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Jair de Souza

Economista formado pela UFRJ, mestre em linguística também pela UFRJ

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Como ganhar e manter o apoio das massas populares

"Não dá para esperar contar com a lealdade política dos setores populares sem que estes tenham participação ativa e consciente na luta social"

Luiz Inácio Lula da Silva no aniversário de 46 anos do PT (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Ao discursar durante sua participação no ato de celebração do 46º aniversário do PT, Lula fez alusões críticas à atuação de seu partido nas últimas décadas. Dos pontos por ele mencionados, podemos destacar a drástica perda de influência e relevância sofrida pela agremiação em diversas regiões importantes.

A esse respeito foram citados nominalmente os grandes centros operários do ABCD (Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), as cidades de Guarulhos, Campinas, Araraquara, etc., onde, de principal e mais pujante força política, o PT passou a desempenhar um papel muito mais acanhado.

Poderíamos acrescentar que, além de ser detectado em várias zonas geográficas, esse decaimento também pode ser nitidamente observado no seio de nossa juventude. Não há dúvidas de que, até por volta do fim dos primeiros anos deste século, nenhuma outra organização ou corrente política entusiasmava tanto o imaginário de nossos jovens. Hoje, no entanto, a adesão juvenil ao PT está longe de ser tão apaixonada.

Após ter feito esta constatação, o passo seguinte deve ser, necessariamente, tentar descobrir quais foram os fatores responsáveis pela mudança ocorrida em nossa sociedade que levaram muitos a se afastarem do partido que antes gozava de uma bem mais ampla simpatia. Para complicar nossa análise, é preciso levar em conta que as maiorias populares, inclusive a quase totalidade de nossa juventude, obtiveram significativos ganhos reais em relação a seu nível de vida concreto no período em que Lula e Dilma estiveram no comando do governo federal. Diante deste quadro, temos visto explicações simplistas, que atribuem o ocorrido a um sentimento de ingratidão que seria inerente a boa parte de nosso povo.

Contudo, esta constatação também tem servido para acirrar um antigo debate travado entre, por um lado, quem argumenta que as motivações econômicas jogam um papel decisivo na luta política em uma dada sociedade e, por outro, os que defendem que os valores de cunho moral exercem mais influência no comportamento das massas do que os relacionados com fatores econômicos.

De minha parte, estou convencido de que muitos daqueles que se posicionam como adeptos da segunda alternativa acreditam, de fato, que a primeira seja a correta. Explicando melhor esta aparente contradição: tenho plena convicção de que muitos daqueles que alegam que os valores morais são e devem ser tomados como prioritários adotam este posicionamento exatamente por reconhecerem a maior relevância das questões econômicas reais. Bem, como sinto que ainda não fui bem entendido, vou tentar esclarecer este ponto nas linhas seguintes.

Primeiramente, é preciso ter em mente que, em sociedades constituídas por classes com interesses conflitantes, as que hegemonizam o poder tratam de fazer que sua ideologia e seus valores específicos sejam sentidos e acatados pelo restante da sociedade como se também lhes fossem próprios. Por isso, quanto maior for o controle exercido pelos grupos dominantes sobre os instrumentos de formação ideológica e difusão comunicacional, tanto mais factível lhes será realizar a contento esta tarefa.

Assim, embora os formuladores teóricos que servem conscientemente ao grande capital saibam perfeitamente que o mais importante e "sagrado" para a manutenção dos privilégios dos capitalistas é garantir que estes possam continuar extraindo grandes lucros através da exploração do trabalho alheio, eles não podem permitir que as classes sociais subalternas venham a ter o mesmo nível de compreensão sobre esta questão. E é com o objetivo de impedir que tal consciência seja alcançada que sua atuação será pautada.

Para termos um exemplo bastante ilustrativo do que acaba de ser dito, vamos retroceder a 2018 e analisar a maneira como a mídia corporativa e os demais órgãos retransmissores do pensamento das classes dominantes abordaram a campanha eleitoral que acabou por conduzir um agente do neonazismo-bolsonarismo à presidência da nação.

Naquela ocasião, tudo foi feito para induzir um número significativo de pessoas de poucos recursos a deixar de lado reivindicações relacionadas com melhorias concretas do padrão de sua vida e de seus familiares (tais como melhores salários, menores jornadas de trabalho, educação de melhor qualidade para seus filhos, ampliação e melhoria da assistência médica, etc.) para se preocupar com temas tipicamente morais, como o receio da instalação de banheiros unissex em escolas e shoppings, a presença de um tal kit-gay no currículo escolar, ou seja, coisas que absolutamente não aliviariam suas condições de penúria.

Porém, temos de reconhecer que não poucas pessoas de extração humilde foram levadas a votar no candidato neonazista-bolsonarista devido a tais absurdos.

Mas até mesmo setores sociais de condições econômicas e escolaridade mais elevadas costumam ser alvos de manipulação. Em tal sentido, os acontecimentos de junho de 2013 em nosso país podem ilustrar bem como parcelas expressivas da classe média foram atingidas pela intensa campanha midiática antipetista. Naquela oportunidade, milhares deles saíram às ruas em protesto contra a corrupção e, no embalo do movimento, se dispuseram a aceitar a privatização de nossa empresa petrolífera (Petrobras), a entrega dos recursos do pré-sal a grupos estrangeiros, assim como a destruição de nossas grandes empresas de engenharia. No final das contas, tudo isso acabaria por redundar em deterioração de suas próprias condições de vida e de suas perspectivas de futuro.

Nas duas situações apresentadas, o que fez com que pessoas das camadas mais humildes da sociedade e gente de classe média se comportassem politicamente em detrimento de suas próprias necessidades socioeconômicas foi o processo de manipulação ideológica ao qual estiveram submetidos por parte dos órgãos de comunicação a serviço das classes dominantes. Portanto, e isto é de grande relevância e deve ser entendido, esta manipulação é feita essencialmente para preservar e garantir a continuidade dos privilégios de cunho econômico que dizem respeito aos poderosos.

Agora, vamos voltar e refletir sobre as observações críticas de Lula que expusemos nos parágrafos iniciais. Se, apesar dos evidentes ganhos materiais obtidos, vários grupos populares se afastaram do PT, isto indica que algo de errado foi feito. Teria sido devido a falhas comunicacionais? Provavelmente sim, mas não exclusivamente, e nem mesmo principalmente. A meu modo de ver, o erro é fundamentalmente de caráter político. E a respeito disto, gostaria de avançar no próximo parágrafo.

Creio que o retrocesso do PT apontado e criticado por Lula é decorrente de uma política equivocada por parte dos governos petistas. Para mim, o equívoco maior foi o abandono da ideia de que o povo deve ser protagonista na conquista de suas reivindicações. Desde que assumiu as rédeas do governo, em 2003, Lula nunca convocou a mobilização popular para travar as lutas concretas em favor das melhorias almejadas. O mesmo pode ser dito de Dilma, em sua gestão, assim como da orientação proporcionada pelo PT como partido dirigente. Com seu descuido da educação política, os governos petistas reforçaram sentimentos de oportunismo latentes entre as massas populares, acostumando-as a serem meros receptores passivos de medidas governamentais que as favorecessem.

Em consequência, como o conjunto do povo não se sentia partícipe ativo dos ganhos obtidos, seus vínculos e compromissos com o governo e o partido que lhe haviam proporcionado os benefícios eram muito tênues, ou mesmo inexistentes. Tenho certeza de que tudo seria muito diferente no caso de que sentissem e entendessem que, diferentemente de benefícios, as melhorias fossem entendidas como conquistas, das quais eles foram responsáveis diretos. Isso, certamente, também funcionaria como um agente educador que aumentaria sua capacidade de resistência às tentativas de manipulação de parte das classes dominantes.

Então, em poucas palavras, para recuperar e manter o apoio e o engajamento efetivo das massas populares, Lula e o PT devem voltar a acreditar no poder construtivo da mobilização consciente do povo. Simplesmente, não dá para esperar contar com a lealdade política dos setores populares sem que estes tenham participação ativa e consciente na luta social. A compreensão desta deficiência e as ações efetivas para corrigi-la se fazem necessárias. Porém, para tal, vai ser preciso determinação e firmeza políticas. Ainda estamos em condições de realizar esta tarefa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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