Cuba está prestes ao colapso?
Bloqueios e sanções transformaram a crise cubana em um desgaste calculado, que corrói o cotidiano e empurra a população para o limite da sobrevivência
Cuba vive hoje uma crise brutal. Não é retórica, não é exagero militante. Falta energia, falta combustível, faltam bens básicos. Apagões viraram rotina, o transporte emperra, a economia anda aos solavancos — quando anda. O cerco apertou como nunca. E não por acaso.
O endurecimento das sanções promovido por Donald Trump não mira apenas o governo cubano. Mira o cotidiano. A aposta é simples e antiga: fazer a vida impossível até que algo quebre por dentro. Não é invasão, não é guerra declarada — é desgaste prolongado, frio, calculado. Vale lembrar: o embargo já passa dos 60 anos. Mudaram presidentes, caíram muros, acabou a Guerra Fria — mas a punição a Cuba seguiu firme, atualizada apenas nos métodos.
Os Estados Unidos não escondem mais o desejo de empurrar Cuba para o limite. Cortar o fornecimento de petróleo, impedir terceiros de negociar, asfixiar a logística básica de um país inteiro. Tudo isso sob o discurso elegante de “pressão por liberdade”. Na prática, é uma política que transforma energia, comida e transporte em armas.
Mas crise não é sinônimo automático de colapso. Cuba já esteve pior. Sobreviveu à queda da União Soviética, ao chamado Período Especial, a décadas de isolamento e improviso. Sobreviveu mais por resistência social do que por entusiasmo ideológico. Hoje, porém, o cenário é diferente: a sociedade está mais cansada, menos paciente e mais frágil.
O que existe agora não é um país prestes a “cair” de um dia para o outro, como sonham alguns analistas de Washington. O que existe é algo talvez mais cruel: um colapso lento, que se infiltra no cotidiano, corrói expectativas, desgasta vínculos e empurra as pessoas para a desistência, a apatia ou a saída.
A grande incógnita não é se o regime cai amanhã, mas o que sobra quando uma sociedade passa tempo demais sobrevivendo no limite. A fome não produz democracia automaticamente. O apagão não ilumina consciências por milagre. O sofrimento prolongado pode gerar revolta — ou apenas exaustão.
No fundo, o bloqueio diz mais sobre quem o impõe do que sobre quem o sofre. Sessenta anos depois, Washington ainda parece acreditar que a fome educa, a escassez converte e o apagão ilumina consciências. É uma fé curiosa — e profundamente cínica.
Não, Cuba não “já colapsou” neste instante — mas está claramente em um ponto de ruptura que pode rapidamente desabar em desastre humanitário, instabilidade social ou mudanças políticas profundas se os gargalos energéticos e econômicos não forem aliviados. A linha entre “crise grave” e “colapso” está mais tênue agora do que em décadas — e a aposta dos EUA é justamente empurrar o país para além desse limite.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
