Da importância dos movimentos sociais

A ENFF não é uma célula de guerrilhas é isto sim, espaço de educação, arte e formação e que oferece mais de setenta graduações e pós-graduações para centenas e centenas de jovens do Brasil e da América Latina

Um dos maiores cinismos daquilo que o sempre lúcido Mino Carta categoriza de "imprensa nativa" é, sem sombra de dúvidas, seu compromisso apaixonado e irrestrito com o passado. É a vinculação fanática das elites com esse passado e com o que temos de pior em nossa acidentada história.

O termo passado e aqui utilizado possui duas conotações básicas; a primeira é evidentemente a do tempo passado, pretérito, daquilo já ocorrido, mas que não está "lá atrás" no tempo. É que todo mundo sabe que em se tratando de Brasil, o passado nunca passa. É essa força descomunal que se apropria do presente condicionado, por consequência, o próprio futuro. A segunda concepção é a que se refere ao que já está superado, envelhecido, "vencido" mas que nem por isso perde centralidade, sobretudo, nas estratégias de dominação utilizadas pelas nossas elites.

É preciso considerar que o compromisso de nossa mídia, velhaca e sempre useira e vezeira de verbas públicas para seus programas bobocas e desinteressantes, não é apenas com o passado; é com o pior deste passado. É preciso tomar alguns cuidados ao nos reportarmos ao nosso passado. Definitivamente não respeita a uma totalidade compacta de negatividades, nocividades e tragédias. Não mesmo... Tem muita coisa boa, excelentes experiências, aprendizados e exemplos e que mesmo apetecidos, ainda hoje nos orienta, informa, inspira e nos faz melhores.

Estou tratando do compromisso dessa mídia golpista e traiçoeira com os ranços, lástimas e anacronismos do passado. Tento abordar da vinculação que ela estabelece com o que a história brasileira produziu de pior, de mais deletério e opressor na relação com o povo brasileiro. É do que se trata. É dessa vinculação midiática que implica em um tipo de difusão militante em prol de um ordenamento de classes engessado, atávico e impossível para qualquer sorte de real mobilidade social.

É tremendo! O pior é que a partir da assim chamada sociedade civil organizada e dos seus movimentos sociais e que tentam pôr em questão a trágica estrutura social e econômica que inviabiliza ao menos, setenta por cento da população brasileira, não tem jeito, no movimento por alterar esse quadro perverso, as forças populares são imediatamente etiquetadas como criminosas, terroristas ou subversivas.

Evidentemente, todo mundo viu pela imprensa o acontecido com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), situada em Guararé (SP) e dirigida pelo Movimento dos Sem-Terra (MST). Só para situar os mais desinformados, a ENFF é uma escola! O dado da escola é fundamental, sobretudo, em momento onde o movimento pra valer se dá em mais de mil escolas ocupadas em todo o país. Pois bem... A ENFF não é uma célula de guerrilhas é isto sim, espaço de educação, arte e formação e que oferece mais de setenta graduações e pós-graduações para centenas e centenas de jovens do Brasil e da América Latina.

Em recente carta aberta da Professora Silvia Beatriz Adoue, a ENFF é referência em matéria de pesquisa e produção científica acerca da questão agrária e de tecnologias agrícolas mais eficientes. Para breve registro, esta escola é modelo mundial em matéria de ensino, pesquisa e extensão.

É surpreendente! Sem nos esquecermos de que o "odiado" MST é, todo ele, movimento pacífico cuja ação mais radical é ocupar imensos latifúndios vazios e improdutivos para fins de reforma agrária, aliás, política determinada expressamente na constituição federal.

Tenho cá comigo que todos os movimentos sociais e populares do Brasil, pelo seu pacifismo e níveis de cumprimento das leis, devem ser respeitados, ouvidos e considerados. Suas demandas devem ser, pelo menos entendidas e negociadas. Em nome da democracia, da paz social e da manutenção mínima da coesão social e que resta nesse país que ama matar pobres, crianças e negros.

Ou será que a direita que governa o Brasil prefere movimentos sociais ao estilo das FARC's? Do Estado Islâmico? Do Hezbollah? Da Al Qaeda? De certo IRA e que fez e aconteceu no Reino Unido, sobretudo, nos anos de 1970/1980? Talvez o ETA e que, ainda hoje, atua firme em uma Espanha afundada em insolúvel crise econômica?

É importante ter juízo e jamais esquecer que o horizonte do país é o aprofundamento da democracia, o cumprimento e a garantia dos direitos sociais e expressos no artigo quinto da constituição federal visando igualdade, justiça e liberdade. Sem essa busca teimosa e esperançosa o país se perde e se vulnerabiliza ante a golpes e sabotagens das governanças e da vida social. Ou entendemos isso ou o pior do passado nos toma, aprisiona e submete.

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