Compra da mineradora Serra Verde teve financiamento de Trump e escancara a ausência de política brasileira para terras raras
Brasil corre o risco de ficar como fornecedor de matéria-prima na cadeia dominada por outros, no momento em que esses minerais definem o equilíbrio geopolítico
A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela USA Rare Earth expõe um novo capítulo da disputa global por minerais estratégicos e, ao mesmo tempo, a fragilidade da política mineral brasileira.
O negócio, estimado em US$ 2,8 bilhões, ocorre com forte apoio do governo de Donald Trump, que estruturou um modelo agressivo de política industrial: financiamento público bilionário, participação acionária estatal e garantia de preços mínimos por até 15 anos.
Mais do que uma aquisição empresarial, trata-se de uma operação geopolítica.
A Serra Verde começou a ser constituída em 2010 e levou mais de uma década para sair do papel, como é comum em projetos minerais complexos.
Após mais de US$ 1 bilhão em investimentos e início da produção em 2024, tornou-se um ativo singular a única operação fora da Ásia capaz de produzir, em escala, os quatro principais elementos magnéticos, o Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr) Disprósio (Dy) e Térbio (Tb).
É difícil decorar esses nomes, e inclusive eles ficam na parte de baixo da tabela periódica, que estudamos no ensino médico. Importante é saber que servem e isso explica o interesse do governo dos EUA.
Os dois primeiros (neodímio e praseodímio) formam a base dos chamados ímãs NdFeB (neodímio-ferro-boro), que são os mais fortes disponíveis comercialmente hoje. Já o disprósio e o térbio entram em menor quantidade, mas são cruciais porque aumentam a resistência ao calor, evitam perda de magnetismo em altas temperaturas e permitem uso em aplicações exigentes
Esses quatro elementos são fundamentais em tecnologias como: motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos e eletrônicos, e sistemas militares avançados, como mísseis de última geração.
A Serra Verde deve responder por parcela relevante da produção global fora da China até o fim da décade. Esse salto transformou a empresa na maior produtora de minerais críticos fora da Ásia, tornando inevitável o interesse de potências estrangeiras.
Antes mesmo da venda, a Serra Verde já era controlada por fundos internacionais — dois dos Estados Unidos e um do Reino Unido. Ou seja, o Brasil já havia perdido o controle financeiro do ativo. Aliás, o Brasil nunca teve esse controle.
A aquisição pela USA Rare Earth apenas aprofunda essa lógica: agora, além do capital, o controle estratégico passa a estar diretamente alinhado ao Estado americano.
Fundada em 2019, a USA Rare Earth nasceu com um objetivo claro: construir uma cadeia completa de terras raras nos Estados Unidos — da mineração à produção de ímãs industriais.
Nos últimos anos, a empresa adquiriu ativos no Reino Unido (Less Common Metals), investiu em processamento na França e desenvolve mina no Texas e fábrica de ímãs em Oklahoma, além de ter recebido investimento direto do governo americano, inclusive com participação acionária
Esse modelo — chamado de “mine-to-magnet” — é essencial para reduzir a dependência do Ocidente em relação à China, que domina até 90% do processamento global.
O interesse do governo Trump nos minerais críticos é direto:
Defesa: mísseis, radares e sistemas militares dependem desses elementos
Energia: turbinas eólicas e baterias exigem terras raras
Tecnologia: chips, smartphones e carros elétricos
Em outras palavras, trata-se de soberania industrial.
Por isso, Washington abandonou a lógica de mercado puro e passou a agir como planejador estratégico — financiando, garantindo preços e até assumindo participação nas empresas.
Enquanto os EUA tratam o tema como questão de segurança nacional, o Brasil segue sem política estruturada para minerais críticos.
Hoje, não há um marco regulatório específico para o setor. A única proposta relevante no Congresso é do deputado Patrus Ananias, que sugere a criação de uma reserva estratégica em áreas de Minas Gerais e São Paulo, explorando o potencial de regiões de origem vulcânica.
O projeto, porém, não avançou.
Na prática, o país não define regras claras para exploração, não cria incentivos industriais, e não estabelece proteção estratégica dos recursos
A compra da Serra Verde escancara uma contradição:
O Brasil possui recursos estratégicos centrais para a economia do futuro, mas não tem estratégia para eles.
Enquanto isso, os Estados Unidos financiam empresas, garantem mercado, organizam cadeias produtivas e compram ativos no exterior
O resultado é previsível: o país que detém o recurso não necessariamente detém o poder.
E, no ritmo atual, o Brasil corre o risco de permanecer como fornecedor de matéria-prima em uma cadeia dominada por outros — exatamente no momento em que esses minerais definem o equilíbrio econômico e geopolítico do século XXI.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



