Como conheci Aldir Blanc

Foi nos idos de 1999, no Rio de Janeiro. Agora o compositor de 73 anos está em tratamento no CTI com suspeita de coronavírus. Espero que ele consiga superar

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Em 1999, viajei ao Rio de Janeiro com um fotógrafo e um amigo editor para entrevistar Oscar Niemeyer para uma revista de Nova Iorque chamada Index. Nessa época, estava morando em Chicago, depois de passar o período de 1991 a 1995 no Rio, São Luís (Maranhão), Olinda (Pernambuco) e Itapuá (Bahia).

Depois da entrevista, levei meus colegas ao Bip Bip, época em que Alfredo ainda fazia aquelas batidas estupidamente poderosas de amendoim, coco e caju. Estava batendo papo com o pessoal e perguntei onde tinha um bar parecido com o Bip Bip, que rolassem jam sessions, na Zona Norte. Alfredo indicou o Bar da Maria, na rua Garibaldi, em Muda, um mini bairro que fica entre a Tijuca e a Usina, onde o vale começa a ficar mais estreito.

Na próxima tarde, fomos para o Bar da Maria e fiquei agradavelmente surpreso ao ver que tinha um bloco se preparando para sair na rua: o bloco do bar, chamado “Nem Muda Nem Sai de Cima”. Hoje em dia esse bloco não é o mesmo. A última vez que vi, tinha um grande carro de som e só tocou samba-enredo, que eu acho desagradável para um bloco - acelerado demais para passar quatro horas pulando. Nesse dia, o bloco estava todo no chão, sem carro de som. O homem que puxava era Paulinho da Mocidade, e Aldir Blanc e Moacyr Luz estavam na bateria. Fui informado que foram eles que compuseram a música. Caímos atrás da bateria e foi bastante agradável - sotaque de samba da década de 1950, perfeito para aquela caminhada dançante com copo no mão.

Bebi muito e, em um certo momento depois da volta para o bar, me encontrei ao lado de Aldir. Conversamos e ele e sua companheira me convidaram para o apartamento deles, bem pertinho. Tinha uma mesa na sala coberta de livros de romance policial, com autores como Raymond Chandler. Durante a nossa conversa, ele me falou que estava há três dias acordado, bebendo, pois um grande amigo tinha falecido e ele estava com uma forte depressão. Duvido que ele se lembre desse encontro - um evento que marcou minha vida, principalmente porque acabei me mudando depois para Muda.

Isso aconteceu em 2007, quando me mudei de São Paulo para o Rio de Janeiro. Na ocasião, lembrei-me de Aldir e do Bar da Maria e procurei um apartamento em Muda. ‘Se Aldir Blanc mora aqui, deve ser um lugar legal’ - pensei na época, quando comecei a procurar apartamentos. Acabei morando na Rua 18 de Outubro, ao lado do Colégio Santos Anjos, por sete anos. Infelizmente, um mês antes da minha chegada, o Bar da Maria proibiu as jam sessions e transformou-se em um boteco chique. Nunca mais encontrei Aldir Blanc, mas foi por causa dele que acabei morando sete anos na Muda, e isso valeu a pena. Então, obrigado Aldir e boa sorte com sua luta contra o coronavírus.

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