Classe, raça e gênero – a atualização da luta de classes no Brasil
Integrar classe, raça e gênero é condição para enfrentar o racismo estrutural, superar o identitarismo liberal e barrar a ofensiva da extrema-direita
Atualmente existem grandes confusões nas cabeças daqueles que se dizem de esquerda. Confundem com grande frequência Identitarismo com Anti-Racismo e Anti-Identitarismo com Racismo.
Ao contrário do que muitos pensam, existem grandes semelhanças entre o Identitarismo e o Racismo, devido às suas características sectárias e capitalistas. O Identitarismo ergue falsas bandeiras de acolhimento, mas continua explorando aqueles que diz acolher.
Da mesma forma, existem grandes semelhanças entre o Anti-Identitarismo e o Anti-Racismo, devido às suas características amplas de inclusão, onde o importante é compartilhar oportunidades de desenvolvimento e autodeterminação humana, acolhendo de forma verdadeira toda a vasta diversidade brasileira.
Toda esta confusão tem feito, vez ou outra (ou até mais que isso), lermos ou ouvirmos posições de gente que se diz de esquerda que são bem próximas ao Racismo. Muitas vezes estas opiniões da esquerda parecem até mesmo vir de grupos da extrema-direita.
Esta confusão de conceitos parece estar por detrás de muitas das opiniões nefastas vindas de alguns que se posicionam à esquerda, mas em tempos de desvelação como estes que estamos vivendo, onde vários véus estão caindo continuamente, não descarto que seja o Racismo que estejam defendendo muitos destes que vivem atacando movimentos feministas, negros, LGBT etc. Estes supostos esquerdistas costumam se esconder atrás da Luta de Classes, mas a verdadeira face destes pode ser, e provavelmente é, a horrenda face do Racismo.
Temos a tese do Racismo Estrutural, escrita pelo professor Silvio de Almeida, que denuncia o racismo entranhado em toda a estrutura da sociedade brasileira. Vemos o professor Muniz Sodré defender que o Racismo é institucional e como isso provoca a exclusão das minorias do mercado de trabalho, tornando-as marginalizadas. Lemos também Clóvis Moura expondo como a estrutura colonial construiu a sociedade racista que perdura no país até os dias atuais. Tudo isso só evidencia algo que parece bem pior do que os intelectuais escreveram em suas teses, pois o que infelizmente constato em meu dia a dia é que o Racismo passou a fazer parte da cultura nacional. Depois da ascensão da extrema-direita no país, vemos muitos fazendo com orgulho declarações racistas — e nos vários espectros do racismo — mostrando que têm orgulho de se comportarem desta forma abominável. E a desculpa que dão comumente é que não são racistas e sim que são contra os "Movimentos Woke".
Mas a má notícia é que este tipo de postura se generalizou, pois passou a não ser exclusiva da extrema-direita. Atualmente vemos muitos comunicadores progressistas fazendo declarações que se aproximam tanto das declarações da extrema-direita, que muitas vezes fica difícil saber quem é quem. Não é à toa que estas ideologias identitárias liberais se infiltraram com grande intensidade no nosso território. É como uma doença oportunista, que aproveita a fraqueza do organismo para se manifestar. Foi assim que os movimentos identitários liberais, também chamados de Woke, contaminaram a política brasileira. Havia uma grande contradição na sociedade que não estava sendo levada em consideração pelos movimentos marxistas, então os movimentos liberais se apropriaram destas pautas e deu no que deu e no que está dando até hoje. Ainda bem que já existem grupos verdadeiramente marxistas que já se tocaram disto e já estão levando em consideração as questões de Raça e Gênero na Luta de Classes brasileira.
Para piorar a situação veio a extrema-direita, a qual identificou a excelente oportunidade de criar inimigos imaginários, criminalizando estas minorias que os movimentos identitários liberais diziam estar ao lado, mas que em verdade nunca estiveram, pois em realidade somente as utilizaram como massa de manobra para obter cargos eletivos, para vender livros, palestras e para monetizar as suas redes sociais. E é muito fácil de comprovar que os liberais nunca estiveram ao lado destas minorias: é só verificarmos a quantidade de assassinatos de mulheres, de pessoas negras, indígenas e LGBT no Brasil. Os números sempre foram altos e continuam exorbitantemente elevados, mesmo depois de todas estas pautas identitárias que os liberais pregam. Também não é preciso mencionar a dificuldade de acesso que as minorias têm ao mercado de trabalho devido às superestruturas discriminatórias às quais estão submetidas e que não lhes permitem ter condições materiais para se desenvolver na sociedade. Para citar somente o exemplo das mulheres no mercado de trabalho, é fácil verificar em todas as pesquisas como seus salários são inferiores aos dos homens. E indo um pouco além, podemos citar que até 2016 as senadoras não tiveram direito de ter o seu próprio banheiro no Senado Federal; anteriormente a este ano tinham que ir ao banheiro de um restaurante anexo ao Plenário quando precisavam.
E foi assim que as minorias ficaram entre a cruz e a espada. De um lado os liberais que fazem o “me engana que eu gosto” e de efetivo não fazem nada para ajudá-las; do outro lado tem a extrema-direita para transformá-las em “boi de piranha” numa campanha ideológica caça-votos para lá de fascista. E por final vieram os “revolucionários de sofá” que dizem combater o Identitarismo, mas que em realidade defendem posições e visões de mundo cada vez mais racistas, ou seja, estão cada vez mais próximos do Fascismo. Ainda bem que alguns grupos marxistas já despertaram do sono profundo em que estavam e agora estão tratando estas questões de Raça e Gênero alinhadas à Luta de Classes, pois a fascistização da sociedade está cada vez mais ampla, está incorporando inclusive alguns grupos que se dizem de esquerda. A situação é grave. Muito grave. Vai dar trabalho sair desta “sinuca de bico”.
Questões de Raça e Gênero começaram a ser tratadas por marxistas como estratégicas para disputar a opinião pública. Finalmente e felizmente algumas organizações marxistas perceberam que é de suma importância unir estas questões à Luta de Classes e estão fazendo isto com muita seriedade. Classe, Raça e Gênero são assuntos que no contexto do Materialismo Histórico do Brasil têm e devem ser levados em consideração, mas de forma séria e não da forma capitalista e eleitoreira que os liberais estavam fazendo. Talvez assim, finalmente chegaremos ao Socialismo Moreno que Brizola falava, algo que seria legítimo para com as características de nosso país. Os chineses construíram o "Socialismo com Características Chinesas", respeitando o Materialismo Histórico deles, o qual, a propósito, está dando muito certo para eles. Passou da hora de também construirmos o nosso Socialismo Moreno respeitando a nossa imensa diversidade brasileira.
Classe, Raça e Gênero: somente levando em conta estas nossas características poderemos construir a nação brasileira justa e próspera para todos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
