Das margens do Ipiranga ao Cidão
Das margens do Ipiranga ao Cidão, o Brasil passou pela imigração e pela miscigenação, pela industrialização que transformou São Paulo em metrópole
Há algum tempo fui ao Museu do Ipiranga. Não o conhecia depois da reforma; tinha as belas lembranças de infância dos passeios de escola, especialmente do Pedro Américo - Independência ou Morte.
A reforma deixou o espaço bonito, mas o conteúdo não me cativou tanto. Uma coisa, no entanto, chamou minha atenção: um setor dedicado à indústria no século XX em São Paulo, mais especificamente de calçados. Lembrei do meu avô e viajei: como Boris Fausto fazia, trazendo a história de uma pessoa para contar a história de um país, meu avô narra, em sua vida, parte importante do século XX brasileiro.
Nascido em 1940 no interior de São Paulo, na pequena cidade de Bocaina, fundada por colonos italianos que migraram no final do século XIX, ele era filho de um italo-brssileiro nascido no meio da travessia do Atlântico, e de minha bisavó cabocla, falecida em 2007, matriarca da família e presença constante em meus sonhos quando algo importante se aproxima.
Na infância, meu avô já trabalhava como engraxate em cidades vizinhas, como Jaú. Seguindo o êxodo rural, a família migrou primeiro para o Paraná e depois se instalou no pequeno bairro do Chora Menino, na Zona Norte de São Paulo.
Lá, Clodoaldo virou “Cidão”. Construiu família, riu e chorou. Acompanhando o milagre econômico, prosperou: passou de engraxate a dono de fábricas e lojas de calçados, chegando a ser presidente da associação de calçadistas. Até ostentou, com seu Mustang vermelho, percorrendo 200 km/h de volta à terra natal, exibindo orgulhoso seus carros para velhos amigos e parentes.
Teve quatro filhas. Seu maior orgulho? - “Minhas filhas são estudadas. Paguei escola particular, fizeram USP e PUC.” Ele tinha outro sonho: conhecer a terra dos avós, a Itália. Nunca realizou. Tinha medo de avião e mandava funcionários em seu lugar quando os negócios exigiam viagens longas.
Mas esse sonho acabou sendo realizado por minha mãe, sua filha mais velha, em 1989. Com um filho de um ano e encharcada de sonhos, ela partiu, numa época em que viajar para o exterior era um evento extraordinário: lista de presentes para todos, família inteira no aeroporto, raras ligações a cada quinze dias, lágrimas. Eu mesmo, quando estive lá muitos anos depois, chorei como criança. Acabei me sentido em casa.
Depois do milagre econômico, vieram a recessão, a década perdida dos anos 80, e o golpe final: o confisco da poupança na era Collor. Cidão perdeu fábricas e lojas, cansou de ajudar parentes, mas deixou um legado. A invasão do "estrangeiro" veio com tudo e fábricas de sapato foram perdendo espaço para as grandes marcas. A indústria interna perdeu força nos anos seguintes.
Hoje, aos 86 anos, ele ainda mora na mesma casa desde 1971, no Chora Menino. Tem quatro netos e três bisnetos, colhe melissa no quintal e conhece a rua inteira.
Das margens do Ipiranga ao Cidão, o Brasil passou pela imigração e pela miscigenação, pela industrialização que transformou São Paulo em metrópole, pelo êxodo rural, pelo milagre econômico que prometeu ascensão, pela aposta na educação como mobilidade social e, depois, pela crise dos anos 80, o confisco de Collor junto com a abertura brasileira e a desindustrialização - um século inteiro atravessando uma única vida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
