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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Choque do petróleo pressiona inflação nos EUA e no Brasil e complica cenário de juros

No Brasil, o Banco Central deve manter uma postura prudente. Cortes adicionais de juros, se ocorrerem, tendem a ser marginais

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva de imprensa, em Brasília - 27/03/2025 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

A inflação voltou ao centro das atenções nesta sexta-feira, 10 de abril, com dados fortes tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, refletindo de forma clara o impacto do choque recente nos preços de energia, especialmente combustíveis.

Nos Estados Unidos, o índice de preços ao consumidor (CPI) de março veio em linha com as expectativas no índice cheio, registrando alta de 0,9% no mês — a maior variação em vários meses. Em termos anuais, a inflação acumula 3,3%, enquanto o núcleo (core), que exclui itens mais voláteis, segue mais comportado, em torno de 2,6%.  

O principal vetor de pressão foi o grupo de energia. Os combustíveis subiram cerca de 44% em 12 meses, enquanto as commodities energéticas avançaram quase 20%. A gasolina, isoladamente, acumulou alta próxima de 19% no período, com um salto mensal de cerca de 21% — o maior da série histórica para um único mês.  

Esse movimento não chega a ser uma surpresa completa. O custo para abastecer um tanque nos Estados Unidos praticamente dobrou, passando de cerca de US$ 26–28 para mais de US$ 50. Ainda assim, a intensidade do repasse para os índices de preços reforça o caráter inflacionário do choque.

No Brasil, o cenário seguiu trajetória semelhante. O IPCA de março registrou alta de 0,88%, acima do observado em fevereiro (0,70%) e também acima das expectativas de mercado, que giravam em torno de 0,75%.  

A inflação brasileira foi puxada principalmente pelos grupos de transportes e alimentação. Transportes subiram 1,64%, enquanto alimentos e bebidas avançaram 1,56%, com destaque para itens como tomate, cebola, batata e leite, que registraram altas expressivas.  

Mesmo com a política da Petrobras segurando parcialmente os preços de combustíveis, o impacto ainda foi relevante: os combustíveis subiram 4,47% no mês, com a gasolina avançando 4,59%.  

No acumulado do ano, o IPCA já soma 1,92%, o que coloca pressão significativa sobre o cumprimento da meta de inflação. Na prática, isso significa que, em apenas três meses, quase dois terços da meta anual já foram consumidos — uma matemática que não fecha sem algum grau de tolerância ou revisão de expectativas.

Em 12 meses, a inflação brasileira está em 4,14%, com o mercado já projetando números próximos ao teto da meta, entre 4,6% e 4,7% ao final do ano.  

Diante desse cenário, as perspectivas de política monetária ficam mais desafiadoras. Nos Estados Unidos, embora ainda exista alguma expectativa de corte de juros até o fim do ano, o ambiente se torna menos favorável, especialmente com uma inflação pressionada por energia e um banco central mais cauteloso.

No Brasil, o Banco Central deve manter uma postura prudente. Cortes adicionais de juros, se ocorrerem, tendem a ser marginais. A autoridade monetária tradicionalmente reage aos efeitos secundários da inflação — ou seja, à disseminação dos choques para outros preços — e não ao impacto direto de energia.

O problema, como sempre, é que choques persistentes deixam de ser “temporários” e passam a contaminar expectativas. E quando isso acontece, a história costuma ficar bem menos confortável do que os modelos sugerem.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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