Como os sonhos oleosos de Trump podem desmoronar em um poço escuro da Venezuela
O Grande Quadro do Petróleo na Venezuela é muito mais complexo do que suspeita a gangue do Trump 2.0
Comecemos com os novos éditos do neo-Calígula com relação à satrapia imperial que ele diz que hoje pertence a ele. Não exatamente éditos, mas ameaças descaradas dirigidas à nova Presidenta Interina Delcy Rodriguez:
- Esmague os “fluxos de tráfico de drogas”. Bem, na verdade, isso deveria ser dito aos contrabandistas colombianos e mexicanos mancomunados com os grandes compradores americanos.
- Expulsem iranianos, cubanos e outros “agentes hostis a Washington” – antes que Caracas seja autorizada a aumentar sua produção de petróleo. Isso não vai acontecer.
- Parem com as vendas de petróleo a “adversários dos Estados Unidos”. Isso também não vai acontecer. Daí, torna-se quase certo que o neo-Calígula vá bombardear novamente a Venezuela.
O Neo-Caligula, em uma outra ofensiva de sua boca motorizada, também esclareceu que pretende de algum modo reformular o setor petrolífero venezuelano por meio de subsídios. “Pode ser que demore menos que 18 meses”, que então se metamorfoseou em “podemos precisar de menos tempo que isso, mas vai custar muito dinheiro; e por fim se transformou em “uma tremenda quantia de dinheiro terá que ser gasta, e as companhias de petróleo irão gastá-la”.
Não, não vão, como já avisaram diversos dos proverbiais insiders do setor. Os grandes do setor de energia dos Estados Unidos rejeitam a perspectiva de investir fortunas em um país que pode vir a ser tragado por um total caos, caso o neo-Calígula tente impingir um governo traidor a uma população de 29 milhões. Segundo a Rystad Energy Analysis, levaria no mínimo dezesseis anos e pelo menos 183 bilhões de dólares para que a Venezuela produza meros três milhões de barris de petróleo por dia.
O sonho supremo do neo-Calígula é reduzir os preços globais do petróleo a um máximo de 50 dólares o barril. Para tal, a banda imperial Trump 2.0, em tese, assumirá o controle total da PDVSA, incluindo a compra e venda de praticamente toda a sua produção de petróleo.
O Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, em uma conferência sobre energia no Goldman Sachs, deixou o gato oleoso escapar do saco:
“Vamos comercializar o petróleo cru vindo da Venezuela, primeiramente esse petróleo estocado [até 50 milhões de barris], e então seguindo indefinidamente adiante, venderemos no mercado a produção que vem da Venezuela”.
De modo que, essencialmente, a banda do neo-Calígula irá capturar, na verdade roubar, a venda de petróleo cru da PDVSA, com o dinheiro teoricamente depositado nas contas offshore controladas pelos Estados Unidos “para beneficiar o povo venezuelano”.
Não há hipótese de o governo interino de Delcy Rodriguez vir a aceitar o que representa um roubo de fato. Até mesmo o Consultor de Segurança Interna Stephen Miller vem se gabando de que os Estados Unidos estão usando “ameaça militar” para manter o controle sobre a Venezuela. Quando você realmente está no controle, não precisa usar de ameaças.
E a China?
A China vinha importando da Venezuela cerca de 746.000 barris de petróleo por dia. Isso não é muito. Pequim já vem providenciando a substituição desse petróleo por importações do Irã. A China, essencialmente, não depende do petróleo venezuelano. Além do Irã, ela conta com fontes russas e sauditas.
Pequim entende claramente que o exorbitante esforço imperial no Hemisfério Ocidental e no Oeste Asiático não é motivado apenas por petróleo, mas visa também a forçar a China a comprar energia com petrodólares. Bobagem: com a Rússia o Golfo Pérsico e mais além, o nome do jogo já é petroyuan.
A China é independente em 80% de sua energia. A Venezuela, na verdade, respondia por meros 2% dos 20% de importações chinesas – e esses são os números fornecidos pelo próprio governo estadunidense.
A relação da China com a Venezuela na questão da energia vai muito além das fórmulas baratas empregadas pelos Estados Unidos. Aqui vai um resumo que mostra que os “acordos chineses com a Venezuela na área do petróleo são, na verdade, contratos financeiros de cumprimento obrigatório, com mecanismos de amortização, estruturas de garantias, cláusulas tratando de penalidades e elos derivativos fortemente embutidos nas finanças globais (…) Esses acordos estão conectados – direta e indiretamente – com as instituições financeiras ocidentais, com os operadores de commodities, seguros e sistemas de compensação, incluindo entidades ligadas à Wall Street. Caso esses contratos sejam rompidos, a consequência não será “uma perda para a China”, mas sim uma cascata de ocorrências: descumprimento de obrigações de pagamento desencadeando riscos de perdas financeiras, reprecificação de derivativos, disputas legais abrangendo diferentes jurisdições e choque de confiança que se expandirá indefinidamente. Em um certo ponto, esse deixa de ser um problema venezuelano e se converte em um problema global sistêmico”.
Além do mais, “nos últimos vinte anos, a China se tornou o centro operacional do setor petrolífero venezuelano. Não meramente como um comprador, mas como um construtor. A China forneceu tecnologia de refino, sistema de melhoria do petróleo pesado, projetos de infraestrutura, software de controle, logística de peças de reposição (…) Removam os engenheiros chineses. Removam os técnicos que entendem a lógica do controle. Removam as cadeias de suprimentos de manutenção. Removam o apoio de software. O que fica não é um setor petrolífero em funcionamento esperando por ser liberado, mas uma concha oca”.
Conclusão: “Converter o setor petrolífero venezuelano construído pelos chineses em um setor americano levaria no mínimo de três a cinco anos”.
O analista financeiro Lucas Ekwame tocou nos principais pontos. A Venezuela produz um petróleo superpesado tão espesso quanto o alcatrão. Ele não jorra, tendo que ser fundido para que atinja a superfície e, após a extração, ele endurece novamente, exigindo um diluente: nada menos que 0,3 barris de diluente tem que ser importado para cada barril exportado.
Acrescente-se a isso que a infraestrutura venezuelana de energia formada pela China, e ao mesmo tempo sofrendo anos de sanções por parte dos Estados Unidos, ainda piores que as aplicadas ao Iraque nos anos 2000, e a grande falha da “estratégia” petrolífera do neo-Calígula se torna óbvia.
O que, é claro, não altera no curto prazo o festim dos abutres dos fundos hedge imperiais devorando a carcaça da Venezuela, a começar pelo horrendo Paul Singer, o sionista bilionário que administra fundos hedge e faz doações gigantescas aos comitês políticos do MAGA (42 milhões de dólares 2024), cujo Elliott Management, em novembro, comprou por 5,9 bilhões de dólares uma subsidiária da CITGO sediada em Houston, preço esse que representa menos de um terço do seu valor de mercado de 18 bilhões, graças ao embargo das importações de petróleo venezuelano.
É fatal que a turma do dinheiro especulativo venha a embolsar até 170 bilhões de dólares no mercado de dívida. Os títulos inadimplentes da PDVSA, por si sós, valem mais de 60 bilhões.
O Grande Quadro do Petróleo na Venezuela é muito mais complexo do que suspeita a gangue do Trump 2.0. É claro que, no caminho que temos pela frente, podemos chegar a uma situação na qual o Vice-Rei da Venezuela, o gusano Marco Rubio, venha a cortar os fluxos de petróleo de Caracas a Xangai. Bem, levando em conta a “capacidade” estratégica de Rubio, seria melhor começar imediatamente a arregimentar batalhões de advogados.
Tradução de Patricia Zimbres
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




