Cubando o movimento



Em algumas cidades do interior do Brasil, quando o final da tarde chega e o sol já começa a se esconder, é hora de colocar uma cadeira na calçada e observar o vai-e-vem da vida. A isso denomina-se “cubar” (observar) o movimento (aquilo que está acontecendo). Assim sendo, pode-se cubar o movimento dos barcos (Salve Jards Macalé!), o movimento do tráfego, dos parques, dos calçadões, das ruas... da vida. Por extensão, pode-se “cubar’ também o movimento da mídia, ou seja, observar aquilo que os veículos de imprensa publicam, como o fazem e por qual razão o fazem daquela forma, às vezes, bela e combativa, outras nem tanto.

Assim, no último dia 06 de abril, quando o Brasil registrou a assustadora marca de 4.195 mortes por Covid-19 (enquanto escrevo já são 4.249), totalizando 336.947 mortes pela doença, a imprensa divulgou, entre outras, três notícias, no mínimo, constrangedoras. A primeira matéria dizia: “com a inflação em alta, o ovo ganha status de prato principal”. Primeiramente, por qual razão a inflação está em alta? Seria pela incompetência de quem está no comando do país? Mas, claro, isso a matéria não mostra. Além disso, ovo nunca teve nem terá statusde absolutamente nada. Aqueles que comem ovo como “prato principal”, o fazem meramente por falta de opção, pois a eles foram negados os direitos humanos mais elementares. Logo, é de extrema desonestidade intelectual propor tal absurdo, como se fosse um maravilhoso insightde um grande chefde coisa nenhuma, falando para o nada. Mas a quem serve esse tipo de pirueta “jornalística”? A quem se quer agradar?

A segunda notícia dava conta de que, pela primeira vez em 17 anos, mais da metade da população brasileira, por volta de 116 milhões de pessoas, não tem o que comer. Ora, foi nisso que deu a criminalização da política, especificamente das políticas de afirmação das esquerdas, bem como o ódio ao pobre. Quem imaginaria isso, né? Contados 388 anos de escravização do povo preto, o modus operandi dos donos do poder continua a todo vapor, por intermédio dos processos de escravização e segregação, que se constituem, entre outros, como pilares da cultura de morte que domina o país, impedindo o avanço dos menos favorecidos e negando-lhes, inclusive, um prato de comida. E cá estamos nós de volta ao mapa da fome.

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No momento, o número de desempregados já passa dos 14 milhões. Inúmeras empresas estão fechando as portas, encerrando a produção e abandonando o Brasil. A nação está à deriva, mas a “preocupação” de determinados setores da mídia é o novo statusdo ovo como prato principal, num país onde o povo pobre já se acostumara a comer picanha em tempos outros. Assim fica difícil! Mas não há o que se esperar de diferente daqueles que têm as mãos sujas de sangue e carregam um cemitério nas costas. Não que eles se importem com isso, mas é necessário lembrá-los disso a cada nascer do sol.

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A terceira matéria, por sua vez, dizia que o Brasil conta agora com 11 novos bilionários. Que notícia maravilhosa! Com exceção dos “comunistas” e dos demais que torcem contra o Brasil, é realmente uma notícia de encher os olhos e aquecer o coração, uma vez que os “nossos” valorosos bilionários praticamente não dormem, perdendo noites, dias santos e feriados imaginando, no conforto dos seus iates, como ajudar a população carente e, claro, exigindo o direito de pagar impostos sobre suas grandes fortunas, as quais costumam descansar em berços esplêndidos em paraísos fiscais. É meritocracia que chama?  

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Conclui-se com isso que há, pelo menos, “dois Brasis” (sabemos que são muito mais): um Brasil que deve se contentar em comer ovo, se ajeitar com isso, dar graças a Deus, e se matar, literalmente, para que o outro Brasil continue vivo, vacinado, bilionário e feliz.  

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