Cozinhar é um ato político e sustentável

Cozinhando, estamos contribuindo para mudar o sistema alimentar baseado no consumo de alimentos processados e ultraprocessados e com o desenvolvimento e o crescimento da agricultura familiar

Cozinhar é um ato revolucionário. A frase, possivelmente inspirada nas teses e pensamentos do jornalista e escritor norte-americano Michael Pollan - autor de vários best-sellers mundiais sobre comida e alimentação – virou ícone, estampando um cartaz do Grupo Poro, formado pelos artistas plásticos Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada. Eu concordo e vou além: cozinhar é um ato político. Não só eu penso dessa maneira: muitas pessoas que lidam e escrevem sobre comida acham isso também.

Há cerca de um ano eu li uma entrevista no jornal O Globo com um dos mais badalados e afamados chefs do mundo, o peruano Gaston Acurio, dono de 50 estabelecimentos espalhados pelo planeta.

Lá pelas tantas, na entrevista, ele revela que tinha duas missões: fazer restaurantes com preços mais acessíveis e tentar convencer as pessoas a cozinhar em casa. "A verdadeira importância da cozinha, para as lutas diárias em nível ambiental, cultural, social e nutricional, está em casa", diz ele, que acredita ser a alimentação um fator modificador importante da sociedade, da indústria e do meio ambiente.

Incentivar que as pessoas voltem a cozinhar, preparar seu próprio alimento é, atualmente, quase um movimento mundial. Programas de televisão sobre culinária espalhados pelo planeta atestam essa tendência.

Durante grande parte da nossa História, o ser humano precisou cozinhar para sobreviver. Depois, com a Revolução Industrial, as coisas mudaram. Hoje, com as comidas processadas pelas grandes indústrias de alimentos, com as comidas congeladas, com o micro-ondas, entendo que fica mais difícil se aventurar a cozinhar, considerando ainda a falta de tempo que o ser humano tem nesse cruel ambiente competitivo.

Cozinhar significa utilizar, quase sempre, produtos in natura e processá-los para transformá-los em comida pronta para serem consumidas. Isso quer dizer que, adquirindo produtos in natura, ou minimamente processados, estamos contribuindo economicamente e socialmente para o desenvolvimento e o crescimento da agricultura familiar, do pequeno produtor, estamos contribuindo com a política de fixar o homem ao campo.

Cozinhar é um ato sustentável

Cozinhar a partir dos elementos naturais, não industrializados, é um ato sustentável, saudável para o meio ambiente, saudável para o planeta, saudável para o nosso corpo, para a nossa mente, para a nossa autoestima. É um ato ecológico. Político, portanto. Quanto mais cozinhamos, mais estamos contribuindo para um planeta mais feliz.

Cozinhando, estamos contribuindo para mudar o sistema alimentar baseado no consumo de alimentos processados e ultraprocessados.

Assim, procure fazer compras de alimentos em mercados, feiras livres e feiras de produtores e em outros locais que comercializam variedades de alimentos in natura ou minimamente processados, se possível dando preferência a alimentos orgânicos da agroecologia familiar.

Praticar uma alimentação mais saudável é muito bom para o nosso corpo, para o nosso organismo.

Cozinhar é a melhor maneira de controlar a sua alimentação, controlar, por exemplo, o excesso de sal. Normalmente, alimentos processados e ultraprocessados, são carregados no sal e/ou no açucar, até os "inofensivos" biscoito industrializados. Comer com frequência em restaurantes significa ingerir, quase sempre, uma quantidade de sal maior do que a que o nosso organismo precisa diariamente.
Embora legumes, verduras e frutas possam ter preço superior ao de alguns alimentos ultraprocessados, o custo total de uma alimentação baseada em alimentos in natura, ou minimamente processados, ainda é menor, no Brasil, do que o custo de uma alimentação baseada em alimentos industrializados.

Nós não podemos sucumbir à indústria de alimentos processados. Vamos para a cozinha, transformar, compartilhar, cheirar, saborear, amar. Não tenham medo, não resistam, pois cozinhar é a coisa mais simples do mundo. Não acreditem nessa história de "não tenho jeito para a cozinha, não tenho talento". Talento e técnica apurada não são necessários para os cozinheiros e cozinheiras do cotidiano nosso de cada dia. Quem precisa disso são os chefs de cozinha, os profissionais.
Para reduzir o tempo dedicado à aquisição de alimentos e ao preparo de refeições, planeje as compras, organize a despensa, defina com antecedência o cardápio da semana, aumente o seu domínio de técnicas culinárias e faça com que todos os membros de sua família compartilhem da responsabilidade pelas atividades domésticas relacionadas à alimentação.

Dez passos para uma alimentação saudável

E para terminar, seguem os "Dez passos para uma alimentação adequada e saudável" sugeridos pelo "Guia Alimentar para a População Brasileira", do Ministério da Saúde, lançado em 2006 (governo Lula) e relançado em 2014 (governo Dilma): (1) Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação; (2) utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias; (3) limitar o consumo de alimentos processados; (4) evitar o consumo de alimentos ultraprocessados; (5) comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, com companhia; (6) fazer compras em locais que ofertem variedades de alimentos in natura ou minimamente processados; (7) desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias; (8) planejar o uso do tempo para dar à alimentação o espaço que ela merece; (9) dar preferência, quando fora de casa, a locais que servem refeições feitas na hora; (10) ser crítico quanto a informações, orientações e mensagens sobre alimentação veiculadas em propagandas comerciais.

Bom apetite!

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