Cinquenta anos depois do Golpe de Estado, Milei reatualiza os anos sombrios da ditadura
Neste dia 24, ao recordar o aniversário do Golpe de Estado cívico-militar de 1976, os argentinos realizam centenas de atividades públicas em todo o país
Por Sergio Ferrari - Meio século depois do último - e mais brutal - golpe militar da história, a democracia argentina enfrenta hoje outro tipo de ataque: o governo de Javier Milei. Apesar de ter surgido das urnas, o seu governo é portador de um projeto econômico, social e ideológico em sintonia com o que foi implementado pela ditadura nos anos 70. No entanto, embora muitas vezes ignoradas pelos grandes meios de comunicação, são quase cotidianas as expressões de resistência popular contra esse projeto antissocial.
Radiografia da paralisia produtiva
Mais de 22 mil empresas, fundamentalmente médias e pequenas, embora também muitas grandes, fecharam suas portas nos últimos dois anos. Com uma perda de 300 mil postos de trabalho: 200 mil no setor privado e o resto no setor público.
Uma leitura mais detalhada das estatísticas oficiais revela mais de 550 mil pessoas deslocadas de empregos formais. Dentre elas, quase 386 mil categorizadas como microempreendedores sociais, ou seja, trabalhadores independentes. O governo impôs novas normas excludentes que empurraram milhares e milhares de microempreendedores a renunciar a essa categoria, passando assim a engrossar o setor informal, cada vez mais amplo e desregulado (https://www.infobae.com/economia/2026/02/12/desde-el-inicio-del-gobierno-de-milei-se-perdieron-300000-empleos-asalariados-registrados/).
Preços europeus, salários de fome
Desde a assunção do novo governo foram dois anos muito complexos tanto para o setor assalariado quanto para os independentes, e o futuro não se vislumbra melhor. Em fevereiro, o governo conseguiu que o parlamento aprovasse a nova Lei do Trabalho, reforma trabalhista de corte neoliberal com semelhanças à legislação que prevaleceu durante a última ditadura entre 1976 e 1983. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) anunciou que questionará judicialmente essa Lei. Fundamentalmente, porque ela produzirá o enfraquecimento intencional da organização sindical e de direitos essenciais, como as negociações paritárias por setores e o direito de greve. Essa nova lei, que Milei apresenta como de “modernização trabalhista”, implica em perda de conquistas históricas, como os contratos de trabalho e o reconhecimento das horas extras, além do aumento das jornadas de trabalho, férias fracionadas a critério do patrão e a flexibilização das demissões.
Em termos macroeconômicos, trata-se de uma transferência multimilionária de recursos dos trabalhadores e aposentados para o setor empresarial. A partir da aplicação da Lei, por exemplo, os empresários (grandes, médios e pequenos) contribuirão mensalmente para um Fundo de Assistência Laboral (FAL) para subsidiar as demissões trabalhistas, que certamente se multiplicarão vertiginosamente. Ironicamente, esse fundo que se constitui com 3,5% da massa salarial bruta o setor patronal poderá descontá-lo de sua contribuição obrigatória para as aposentadorias e previdência social. Essa transferência gigantesca da renda nacional dos trabalhadores e aposentados para os empresários representa nada menos que um castigo imerecido aos aposentados, que já estão sofrendo com o congelamento de suas magras pensões e a perda irreversível de seu poder aquisitivo. (https://centrocepa.com.ar/informes/727-la-precarizacion-avanza-analisis-de-la-reforma-laboral).
Para dar um rosto humano a esses números, basta mencionar que a pensão mínima atual (incluindo um bônus suplementar especial) equivale a 305 dólares mensais, enquanto o salário mínimo inicial está em torno de 239 dólares. Por sua vez, o salário de um empregado de comércio com dez anos de antiguidade mal chega a 774 dólares mensais. Em resumo, rendimentos deprimidos ao máximo em um país cujos preços são por si exorbitantes. Onde um quilo de pão custa entre 2,50 e 3 dólares e um litro de leite em torno de 2 dólares, enquanto um quilo de arroz ronda os 3 dólares, o de farinha mais de 1 dólar e qualquer corte de queijo comum, supera os 10 dólares. As roupas, assim como os serviços públicos, como água corrente, gás e eletricidade, custam tanto quanto na Espanha, França ou Itália. O custo mensal da saúde privada também atinge níveis europeus: uma "prepaga" (seguro privado de saúde) de cobertura básica e sem luxos para um grupo familiar de quatro pessoas pode oscilar em 400 dólares, alcançando mais de 1.000 dólares mensais as que oferecem melhores serviços básicos. Em outras palavras: para evitar cair em situação de pobreza, como a que padecem mais de 40% da população (segundo estatísticas não oficiais, segundo o governo menos de 30%), uma família precisa de um mínimo de quatro salários básicos.
Um item à parte nos últimos dois anos é ocupado pelo desfinanciamento da educação, da ciência e da cultura em todos os níveis. Este ano, o Fundo Nacional para a Educação Técnico Profissional (FONETP) sofrerá um corte histórico, aproximadamente de 93% em relação aos fundos utilizados em 2023. (https://centrocepa.com.ar/informes/729-desfinanciamiento-del-sistema-educativo-el-retroceso-de-la-etp-las-universidades-y-la-cyt).
A abrupta queda do poder aquisitivo dos trabalhadores, assim como de sua participação na renda nacional, foi um dos principais objetivos da ditadura dos anos 70. Em 1974, essa participação representou 45% do orçamento nacional, mas, em 1982, quase no final da ditadura, apenas 22%. Com o kirchnerismo no governo, chegou a 51%, e atualmente oscila em torno de 36%.
Semelhanças entre ambos os modelos que se expressam, também, na priorização absoluta do capital financeiro, na punição à produção nacional ao privilegiar a importação livre e indiscriminada de produtos, e na explosão do ciclo de endividamento (https://ri.conicet.gov.ar/handle/11336/265247).
Além disso, a política mileísta, que procura disciplinar com rigor os sindicatos, arrancar-lhes poder de suas estruturas e desregular os direitos trabalhistas, coincide com a dos ditadores da década de 70. Significativamente, dois projetos semelhantes abençoados desde Washington -atualmente expressos na subordinação de Milei à política de Trump- e patrocinados pelos organismos financeiros internacionais, em especial pelo Fundo Monetário Internacional.
Ambos projetos -ontem e hoje- fundamentam suas políticas de repressão, embora com diferenças de métodos e níveis de brutalidade, em concepções conservadoras e discursos “anticomunistas”, no desmantelamento do Estado social e no império do capital acima de tudo. Assim como em um maior controle da migração e de uma parte importante dos grandes meios de comunicação (ontem e hoje) e de ativas redes sociais promotoras de fakes e boatos (hoje).
Desgaste econômico sem correspondência política
Segundo uma pesquisa de fevereiro da consultoria Projeção, 70% dos entrevistados disseram que a economia continua tão mal ou pior em relação a dezembro de 2025, pouco antes da chegada do novo governo, devido ao "ajuste" econômico e financeiro introduzido por Milei. Outro dado crucial surgido da pesquisa é que 57% admitiram ter recorrido ao endividamento para cobrir despesas domésticas por meio de empréstimos entre familiares, cartões de crédito, carteiras virtuais, créditos bancários ou financeiros.
Apesar do desconforto econômico, o cenário eleitoral continua mostrando-se auspicioso para o governo. Se hoje houvesse eleições nacionais, La Libertad Avanza obteria 43,6% dos votos, enquanto o peronismo/kirchnerismo (enfrascado em inexplicáveis brigas internas e com a ex-presidente Cristina de Kirchner, proscrita e na prisão) alcançaria 35,9%. Muito atrás, outras forças com apenas 3%. Apesar do desgaste social causado pelo projeto Milei, essas projeções permitem pensar que, por enquanto, o eleitorado não vê uma alternativa de governo e que, além disso, continua cobrando caro dos dois governos anteriores, tanto o neoliberal de Mauricio Macri quanto o peronista de Alberto Fernández, por não terem cumprido suas promessas de melhoria social. (https://www.infoplatense.com.ar/costo-social-del-plan-milei-siete-de-cada-diez-argentinos-dicen-que-su-economia-empeoro/).
Resistências cotidianas
No dia 24, ao recordar o aniversário do Golpe de Estado cívico-militar, importantes setores sociais argentinos realizarão centenas de atividades públicas em todo o país: praças, escolas, universidades, locais de memória, em frente às prisões (como a de Coronda em Santa Fe). Somente na Província de Santa Fe são realizadas, em março, mais de uma centena de atividades em 22 cidades e vilarejos. Repetindo, assim, uma dinâmica anual de particular transcendência desde o retorno à democracia já incorporada na agenda cidadã: as mobilizações multitudinárias com concentrações principais, mas com atos dispersos em todo o território nacional. Este ano, assim como em 2024 e 2025, esses protestos incorporam aos seus eixos tradicionais de defesa e promoção da Memória, Verdade e Justiça, a denúncia das políticas negacionistas e de agressão frontal do Governo Milei contra os direitos humanos.
A disputa entre amplos setores sociais e o Governo tem sido uma constante nos últimos 27 meses. Disso falam não apenas as quatro greves nacionais convocadas nesse período, mas também as centenas de conflitos grandes, médios ou pequenos contra as políticas antissociais do governo. As cada vez mais participativas manifestações e protestos de mulheres, feministas e da diversidade; assim como milhares de pequenos gestos e iniciativas locais de resistência que fazem da Argentina um país em constante ebulição. Que se confronta a um modelo cada vez mais sofisticado e expandido de repressão, o outro lado da estratégia da direita no poder. Segundo um relatório da Comissão Provincial pela Memória, órgão que faz parte do Sistema Nacional de Prevenção da Tortura, durante o segundo ano do governo Milei a repressão contra a protesto social duplicou em relação ao ano anterior. Também aumentou o número de detidos e feridos (https://eldebate.com.ar/milei-reprimio-casi-la-mitad-de-las-manifestaciones-del-2025-segun-la-comision-provincial-por-la-memoria/).
Por exemplo, foi emblemática a manifestação pelo Dia Internacional da Mulher que, na Argentina, foi convocada na segunda-feira, 9 de março, com dezenas de milhares de pessoas nas ruas. O protesto foi tão amplo que os próprios meios de informação conservadores tiveram que reconhecer que as manifestantes "encheram a Praça de Maio" em frente à Casa de Governo, em Buenos Aires. O diário progressista argentino Página 12, na capa de sua edição de 10 de março, titulava: "A maré está voltando. Unir as lutas contra o FMI e Milei” foi a consigna que empunhou uma multidão, “convencida de que os feminismos são, hoje, umas das principais forças da resistência”. As participantes "chamaram a combater um governo que nega o fenômeno do feminicídio e desmonta todas as ferramentas para preveni-lo".
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



