Tarifaço e invasão da Venezuela aceleraram acordo UE-Mercosul
Protecionismo de Donald Trump e instabilidade na Venezuela aceleraram a retomada do tratado após mais de duas décadas de negociações entre os dois blocos
247 - A aprovação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia avançou de forma decisiva após 26 anos de negociações marcadas por impasses políticos, mudanças de governo e crises globais. O retorno de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, à Casa Branca para um segundo mandato alterou o cenário internacional e levou a União Europeia a acelerar a busca por novos parceiros estratégicos, diante do recrudescimento do protecionismo norte-americano. As informações são do jornal O Globo.
Nesta sexta-feira, o tratado de livre-comércio recebeu sinal verde dos embaixadores dos 27 países da União Europeia, reunidos em Bruxelas. Embora a votação formal ainda esteja prevista para o fim do dia, diplomatas presentes à reunião indicaram consenso suficiente para considerar o acordo politicamente aprovado. As declarações oficiais dos votos devem ser apresentadas às 17h, no horário de Brasília.
A leitura positiva sobre o avanço do tratado decorre das manifestações feitas pelos representantes dos Estados-membros durante a reunião iniciada pela manhã na capital belga.
O contexto internacional teve peso decisivo. Ao longo de 2025, Donald Trump adotou uma série de medidas protecionistas que atingiram diretamente parceiros comerciais históricos dos Estados Unidos, incluindo países da União Europeia. O chamado “tarifaço” provocou tensões comerciais e levou o bloco europeu a intensificar esforços para diversificar mercados e reduzir a dependência do comércio com Washington.
Além disso, o acordo com o Mercosul passou a ser visto por líderes europeus como um gesto político em defesa do multilateralismo, em contraposição às iniciativas unilaterais do governo norte-americano. A recente invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro reforçaram, na avaliação de diplomatas, a percepção de isolamento da política externa dos Estados Unidos, ampliando a necessidade de articulação entre outras potências e blocos regionais.
As negociações entre Mercosul e União Europeia tiveram início em 1999 e atravessaram diferentes fases. Após avanços e retrocessos, houve uma conclusão parcial em 2019, mas temas sensíveis ficaram pendentes. A pandemia de Covid-19 interrompeu novamente o diálogo. A retomada ganhou fôlego a partir de 2023, com o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando pontos como compras governamentais, regras para licitações internacionais e compromissos ambientais voltaram à mesa.
Mesmo assim, foi somente após a eleição de Donald Trump, em novembro de 2024, que as negociações passaram a avançar de forma acelerada. Diplomatas dos dois blocos trabalharam em um novo rascunho do tratado, cuja conclusão foi anunciada oficialmente durante a cúpula do Mercosul realizada em dezembro daquele ano, em Montevidéu.
O acordo também passou a simbolizar um alinhamento político em torno de agendas globais, como o combate às mudanças climáticas e o fortalecimento das instituições multilaterais, em consonância com pautas defendidas pelas Nações Unidas e pelo G20. Essa sinalização foi interpretada como um contraponto direto à visão de mundo defendida por Trump.
Uma fonte do governo brasileiro afirmou ao Globo que “o acordo é um movimento pró-multilateralismo, em sintonia com o empoderamento do G20 e o lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, entre outros”, em referência à iniciativa apresentada por Lula em 2024, quando o Brasil presidiu o grupo das 20 maiores economias do mundo.
Outra fonte envolvida nas negociações destacou ao jornal, ainda no fim de 2024, que a eleição de Trump foi determinante para destravar o processo, assim como havia ocorrido em 2019, no primeiro mandato do atual presidente dos Estados Unidos, quando teve início a guerra comercial com a China. Naquele período, a elevação de tarifas de importação pelos EUA gerou reações em cadeia no comércio global.
Segundo essa avaliação, o acordo ficou congelado em 2019 devido à repercussão negativa da política ambiental do governo Jair Bolsonaro na Europa e à eleição de Alberto Fernández na Argentina, que se posicionava contra a abertura comercial. Entre 2023 e 2024, esses entraves foram gradualmente removidos.



