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Cynthia Guan

Editora-chefe de Economia da CGTN

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Davos 2026: encontrar novos caminhos para a cooperação em um mundo fragmentado

Em meio a tensões geopolíticas e fragmentação econômica, Davos aponta a cooperação pragmática como única saída viável para a globalização do século XXI

Fórum Econômico Mundial, em Davos (Foto: VCG)

O Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2026, em Davos, ocorreu em um contexto marcado por tensões geopolíticas persistentes, fragmentação econômica e mal-estar social. Ainda assim, o tom predominante não foi de retração, mas de reajuste. Ao longo de discursos e conversas de alto nível, os líderes retornaram a uma convicção compartilhada: a cooperação continua sendo indispensável, embora suas formas precisem evoluir.

O presidente do WEF, Børge Brende, apresentou uma metáfora que ressoou durante todo o encontro, ao afirmar que países e empresas estão “encontrando o caminho como a água” para avançar agendas comuns em tempos de incerteza.

A imagem é reveladora. Em vez de forçar antigos canais de globalização, governos e empresas estão se adaptando: contornam obstáculos, abrem novas rotas e buscam conexões pragmáticas onde estruturas rígidas já não funcionam.

O presidente da Suíça, Guy Parmelin, reforçou essa abordagem ao destacar que sociedade, ciência, economia e política precisam trabalhar de forma conjunta. Seu alerta foi claro: quando os desafios são enfrentados de maneira isolada, as soluções se tornam inevitavelmente parciais.

Da resiliência econômica à coesão social, Davos evidenciou a necessidade de um pensamento integrado e de compromissos de longo prazo, em vez de soluções de curto prazo.

A mensagem da China, transmitida pelo vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, concentrou-se diretamente no futuro da globalização econômica. Ao reconhecer suas imperfeições, ele rejeitou a ideia de uma retirada rumo ao isolamento autoimposto. Pelo contrário, sustentou que o único caminho viável adiante é o diálogo e a resolução coletiva de problemas para orientar a globalização em uma direção mais equilibrada e inclusiva. Suas declarações se alinharam ao impulso mais amplo da China para expandir a demanda interna e, ao mesmo tempo, abrir ainda mais seus mercados — em especial no setor de serviços —, constituindo uma crítica clara às guerras comerciais e ao pensamento de soma zero.

Minha conversa com a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, em Davos, foi notavelmente franca. Ao perguntar o que hoje é necessário para uma cooperação significativa entre China e Europa, ela me disse: “Não há amor. Há apenas provas de amor.” A mensagem foi inequívoca. Na economia global fragmentada de hoje, afirmar valores compartilhados é simples; traduzi-los em ações é muito mais difícil. Para Lagarde, uma verdadeira parceria implica oferecer, em termos práticos, uma relação estável, sustentável e baseada em condições equitativas. Exige colocar abertamente sobre a mesa questões sensíveis — preços, subsídios, auxílios e desequilíbrios estruturais — em vez de tratá-las como tabus.

Em última instância, Davos 2026 não ofereceu a ilusão de que o mundo possa simplesmente retornar a uma era mais benigna de globalização. O que ofereceu foi uma compreensão mais clara do que a cooperação exige hoje. Se a economia global está, de fato, “encontrando o caminho como a água”, seu rumo dependerá de saber se os principais atores estão dispostos a demonstrar — por meio de decisões concretas e responsabilidade compartilhada — que a cooperação continua sendo não apenas desejável, mas possível.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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