Cordão de galhos
Entre enchentes, erosão e turismo predatório, o litoral expõe a fragilidade urbana diante das mudanças climáticas e da falta de planejamento eficaz
Ao mesmo tempo que as chuvas de verão do mês de fevereiro de 2026 castigaram a Zona da Mata Mineira, provocando transtornos com perdas de vidas humanas e materiais em áreas de risco geológico em Juiz de Fora [1] e região, como, por exemplo, as áreas do município de Ubá, o que ocorreu em Ubatuba, no Litoral Norte do Estado de São Paulo, foi o predomínio dos alagamentos no setor urbano da cidade.
A impermeabilização asfáltica das vias de circulação de veículos, muitas vezes recobrindo o capeamento anterior de paralelepípedos ou bloquetes, impede a infiltração das águas de chuva e favorece o fluxo superficial, com o seu consequente represamento nas áreas mais planas, ocupadas por casas e edifícios. Na parte central da cidade é visível a falta de “bocas de lobo” que poderiam existir nas sarjetas das calçadas para a captação das águas pluviais e auxiliar no escoamento e na sua infiltração, evitando os recorrentes alagamentos.
Por outro lado, o registro do transporte de materiais, principalmente pela descarga dos rios Acaraú, Tavares e Grande Ubatuba na baía das praias do Itaguá e do Iperoig, pode ser observado pelo longo cordão de galhos de vegetação, resultado do trabalho do mar, “devolvendo” para a faixa de areia o que foi “quebrado” e arrancado dos arredores desses rios recentemente e que fazem parte da rede de drenagem da chamada Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Litoral Norte (UGRHI-03), responsável pela gestão das águas da região [2].
Acrescenta-se a esse cenário o avanço do mar no calçamento e na ciclovia existente na Praia do Itaguá, expondo o muro de gabião, obra executada nesse trecho para conter a erosão marítima e, ao que tudo indica, não deu certo, porque parece que foi o mar o vencedor [3] nessa cidade com forte vocação turística.
“Em todo o mundo e, principalmente nos países menos desenvolvidos, vários estudiosos das atividades turísticas alertam sobre os danos que elas podem causar ao solo, ao ar, à água, à vegetação e à vida selvagem. No Quênia, por exemplo, a demanda por resorts e hotéis turísticos tem resultado na destruição de manguezais e em danos aos recifes de corais. Os estudiosos ainda alertam sobre os diversos danos socioculturais que as atividades turísticas podem causar às comunidades receptoras, como possíveis mudanças nas culturas tradicionais para adequação à produção voltada aos turistas, aumento da desigualdade social caso a criação de empregos e infraestrutura seja direcionada às atividades turísticas e não consiga beneficiar toda a população, entre outros.” [4]
Se observarmos o cordão de galhos como o que foi descrito neste texto, numa pequena faixa de areia de praia, como também o muro de gabião instalado para conter a erosão, diríamos que as cidades ao longo do extenso litoral brasileiro deveriam merecer atenção especial do poder público, face às mudanças climáticas em curso, e não ficar “quebrando o galho” com soluções paliativas que apresentam resultados duvidosos.
“Muitas velas. Muitos remos. / Âncora é outro falar... / Tempo que navegamos / não se pode calcular. / Vimos as Plêiades. Vemos / agora a Estrela Polar. / Muitas velas. Muitos remos. / Curta vida. Longo mar.” Trecho do poema “O Rei do Mar”, de Cecília Meireles.
Fontes
[1] “Riscos geológicos em Juiz de Fora”. Artigo de Heraldo Campos de 26/02/2026. https://www.ecodebate.com.br/2026/02/26/riscos-geologicos-em-juiz-de-fora/
[2] Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Litoral Norte (UGRHI-03). https://sigrh.sp.gov.br/cbhln/apresentacao
[3] “Mar, o vencedor”. Artigo de Heraldo Campos de 04/02/2026. https://www.brasil247.com/blog/mar-o-vencedor
[4] “Turismo e consumo dos lugares”. Trecho do tópico do livro “Expedições Geográficas” de Melhem Adas & Sérgio Adas. São Paulo, 2ª edição, Editora Moderna, 2015, p. 59.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
