Delação de Daniel Vorcaro caminha em slow motion
"A aposta de Vorcaro pode, sim, ser a de ganhar tempo até a eleição, mas não a de Flávio"
A delação de Daniel Vorcaro caminha em slow motion. Há quem diga que o ex-banqueiro e atual detido na sede da Polícia Federal “ganha tempo”, para atravessar o período eleitoral e, quem sabe, ver Flávio Bolsonaro eleito. Nesse quadro, sua situação seria mais confortável e, talvez, ele conseguisse escapar de mofar na prisão.
A visão é “arrumadinha”, mas alguém pensa, mesmo, que um cara que dominou uma rede financeira de tal monta, seria ingênuo a esse ponto? O de apostar numa hipótese tão frágil e limitada? Estamos falando de Daniel Vorcaro, o homem que distribuiu imóveis e quantias em torno de 100 milhões para figuras chave da política desse país.
Suspeito de comandar um esquema de fraudes financeiras que entrará para a história como uma das maiores, ele lesou correntistas e investidores do banco de sua propriedade, o Master, e fez derreter o dinheiro dos fundos de previdência de estados e municípios. Um deles, o Rioprevidência, provocando um rombo no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que arca com aplicações de até R$ 250 mil, em cerca de R$ 50 bilhões.
Esse é o ponto. A aposta de Vorcaro pode, sim, ser a de ganhar tempo até a eleição, mas não a de Flávio. Não apenas. O ex-banqueiro teve na mão (e até no ombro, vide foto nos alpes franceses), nada mais que o presidente de um partido, Ciro Nogueira (PP - PI). Hoje, (12/06) circulou a notícia de que na segunda delação, consta uma transferência de US$ 30 milhões para Davi Alcolumbre, o presidente do Senado. Então, estamos falando de alguém que não pensa pequeno.
Ao que tudo indica, Vorcaro quer dar prosseguimento a um mega plano. Qual? O de investir na eleição de um número significativo de senadores e deputados, a fim de tornar o Congresso um território dele, onde ele e seus cúmplices - e eu arriscaria a apostar nos Bolsonaro -, dariam as cartas, propiciando a oportunidade ao ex-banqueiro de se safar da Justiça, com manobras manhosas e maneiras, tendo atrás de si todo o aparato do campo deles.
Quem não viu, ou não prestou a atenção, pode não ter percebido o risco que é as andanças de Michelle pelo país, a catequizar mulheres – evangélicas, em geral -, a fim de sugerir que tomem de assalto as mesas de votação, na condição de mesárias. E o que isso tem a ver com os planos de Vorcaro? Tudo. São os mesários e mesárias que fazem a ata de votação em cada seção e, portanto, têm nas mãos o destino dos votos ali depositados. Com o domínio das mesas, não fica difícil subverter o resultado da votação – não nas urnas eletrônicas, que operam com total segurança. Toda a falcatrua sairia dos boletins das seções. O plano é ardiloso e, se bem engendrado, permitiria a eleição de um Congresso só deles.
Com o Congresso nas mãos, e mais algum empurrão na ponta do Judiciário, como já tivemos mostra na semana que passou, Daniel Vorcaro poderia virar, tal como tentam fazer de Bolsonaro, hoje, uma “vítima do sistema cruel”. O resto ficaria com a sua defesa, paga certamente com muitos milhões, para ter qualidade e competência.
Assim posto, é possível imaginar o quanto é preciso evitar que chegue às mãos da PF, antes do pleito, todos os nomes dos políticos envolvidos na lambança. Com as biografias preservadas, é possível reelegê-los e dar continuidade ao que desde 2019 caminhou tão bem. Daniel Vorcaro teve a máquina na mão. Do Banco Central à Câmara, passando por nomes do Senado que, por certo, virão a público, se a PF se apressar em debulhar de forma célere as situações contidas nos oito celulares apreendidos com Vorcaro.
Longe de nós questionarmos o papel da PGR, que marcou para hoje (12/06), a resposta sobre se aceita ou não a segunda delação apresentada por sua defesa. Na PF, não colou. Foi rejeitada por insuficiência de informações que permitissem ser confrontadas com as provas. Segundo O Globo, “investigadores sustentam que os anexos entregues não apresentam fatos suficientemente inéditos nem elementos de corroboração capazes de justificar o avanço de um acordo de colaboração. Também há uma percepção entre eles de que o banqueiro não está disposto a cooperar e estaria só tentando ganhar tempo longe de um presídio comum”. E se estivermos diante de mais uma negativa, estaremos duas voltas “sem jogar”.
Não se entende por que até agora, com tudo que veio à tona em relação ao senador Ciro Nogueira, sua imagem nem sequer foi arranhada, quando sobram elementos para que ele já esteja dentro do processo.
A menos que apostem na sua reeleição, apesar das denúncias. Se for isso, a hipótese descrita acima estará correta. Ou seja, estão poupando os políticos para que sejam reconduzidos e, assim, dar ao “esquema” de Vorcaro (a turma), a chance de passarem pela lavanderia dos votos e se perpetuarem nas esferas de poder. E, se tudo der certo, é prudente que Daniel Vorcaro já mande lubrificar um dos seus jatinhos (um deles foi apreendido com o pai), mas ele amealhou uma frota.
Ao fim e ao cabo, a cena de novela: Vorcaro foge do país, dando uma boa banana para quem amargou prejuízo, deixando atrás de si a conta salgada para os contribuintes e aposentados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




