Como Messias pode ter salvado a reeleição de Lula
Messias pode ter feito ao governo Lula o favor que nenhum aliado conseguiu fazer em quase dois anos: forçá-lo a olhar
A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, ocorrida na semana passada, foi recebida pela imprensa e por boa parte do campo governista como uma derrota política inequívoca. E, em sentido estrito, foi. Mas é preciso distinguir entre derrotas que sangram e derrotas que ensinam — entre o golpe que enfraquece o adversário e o golpe que, dado cedo demais no relógio eleitoral, oferece ao adversário aquilo de que ele mais precisava: tempo, informação e a quebra de uma série de ilusões que o paralisavam. O episódio Messias é, possivelmente, deste segundo tipo. E é justamente por isso que vale a pena ler o ocorrido não como o início do fim do terceiro mandato Lula, mas como o ponto de inflexão a partir do qual a reeleição de 2026 voltou a ser uma possibilidade material — e não apenas um desejo do campo democrático.
As quatro hipóteses sobre o fracasso
Há, em circulação, quatro linhas explicativas para o que aconteceu, e nenhuma delas é, isoladamente, suficiente. A primeira aponta para uma aliança tácita — chamemos de "demoníaca", já que opera nas sombras — entre setores do próprio STF e a direita e extrema-direita, cujo objetivo não declarado é a contenção das investigações em torno do escândalo do Banco Master. Aceitar Messias seria perder uma camada de blindagem dentro do tribunal num momento em que essa blindagem é, para alguns ministros e para uma parcela significativa do Congresso, uma questão de sobrevivência reputacional e até patrimonial.
A segunda linha é internamente judicial. Messias, ao longo do processo, alinhou-se de modo perceptível à ala evangélica do STF e fez sinalizações públicas favoráveis a um conjunto de normas internas de regência do tribunal — propostas que parte considerável do corpo de ministros leu como ameaça ao corporativismo da Corte. Em termos diretos: o STF aceita pacificamente quase qualquer perfil ideológico, mas resiste com unhas e dentes a qualquer indicado que possa, uma vez dentro, mexer nas prerrogativas do clube. Messias foi enquadrado nessa segunda categoria.
A terceira hipótese diz respeito aos erros do próprio indicado. Messias parece ter calculado que o "apoio evangélico" — que é uma carta retórica importante no discurso da direita — funcionaria também como moeda de troca real no Senado. Privilegiou contatos eclesiais em detrimento da articulação política tradicional, deixando ministros do Supremo e senadores sem o telefonema, sem o café, sem aquela conversa de duas horas no gabinete que, no Brasil, ainda decide tudo o que importa. Foi, em alguma medida, vítima do próprio mito que a direita constrói sobre si mesma
— o de que o evangelismo é uma das balizas decisórias do bloco — e descobriu, tarde, que essa baliza opera apenas quando convém ao bloco.
A quarta linha responsabiliza o próprio governo pela "falta de empenho" na indicação. Esta é, das quatro, a única que tem um componente de cálculo político posterior: ao incorporá-la, o Palácio do Planalto se reapresenta como agente minimamente competente, capaz de admitir limites operacionais e corrigir rota. As três primeiras hipóteses não se excluem entre si — coexistem e respondem, juntas, por boa parte do fracasso. A quarta é, antes, um dispositivo de recuperação narrativa do que uma explicação plenamente autônoma.
Por qualquer ângulo que se olhe, no entanto, três questões emergem como denominadores comuns. E é nelas que está o aprendizado.
Os três sintomas estruturais
Primeiro: o presidente opera sem as melhores informações disponíveis, ao menos desde janeiro deste ano. Não se trata de incompetência dos auxiliares, mas de uma economia política da informação dentro do governo que tem produzido, sistematicamente, dois efeitos perversos. De um lado, há um filtro otimista: as informações que sobem aos despachos presidenciais tendem a ser apresentadas em sua forma mais palatável, com cenários médios passando por cenários prováveis e cenários otimistas passando por cenários médios. De outro, há um filtro corporativo: cada interlocutor do presidente fala a partir do seu núcleo de poder específico, e os núcleos competem entre si por agenda, de modo que o presidente raramente recebe um diagnóstico unificado de qualquer problema. O resultado é um presidente que decide com mapa cartográfico em escala errada: as estradas estão lá, mas as distâncias e os relevos estão sistematicamente subdimensionados. No caso Messias, isto se traduziu na convicção, evidentemente equivocada, de que a sabatina seria controlável e que os votos estavam contados. Não estavam, e ninguém disse ao presidente que não estavam — porque, provavelmente, ninguém que tinha essa informação tinha, ao mesmo tempo, acesso ao presidente sem mediação.
Segundo: há uma análise equivocada do delineamento da oposição. Este é o ponto mais grave, porque opera no nível do conceito e não apenas da informação. O governo continua lendo a oposição com categorias dos anos 1990 e 2000 — "centro democrático", "centrão pragmático", "direita liberal", "ala mais moderada do bolsonarismo". Essas categorias, que talvez tivessem alguma capacidade descritiva no segundo mandato Lula ou mesmo no primeiro Dilma, hoje funcionam como obstáculos cognitivos. Não há mais um centro político brasileiro no sentido clássico. O que existe é um espectro que vai do fascismo declarado ao fascismo disfarçado, com diferenças de estilo e de ritmo, mas com uma convergência de fundo sobre alguns pontos não negociáveis: contenção das investigações, captura do Judiciário, desmonte da capacidade fiscalizatória do Estado, e — esta é a parte silenciada — uma rejeição prática (ainda que não retórica) à ideia de que governos democraticamente eleitos pela esquerda devam, de fato, governar. Operar com a categoria "centrão" como se ela ainda explicasse comportamento parlamentar é confundir o nome residual da coisa com a coisa. Foi por isso que o governo confiou em uma "disciplina interna do bloco de apoio" que simplesmente não existe mais — e a sabatina de Messias revelou essa inexistência de modo cristalino. Não havia disciplina a quebrar; o que havia era uma cobrança permanente, item a item, voto a voto, e o governo entrou na votação acreditando que o atacado já estava negociado.
Terceiro: a falta consistente de crítica interna. O governo Lula 3 carrega, da experiência traumática do impeachment de Dilma e do encarceramento do próprio presidente, uma cultura de fechamento. Discordâncias internas são tratadas como traição em potencial; análises pessimistas são tratadas como deslealdade; vozes que apontam falhas operacionais são, no melhor dos casos, neutralizadas e, no pior, expulsas do círculo decisório. Isto produz uma falsa solidez de retaguarda
— o governo parece, vista de fora, mais coeso do que é — ao custo, gravíssimo, de eliminar o mecanismo que permite antecipar derrotas. Sem crítica interna não há cenário B. Sem cenário B, cada derrota é vivida como surpresa, e cada surpresa consome capital político que poderia estar sendo investido em outras frentes. Foi assim com a indicação Messias: não houve, aparentemente, um plano de retirada honrosa, nem um plano de troca de nome em curso na sexta-feira anterior à votação, nem uma narrativa preparada para o caso de derrota. Houve apenas a aposta — e, no dia seguinte, o desconcerto.
Estes três sintomas estão articulados. Decisões com informação parcial geram leituras equivocadas da oposição; leituras equivocadas da oposição não são corrigidas porque a crítica interna foi suprimida; a supressão da crítica interna realimenta o filtro otimista da informação. É um circuito fechado, e foi por dentro desse circuito que o governo caminhou para a derrota Messias.
O erro estratégico da oposição
E aqui está o ponto que a oposição — se tivesse melhor leitura histórica — não teria cometido: este golpe foi dado cedo demais no calendário eleitoral. Lula é, antes de tudo, um animal político de resiliência. Sua biografia política inteira é uma sequência de derrotas absorvidas, metabolizadas e devolvidas. Dar a Lula uma derrota grande em maio de 2026, a mais de seis meses do segundo turno presidencial, é dar a ele exatamente o que ele precisa: tempo mínimo para pensar, espaço para recalibrar e — sobretudo — uma justificativa interna para reorganizar o seu governo sem que isto pareça crise. Se a oposição quisesse, de fato, ferir a reeleição, deveria ter guardado um golpe deste porte para o segundo semestre de 2026 eleitoral, quando o calendário não permitisse mais correção de rota. Quis a pressa, e a pressa foi má conselheira.
Os três presentes da derrota
A partir da rejeição de Messias, três janelas se abriram para o governo. Nenhuma estava aberta uma semana antes. Todas as três são, individualmente, suficientes para reposicionar a candidatura de 2026.
A primeira é a âncora econômica na realidade vivida da população. Desde a saída de Fernando Haddad do Ministério da Economia, a equipe econômica passou a fazer chegar ao presidente um conjunto de informações que, antes, ficavam represadas — endividamento das famílias em níveis historicamente altos, custo real do crédito muito superior ao indicado pelas médias agregadas, peso crescente das “bets” no orçamento doméstico das classes C e D, e o caráter persistente da inflação de serviços que come o salário mês a mês. Esse conjunto de informações é o que explica, finalmente, o paradoxo que a propaganda governista resistia em encarar: porque indicadores macroeconômicos relativamente favoráveis (emprego, PIB, salário mínimo real) não se traduzem em apoio político ao presidente. A solução em desenho — chame-se Desenrola 2.0 ou outro nome — ainda não está calibrada e muito provavelmente não estará nos próximos meses. Mas o governo, agora, está discutindo o problema certo, e não o problema imaginado (uma suposta “lavagem cerebral”). Esta é uma virada de eixo que a oposição preferiria que tivesse acontecido em setembro, e não em maio de 2026.
A segunda é o reconhecimento da natureza real da oposição. Já se argumentou aqui que não existe mais "centrão" no Brasil — e a votação Messias é a evidência empírica mais clara que se poderia desejar dessa tese. O que se viu não foi um bloco indeciso negociando posição, mas um conjunto coeso de parlamentares operando uma agenda de contenção do governo, com diferenças apenas estilísticas entre os fascistas declarados e os fascistas disfarçados de moderados. O presidencialismo de coalizão — se é que algum dia ele existiu como categoria descritiva e não como ideologia das ciências políticas brasileiras dos anos 1990 — converteu-se em algo bem diferente, que talvez se possa chamar de presidencialismo de concessão. Nele, o governo entrega, item por item, peças do Estado em troca de um apoio que deveria vir, em qualquer regime presidencialista funcional, da convergência política em torno de objetivos comuns. Não há objetivos comuns; há apenas preço, e o preço sobe. Os “radicais da esquerda” — categoria sempre depreciativa quando aplicada por analistas de centro — vinham apontando isso desde fevereiro de 2023. A rejeição de Messias permite ao presidente reconhecer formalmente o que essa parte da sua base já dizia: as categorias analíticas usadas pelo establishment político-jornalístico para
ler o Congresso brasileiro são, hoje, tecnicamente obsoletas. E reconhecer isso é poder, finalmente, exigir entregas reais por concessões reais — ou romper a lógica da concessão e construir uma maioria política sobre outras bases. Antes tarde do que mais tarde.
A terceira é a desidratação de duas ilusões: a do diálogo possível com o evangelismo de direita e a do apelo automático da bandeira democrática. Indicar Messias foi, entre outras coisas, uma tentativa de testar se a oferta de um ministro evangélico — que afirmou, em sua sabatina, que a Bíblia era sua bússola — seria suficiente para fissurar o bloco evangélico de oposição. Não foi. E é importante extrair desse “não foi” a sua lição estrutural: o movimento evangélico de direita brasileiro não é um movimento religioso que se aventurou na política. É um movimento político que instrumentaliza a religião como dispositivo de controle do pensamento de seus fiéis, e essa instrumentalização opera em registro abertamente antidemocrático. Não há, dentro dessa estrutura, espaço para “fissura por dentro” via concessão de cargos. Toda concessão é absorvida e recodificada como tributo extraído do governo. O presidente, com o episódio Messias, tem agora a evidência empírica de que esta porta está fechada, e que o tempo investido em forçá-la é tempo subtraído da construção das suas portas reais.
A segunda ilusão a desidratar é mais delicada e mais profunda. A geração política do presidente Lula — a minha geração também, em parte — formou-se num período em que a palavra democracia funcionava como parâmetro inegociável. No fim dos anos 1980 e ao longo dos 1990, a única força capaz de dobrar a democracia era a acumulação capitalista, e mesmo essa força preferia operar em surdina, sem afrontá-la frontalmente. Hoje, o apelo direto à democracia tem alcance muito menor do que o presidente parece supor. Não porque a população seja antidemocrática em sentido ativo, mas porque a categoria “democracia” deixou de ser, no léxico afetivo de uma parte significativa do eleitorado, o nome daquilo que a faz viver melhor. Para reforjar a estratégia de 2022 — a frente ampla em torno da democracia ameaçada — o presidente precisaria oferecer a essa frente outro fundamento. Como alternativa, e talvez seja a alternativa mais lúcida disponível, ele pode reconhecer que é à esquerda — e não ao centro fantasma — que estão seus votos, sua militância, sua força de mobilização e a possibilidade material de modificar a sociedade. Sem a esquerda mobilizada, o presidente arrisca não ter sequer os apoios que sempre o elegeram. Com a esquerda mobilizada, ele conquista os poucos votos de centro que efetivamente existem, porque esses votos sempre se decidiram menos pela “moderação” do candidato e mais pela percepção de que ele estava ganhando.
A traição como abertura
Há um modo cínico de ler tudo isso, segundo o qual estaríamos apenas racionalizando uma derrota. Não é o caso. A derrota foi real, custou capital político e expôs fragilidades operacionais sérias. Mas é justamente porque foi real e porque expôs fragilidades operacionais sérias que ela funciona como abertura. As traições — internas e externas — sofridas pelo presidente no episódio Messias entregaram a ele as duas coisas das quais um político em fim de segundo ano de mandato mais precisa: clareza sobre a realidade, sem a mediação dos analistas e operadores que vinham embrulhando essa realidade num romantismo autoindulgente; e tempo para agir sobre essa clareza antes que o calendário eleitoral feche.
Tempo, aliás, que vale mais do que ouro neste momento. Não há reeleição que se construa sem tempo, e quase toda derrota política decisiva é, no fundo, uma derrota por tempo curto. A oposição deu a Lula tempo. Deu também o mapa. E confiou — equivocadamente — que ele não saberia ler nenhum dos dois. Nas próximas semanas saberemos se essa confiança da oposição era também
ela uma análise apoiada em informações filtradas, em categorias políticas obsoletas e em ausência de crítica interna. Suspeito que sim.
E é por isso que Messias, contra todas as aparências da semana passada, pode ter feito ao governo Lula o favor que nenhum aliado conseguiu fazer em quase dois anos: forçá-lo a olhar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



