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Margarida Montejano

Margarida Montejano reside em Paulínia/SP. Poeta e escritora feminista; Doutora em Educação pela Unicamp; Func. Pública na Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Membra do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Campinas; Coordenadora do Projeto Bem-Me-Quero: Empoderamento Feminino e Igualdade de Gênero e, autora dos livros "Fio de Prata" - Ed. Siano (2022); "Chão Ancestral", TAUP Editora (2023) e dos livros infantojuvenis, de engajamento feminino, "A Poeta e a Flor" e "A Poeta e a Sabiá", pela Editora Siano. (2024). @margaridamontejano.escritora

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De que está cheio o vosso coração?

Sobre como pensamentos e palavras influenciam atitudes humanas e a relação com mulheres, animais e a natureza

Cara leitora, caro leitor! Sobre a maldade impressa e expressa em atos e palavras contra a mulher, contra os animais e a natureza, compartilho está crônica com vocês!

Minha mãe aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com a avó, que aprendeu com a tataravó…que aprendeu com a MÃE TERRA…

E, antes mesmo de eu aprender a falar, minha mãe já antecipava o cuidado de me ensinar a ler. A ler o dia e a noite. A interpretar a chuva e o vento. A admirar o sol, a flor, as árvores e o mar. A pensar antes de falar e que, estranhamente, pensamento e palavra moravam no coração!  Que vida e morte andavam de mãos dadas. Eu só ouvia.

Dizia ela, com palavras de bem-querer, que a vida se constrói aos poucos, com os pedacinhos do tempo e das palavras que destinamos às plantas, aos bichos, às gentes e…, devagarinho completava… “às criancinhas”. Insistia em falar que nós, no uso do tempo e das palavras, tecemos a forma de nossa morte. 

Eu não entendia nada, mas achava tudo muito lindo. No som melodioso das palavras tudo, segundo ela, num dado momento da vida, formaria um grande quebra-cabeça incompleto. Sim! Insistia em dizer que faltava, entre as coisas, bichos, flores, gentes e palavras, o meu pedacinho, a minha parte.

Eu a observava por horas na lida do dia. Quando cansada, jogava água no rosto e lançava o olhar ao infinito, desfiando, no rosário invisível entre os dedos, a “Salve Rainha” Ela, baixinho, pedia a Deus, com delicadeza, que protegesse a palavra o pensamento, a boca, as mãos e o coração das pessoas.

Não entendia eu que palavra ela pedia para Deus proteger. Curiosa, queria saber. Um dia, desses dias comuns que povoam as nossas lembranças, a peguei sussurrando ao pé do ouvido de meu pai.  Esforcei-me pra ouvir e, com muito custo, descobri, no sussurro e cumplicidade entre os dois, a palavra cantada a entoar gentileza.

Dizia ela a ele: - Seja gentil! Pense bem! A vida de mulheres, dos bichos, das florestas e dos rios, pede cuidado. Cuidado com pensamento e linguagem. Ambos moram no coração! Cuide, ao falar! A palavra retorna insana a quem a profana! Numa breve pausa, continuava ela: palavras não foram feitas para agredir ninguém. São ondas sonoras através das quais os sentimentos, maus e bons, vão e vêm. Cuidado! 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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