Contagem regressiva...

A gente vai sair desse pesadelo e lançar um novo sentimento de mundo sobre esse Brasil que nossos ombros ora suportam. Afinal, no próximo ano “há de ser outro dia”. Saravá!

Manifestação “Fora Bolsonaro”, São Paulo, Av. Paulista
Manifestação “Fora Bolsonaro”, São Paulo, Av. Paulista (Foto: Paulo Pinto/Fotos Publicas)
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Daqui a um ano o Brasil terá, novamente, a oportunidade de escolher novos rumos, tomar vergonhar na cara, parar com a cantilena de ser “O país do futuro”, investir no aqui e agora, pois tem inúmeras potencialidades para isso. Não será uma “escolha difícil”, nem ninguém verá “lições de partir”, como no poema “Lua nova” escrito por mestre Manuel Bandeira em 1953, para o aeroporto de Paris. Diante do futuro cenário, alinhavo esta e outras memórias literárias.

É difícil imaginar que a opção será a continuidade da aventura que nos colocou nessa pindaíba marcada por falta de justiça, trabalho e pão. Além de tentar sobreviver a um vírus letal, temos que nos proteger contra outro, tão fatal quanto, o da ignorância capitaneada por um sujeito sobre o qual me reservo a usar um adjetivo. São muitos os textos em que essa categoria gramatical impinge, de forma cirúrgica, o retrato de sua figura. A expectativa é que assim como a identificação com suas práticas e pensamentos nefandos geraram um “ismo”, seu nome um dia será  alçado à categoria de adjetivo para significar tudo que não presta.  

Em tempos de “patriotismo às avessas”, pois o amor ao país significa destruir tudo e abrir portas e pernas ao estrangeiro cujo representante maior é aquele que tem mais invasões na cacunda, sempre em busca de defender seus próprios interesses por meio de bombas e ideologias. Bem diferente, portanto, da postura do poeta Gonçalves Dias que, longe daqui, produziu a romântica “Canção do exílio” (escrita em 1841, publicada em 1846), que exalta a saudade e a natureza brasileira sem lançar mão de um único adjetivo em suas cinco estrofes, divididas em três quadras e duas sextilhas.

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Podemos contrastar a criação do bardo maranhense com uma canção que, além de ser uma das mais tocadas no exterior, põe o ufanismo no mesmo grau: “Aquarela do Brasil”, do mineiro Ary Barroso, composta em 1939.  Para ilustrar seu canto-exaltação ao “Brasil brasileiro”, o compositor lança mão de adjetivos extremamente requintados: “inzoneiro”, “merencória”, “rendado”, “trigueiro” e “murmurantes”.  

O projeto político que assumirá o Brasil a partir de 2023 terá como meta o substantivo que consagra aquela que foi considerada a música mais importante do Brasil no século XX, “Construção”, de Chico Buarque, lançada em 1971.  O país que está nela é o que esqueceu de um dos pilares do suposto “milagre econômico” durante a ditadura: o trabalhador da construção civil. O rigor cabralino da canção de Chico é econômico nos adjetivos. Estes são usados para desconstruir a suposta rigidez dos substantivos: “passo tímido/bêbado”, “olhos embotados”, “paredes sólidas/mágicas”, “desenho mágico/lógico”, “pacote flácido/bêbado/tímido”, “passeio público”. Podemos usar, também, uma imagem criada por Caetano Veloso trinta anos depois, ao colocar o dedo na falácia sobre certa ordenação econômica que, movida pelos ventos da chamada globalização, iria impor “uma nova ordem mundial”. O Brasil, sempre propenso a assimilar “as ideias fora de lugar”, como demonstra o valioso ensaio de Roberto Schwarz (1977), avexou-se todo a entrar num dos vagões desse violento trem-bala. Para Caetano, porém, seria preciso, primeiro, fazer os deveres de casa. Em “Fora da ordem” (1991) ele escreveu: “Aqui tudo parece que ainda é construção e já é ruína/ Tudo é menino e menina no olho da rua/ O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua/ Nada continua”. É triste saber que cinquenta anos depois dos versos de Chico e trinta dos de Caetano, continuamos à deriva. 

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Os artistas, dizem, têm um quê de profetas. Essas canções emblemáticas contribuem muito para mostrar as fraturas de nossa identidade e as ranhuras no processo civilizatório, como prova a eleição, na rabeira do sujeito que ocupa a Presidência, de várias excrescências para o Parlamento. Elas hão de voltar, em breve, às sombras do anonimato. A tragédia dos dias que passam também serviu para nos fazer conhecer melhor “o caráter” de quem fazia parte da história de nossa vida privada. São muitos os relatos que o inimigo nem sempre morava ao lado. Estava à mesa, na cama, na sala de estar ocupada por parentes e aderentes, que compartilhavam o espírito festeiro de aniversários e churrascos.  Haja divã!

Talvez devamos lançar mão de dois personagens da dramaturgia para encarar os quatro anos sob o espírito do genocida-miliciano (não resisti!) como uma mistura entre pesadelo e realidade, numa trama tão bem urdida que ficamos sem saber quem é quem. O primeiro está na tragicomédia A vida é sonho, de Calderón de La Barca, que narra a trágica experiência de Segismundo, filho de Basílio, rei da Polônia, que vive confinado numa torre devido a um vaticínio. Seu único contato com o mundo é feito por Clotaldo, seu guardião e servo fiel do pai.  O segundo em A megera domada, comédia de Shakespeare, centrada no funileiro Cristóvão Sly. Depois de acordar de uma carraspana ele é convencido, por um fidalgo e sua trupe, que é um lorde que ficara louco por quinze anos. 

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Por fim, podemos compartilhar da experiência traumática da mulher e suas duas filhas, quando o marido embeiça-se por outra em “Caso do vestido”, de Drummond. Traição, abandono, solidão, raiva, flerte com a morte. Depois de muito tempo, o arrependimento, a volta do marido pródigo e a possibilidade de consertar os estragos do passado. Mais Brasil, impossível! Quereríamos acreditar, como a mãe-narradora desses cento e cinquenta dísticos enfeixados em setenta e cinco estrofes, “de que tudo foi um sonho,/ vestido não há... nem nada.” Não foi. Mas a gente vai sair desse pesadelo e lançar um novo sentimento de mundo sobre esse Brasil que nossos ombros ora suportam. Afinal, no próximo ano “há de ser outro dia”. 

Saravá!

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