram uma mudança de regime.
Além do mais, o cerne da questão, até pelo menos meados do século, é mais cristalino do que nunca. Ou o sistema excepcionalista de caos internacional irá prevalecer ou ele será substituído por uma igualdade conduzida pelo Sul Global, com a China liderando da retaguarda.
Esta é uma análise em duas partes das interações dos principais BRICS com relação à guerra contra o Irã. Nesta parte focaremos a China. A próxima focará a Rússia e a Índia.
Não atire! Sou de propriedade chinesa!
Especulações estúpidas da lavra do MICIMATT (think-tanks do complexo militar-industrial-parlamentar-de inteligência-midiático-acadêmico) “sugerindo” que a China vem se preparando para ajudar o Irã são, mais uma vez, prova de que a sofisticação chinesa escapa totalmente à compreensão das reles “análises” originárias da Barbárie.
Em primeiro lugar: energia. A China e o Irã pautam-se por um acordo mutuamente benéfico com vigência de 15 anos e valor de US$ 400 bilhões que, essencialmente, entrelaça investimentos em energia e infraestrutura.
Para todos os fins práticos, o Estreito de Ormuz está bloqueado devido ao pânico que forçou a retirada dos seguros ocidentais. Não por Teerã tê-lo fechado.
A China recebe 90% do total das exportações de petróleo cru iraniano, o que representa 12% do total das importações chinesas. O ponto central é que a China ainda tem acesso às exportações iranianas, bem como às da Arábia Saudita, dos Emirados, do Kuwait, do Qatar e do Iraque: isso porque a parceria estratégica Teerã-Pequim é inabalável, o que significa que os navios-tanque com destino à China podem cruzar o Estreito de Ormuz nos dois sentidos.
Pequim e Teerã negociaram um acordo bilateral de passagem segura, em vigor desde a última sexta-feira, naquilo que, para todos os fins práticos, é um corredor marítimo multilateralmente fechado de importância crucial. Não é de admirar que um número cada vez maior de navios-tanque venha agora digitando em seus transponders as palavras mágicas Propriedade Chinesa (itálicos meus). Esse é seu passaporte diplomático naval.
Tradução – e isso muda tudo, significando o fim da hegemonia talassocrática do Império do Caos.
“Liberdade de navegação”, em determinados corredores de conectividade marítima, agora significa “um acordo com a China”. Se for de propriedade chinesa, tudo bem. Mas não se for europeu, japonês ou mesmo sul-coreano.
O que Teerã recebe, às carradas, é ajuda high-tech chinesa para a guerra contra o Sindicato Epstein. E essa ajuda começou muito antes da guerra.
O Liaowang-1 chinês de captura de informações, um SIGINT (inteligência de sinais) de próxima geração e veículo de rastreamento espacial, há semanas vem navegando próximo à costa de Omã, fornecendo ao Irã, em tempo real, inteligência eletromagnética sobre a movimentação aérea e naval do Sindicato Epstein.
Isso explica, em enorme medida, a precisão milimétrica da maior parte dos ataques iranianos.
O Liaowang-1, escoltado por destróieres Type 055 e Type 052D, porta ao menos cinco domos de radar e antenas de alto ganho, rastreando com precisão pelo menos 1.200 alvos aéreos e mísseis simultaneamente, usando algoritmos de redes neurais profundas. O alcance de seus sensores é de cerca de 6.000 quilômetros.
O fantástico é que esses sensores podem rastrear igualmente um satélite chinês e um cargueiro estadunidense.
Tradução: a China está ajudando seu parceiro estratégico sem disparar um único tiro, apenas navegando uma plataforma de vigilância de processamento de rede neural em águas internacionais.
Então, sim: a China está gravando a guerra ao vivo, 24/7.
Complementando o Liaowang-1, mais de 300 satélites Jilin-1 gravam literalmente tudo, constituindo uma base de dados ISR do Império do Caos em ação.
Não haverá confirmação oficial, nem de Teerã nem de Pequim. Mas a inteligência ao vivo chinesa, retransmitida pelo sistema Beidou, foi certamente de importância crucial para que Teerã destruísse por completo a infraestrutura da 5ª Frota dos Estados Unidos em Bahrain – um centro amplo de radar, intel e base de dados, e a espinha dorsal da hegemonia dos Estados Unidos no Oeste Asiático.
Esse capítulo da guerra, montado desde o início, revela que Teerã partiu para a jugular quando se trata de esmagar o jogo de poder projetado pelo Império para controlar os gargalos estratégicos e o trânsito de energia, impedindo assim o acesso chinês a eles.
Por mais estarrecedor que pareça, o que estamos assistindo em tempo real é o Irã negando ao Império do Caos o acesso a pontos de estrangulamento marítimos importantes, a portos e a corredores de conectividade naval. Por enquanto, é o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz. Em breve poderá ser, com ajuda dos houthis do Iêmen, também o Bab al-Mandeb.
Esse é um ponto de virada que beneficia não apenas a China, mas também a Rússia – que precisa manter abertas suas rotas marítimas de exportação.
Quem tem dinheiro vai para o Leste
Bem, sigamos o dinheiro. A China detém 760 bilhões de dólares em títulos do Tesouro americano. Pequim ordenou que a totalidade de seu sistema bancário venda esses títulos sem demora e que, simultaneamente, acumule ouro.
China e Irã já comerciam em yuan. De agora em diante, o laboratório dos BRICS que ensaia sistemas de pagamento alternativos tem que atingir velocidade de escape. Isso inclui todos os mecanismos sendo testados – do BRICS Pay à Unit.
E então há o êxodo dos ingressos financeiros. Arábia Saudita, Emirados, Qatar e Kuwait já estão “revisando” cada acordo – suspeito ou não – firmado por eles com Washington. Coletivamente, eles controlam nada menos que 2 trilhões em investimentos americanos: títulos do Tesouro, ações de empresas tech do Vale do Silício, propriedades imobiliárias e tudo o mais.
Um tsunami de dinheiro vivo começa a invadir o Leste Asiático. A destinação favorita, no momento, é a Tailândia – e não Hong Kong. Isso vai acontecer em breve – e, mais uma vez, será imensamente lucrativo para a China, uma vez que Hong Kong é um dos principais nós da Área da Grande Baía, juntamente com Shenzhen e Guangzhou.
As reservas estratégicas e comerciais de petróleo cru chinesas são suficientes para cerca de quatro meses. Fora isso, importações de petróleo cru e gás natural podem ser aumentadas, tanto por mar quanto por dutos provenientes da Rússia, Cazaquistão e Myanmar.
Portanto, uma mistura de reservas estratégicas suficientes, diversidade de fontes de fornecimento e “transição do lado da demanda do petróleo para a eletricidade” mais uma vez qualificam a resiliência chinesa. O bloqueio de Ormuz pode quebrar o Ocidente. Mas não vai quebrar a China.
Tradução de Patricia Zimbres
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



