Das veias abertas às urnas fechadas
O que Galeano e Homer Simpson ajudam a explicar sobre a nova América Latina
Eduardo Galeano provavelmente não imaginou que um dia a América Latina faria tanta gente da esquerda repetir uma das frases mais famosas de Homer Simpson: “A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser”.
Em As Veias Abertas da América Latina, publicado em 1971, o uruguaio Eduardo Galeano retratou um continente explorado por potências estrangeiras, elites locais e uma desigualdade usufrutuária vitalícia. Meio século depois, a desigualdade continua firme na posse. Quem resolveu mudar foi o eleitor.
Da Argentina ao Equador, passando pelo Chile, Peru e outros vizinhos, a direita vem conquistando espaço, vencendo eleições e ocupando territórios políticos que durante décadas pareciam pertencer, por usucapião ideológico, à esquerda.
É como naquela música de Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado”. Só que, desta vez, o passado resolveu aparecer vestindo outras cores.
A explicação mais confortável para esse fenômeno é dizer que os eleitores foram enganados, enlouqueceram ou simplesmente votaram contra os próprios interesses. A explicação mais difícil é admitir que talvez os analistas tenham compreendido menos o eleitor do que imaginavam.
Os problemas apontados por Galeano continuam por aí. A desigualdade permanece entre as maiores do mundo. A concentração de renda continua resistente a governos de esquerda, de direita e de centro. A prosperidade para todos segue sendo uma promessa recorrente, dessas que aparecem em toda campanha eleitoral e desaparecem logo depois da apuração.
Então por que a direita cresce?
Thomas Piketty, economista francês que dedicou boa parte da carreira a estudar a concentração de renda e a desigualdade, oferece uma pista interessante. Ao analisar as democracias ocidentais, observou que muitos partidos de esquerda passaram a ser identificados cada vez mais com as elites educacionais, acadêmicas e culturais.
Traduzindo para o português da padaria: quem falava em nome do povo começou a ser visto por uma parcela do povo como alguém que mora em outro bairro.
Durante boa parte do século XX, votar na esquerda parecia uma consequência quase natural da desigualdade. Piketty observa que essa ligação começou a enfraquecer quando os partidos progressistas passaram a concentrar apoio crescente entre os segmentos mais escolarizados da sociedade. Não deixaram necessariamente de defender os trabalhadores. Mas deixaram de ser percebidos por muitos deles como seus representantes naturais.
Mas talvez exista um elemento que as estatísticas não consigam medir completamente: a sensação de invisibilidade.
Muitos cidadãos continuaram convivendo com salários baixos, serviços públicos precários, insegurança e poucas perspectivas de ascensão social. Como no universo descrito por Chico Buarque em Deus Lhe Pague, passaram anos recebendo pouco e sendo convidados a agradecer muito. O problema é que gratidão e satisfação nem sempre são a mesma coisa.
É nesse terreno que floresce o ressentimento. Não necessariamente o ressentimento de quem perdeu privilégios, mas o de quem acredita ter sido esquecido. E pessoas que se sentem invisíveis raramente procuram apenas soluções econômicas. Procuram reconhecimento, pertencimento e alguém que demonstre compreender suas frustrações.
Ao mesmo tempo, a direita percebeu que o eleitor não vive apenas de salário, inflação e distribuição de renda. Ele também se preocupa com segurança pública, corrupção, religião, valores culturais e com aquela sensação difusa de que o mundo está mudando rápido demais.
Enquanto uma parte da esquerda continuava falando de estruturas, a direita passou a falar de pertencimento. Como já ensinava o samba, ninguém gosta de ficar sozinho no meio da roda.
As veias abertas descritas por Galeano continuam abertas. O paciente é que resolveu trocar de médico.
Se o novo tratamento vai funcionar, ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: a América Latina continua se recusando a seguir os manuais escritos sobre ela.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

