Como fabricar uma eleição pelo medo
A transformação do medo em instrumento de disputa política e intervenção cognitiva na democracia brasileira
O maior risco para a democracia brasileira talvez não esteja em uma intervenção militar ou em sanções econômicas. Ele pode estar na transformação do medo em estratégia eleitoral, na importação de narrativas produzidas fora do país e na construção de um ambiente político onde a exceção passa a parecer normal.
A arquitetura do medo
Desde que os Estados Unidos anunciaram a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, quase todo o debate público brasileiro passou a girar em torno da mesma pergunta: o que essa decisão significa para o combate ao crime organizado? A pergunta é legítima. Mas talvez ela esteja nos impedindo de enxergar a questão mais importante. A imprensa discute segurança pública. Analistas discutem diplomacia. Políticos discutem soberania. Todos esses temas são importantes. Mas eles podem estar nos fazendo olhar para o lugar errado.
O ponto mais relevante talvez não esteja na classificação em si, mas no ambiente político que ela ajuda a construir. Guerras contemporâneas raramente começam com tropas atravessando fronteiras. Elas começam com palavras, categorias jurídicas e narrativas capazes de reorganizar a forma como uma sociedade interpreta a realidade. Antes de mudar políticas, é preciso mudar percepções. Antes de alterar instituições, é preciso alterar emoções.
É justamente por isso que a palavra “terrorismo” possui um peso político tão poderoso. Ela não descreve apenas uma ameaça. Ela reorganiza o debate em torno da ameaça. Ela desloca a atenção pública, redefine prioridades e cria uma atmosfera de urgência permanente. Em poucos dias, uma discussão complexa sobre crime organizado, desigualdade, tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro e fragilidades institucionais pode ser substituída por uma narrativa muito mais simples: a existência de um inimigo absoluto que exige respostas excepcionais.
Nesse contexto, a questão central deixa de ser o PCC ou o Comando Vermelho. A verdadeira disputa passa a ser pelo significado político atribuído a eles. Porque, em uma sociedade hiperconectada, quem controla a narrativa da ameaça frequentemente conquista o poder de definir quais perguntas serão feitas, quais respostas serão consideradas aceitáveis e quais medos irão organizar o comportamento coletivo. E é exatamente nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre segurança pública e passa a ser sobre democracia.
Como o medo reorganiza a política
O medo é uma das emoções mais antigas e mais poderosas da experiência humana. Ele existe para proteger. Diante de uma ameaça real, o cérebro reduz o tempo de reflexão, prioriza respostas rápidas e concentra atenção naquilo que parece representar perigo. É um mecanismo de sobrevivência. O problema surge quando essa lógica é transportada para a política.
Sociedades sob medo tendem a aceitar soluções que rejeitariam em circunstâncias normais. Questões complexas passam a ser vistas de forma simplificada. Dúvidas são percebidas como fraqueza. O debate perde espaço para a urgência. A reflexão cede lugar à reação. Quanto maior a sensação de ameaça, menor a disposição para lidar com nuances e contradições.
É por isso que operações psicológicas modernas raramente tentam convencer as pessoas por meio de longos argumentos. Seu objetivo principal não é produzir compreensão. É produzir reação. Antes de conquistar a razão, elas procuram capturar a atenção. Antes de mudar opiniões, procuram organizar emoções. E nenhuma emoção organiza comportamentos de forma tão eficiente quanto o medo.
É justamente por isso que campanhas baseadas no medo costumam ser tão eficazes. Elas não precisam persuadir completamente uma pessoa. Não precisam fazê-la mudar de ideologia nem abandonar suas convicções. Basta que consigam alterar seu estado emocional. Quando a atenção é capturada pela ameaça, a reflexão perde espaço para a reação. E, em política, quem consegue definir aquilo que a população deve temer frequentemente conquista uma vantagem muito maior do que quem apenas apresenta argumentos.
A força dessa estratégia está justamente no fato de que ela não precisa inventar problemas inexistentes. O crime organizado existe. A violência existe. O tráfico de armas existe. O que muda é a forma como esses fenômenos são apresentados ao público. Uma realidade complexa é condensada em uma narrativa simples, emocional e de fácil circulação. Aos poucos, o debate deixa de girar em torno das causas do problema e passa a girar em torno da ameaça que ele representa.
Quando isso acontece, a política muda de natureza. O centro da disputa deixa de ser a busca por soluções e passa a ser a gestão do medo. E quem consegue definir o tamanho da ameaça frequentemente conquista uma vantagem decisiva na disputa pelo poder.
A engrenagem
É nesse ponto que a classificação do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos deixa de ser apenas um tema de política externa e passa a dialogar diretamente com a disputa política brasileira. O que está em jogo não é apenas a definição jurídica atribuída às facções, mas a capacidade de transformar essa definição em narrativa de massa.
Nos dias que se seguiram ao anúncio de Washington, já era possível observar os primeiros movimentos dessa dinâmica. A discussão rapidamente deixou de girar em torno dos impactos concretos da medida e passou a ser organizada em torno de símbolos, personagens e emoções. A ameaça tornou-se mais importante do que a análise da ameaça. O efeito político tornou-se mais relevante do que o fato que o produziu.
É nesse ambiente que a extrema-direita encontra uma de suas maiores vantagens competitivas. Ao longo dos últimos anos, ela construiu uma poderosa infraestrutura de comunicação baseada em redes sociais, influenciadores, grupos de mensagens instantâneas e ciclos permanentes de mobilização emocional. Sua força não está apenas na produção de conteúdos. Está na capacidade de transformar acontecimentos complexos em narrativas simples, rápidas e altamente compartilháveis.
É justamente aqui que o debate sobre o PL 4822/25 ganha relevância. À primeira vista, trata-se de uma discussão sobre regras eleitorais, multas e responsabilização partidária. Mas seus efeitos ultrapassam os aspectos administrativos. Em um ambiente político cada vez mais dependente da circulação digital de mensagens, qualquer enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização e responsabilização altera a relação entre risco e recompensa das campanhas políticas.
Por isso, a questão central não é estabelecer uma relação mecânica entre a classificação das facções pelos Estados Unidos e o PL 4822/25. A relação é política. Categorias de medo não produzem efeitos sozinhas. Elas precisam de meios de circulação, estruturas de amplificação e ambientes institucionais capazes de reduzir os custos da sua reprodução. É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre segurança pública e passa a ser sobre poder. Porque uma narrativa baseada na ameaça permanente não serve apenas para organizar percepções. Ela serve para reorganizar prioridades, deslocar debates e redefinir os termos da disputa política. Em uma eleição, isso pode ser mais valioso do que qualquer programa de governo.
É exatamente nesse ponto que o debate deixa de ser sobre terrorismo e passa a ser sobre democracia. Porque o problema não está apenas na existência da narrativa, mas na capacidade de reproduzi-la em larga escala, reorganizando a percepção pública às vésperas de uma das eleições mais importantes da história recente do país.
Como impedir uma eleição organizada pelo medo
A melhor defesa contra operações psicológicas não é a censura. Também não é a negação do problema. É a compreensão de como ele funciona. O medo se torna uma arma política quando deixa de ser percebido como instrumento de manipulação e passa a ser confundido com a própria realidade.
Por isso, a resposta brasileira não pode ser apenas policial, jurídica ou diplomática. Ela precisa ser também cognitiva. O país precisa fortalecer sua capacidade de identificar campanhas de desinformação, ampliar mecanismos de transparência nas plataformas digitais, proteger a integridade do processo eleitoral e desenvolver uma cultura pública menos vulnerável à política da ameaça permanente.
Isso exige instituições fortes, fiscalização efetiva e capacidade de responsabilização. Exige que a sociedade compreenda a diferença entre combater o crime organizado e aceitar narrativas que utilizam o crime organizado como pretexto para reorganizar o debate político. Exige, sobretudo, que a defesa da democracia seja tratada também como defesa da soberania informacional e da autonomia cognitiva da população.
O desafio de 2026 talvez não seja impedir uma intervenção estrangeira direta. O desafio pode ser impedir algo mais sofisticado: que uma narrativa produzida fora do país seja capaz de reorganizar a agenda política dentro dele. Porque operações psicológicas bem-sucedidas raramente vencem quando convencem a maioria. Elas vencem quando conseguem determinar quais temas serão discutidos, quais medos dominarão o debate público e quais perguntas deixarão de ser feitas.
É por isso que a defesa da democracia brasileira passa também pela defesa da sua soberania cognitiva. Uma sociedade que permite que seus medos sejam organizados por interesses externos corre o risco de perder muito mais do que uma eleição. Corre o risco de perder a capacidade de decidir, por conta própria, quais são seus problemas, suas prioridades e seu futuro.
Compreender essa engrenagem não é um exercício acadêmico. É uma necessidade democrática.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




