Desaceleração no Brasil e inflação benigna nos EUA reforçam cenário de corte de juros
Perda de fôlego da atividade no Brasil e a inflação controlada nos EUA reforçam a expectativa de cortes de juros
No Brasil, o comércio varejista registrou queda de 0,4% em dezembro, na comparação mês contra mês — um dado negativo que se soma a uma sequência importante de indicadores de atividade também em retração. Tivemos, no mesmo período, recuo na produção industrial, na Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) e, agora, na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC). Forma-se, portanto, um quadro mais consistente de desaceleração econômica no fechamento do ano.
O varejo ampliado apresentou queda ainda mais intensa, de 1,2% em dezembro frente a novembro. O principal diferencial entre o varejo restrito e o ampliado está justamente nos segmentos de veículos e material de construção — ambos com desempenho fraco no mês. As vendas de veículos recuaram 2,4%, enquanto o material de construção caiu 2,8%. Também houve retração expressiva no setor farmacêutico, com queda de 5%. Por outro lado, alguns segmentos mostraram resiliência, como móveis e eletrodomésticos e alimentos, mas o balanço geral aponta para perda de fôlego da atividade.
Esse movimento já era, em alguma medida, esperado. O Banco Central vem sinalizando desaceleração, e os indicadores confirmam essa leitura. O PIB do quarto trimestre do ano passado deve ficar próximo de zero, reforçando a percepção de enfraquecimento da economia. Esse cenário aumenta a probabilidade de início do ciclo de cortes de juros em março. Ainda não está definido se o corte será de 0,25 ou 0,50 ponto percentual — a ata do Copom indica que a autoridade monetária decidiu iniciar o processo, mas não especificou o ritmo. Com a desaceleração mais evidente, cresce a chance de um corte de 0,50 ponto já na próxima reunião.
Apesar da perda de dinamismo na margem, vale destacar que o varejo encerrou o ano com alta acumulada de 1,6%, mantendo uma sequência positiva desde o período pós-pandemia. Ainda estamos próximos dos níveis recordes das séries históricas, tanto no varejo restrito quanto no ampliado, mas os dados mostram claramente uma inflexão na trajetória.
No cenário internacional, o destaque foi a divulgação do CPI nos Estados Unidos, que veio abaixo do esperado. A inflação cheia registrou alta de 0,2% em janeiro, ante a expectativa de 0,3%, indicando uma desaceleração mais forte do que o mercado projetava. Em termos anuais, a inflação está rodando em torno de 2,5%–2,6%, muito próxima da meta de 2%. O núcleo da inflação (core CPI) também se mantém nessa faixa.
É particularmente relevante notar que, mesmo diante do choque tarifário promovido pelo governo Trump, a inflação americana permaneceu relativamente comportada. Estudos do Federal Reserve de Nova York indicam que parte significativa das tarifas foi repassada aos consumidores, mas, ainda assim, o impacto agregado sobre a inflação foi limitado. Considerando que, durante a pandemia, a inflação chegou a 8%, o atual patamar próximo de 2,5% sugere que o efeito inflacionário das tarifas foi muito mais contido do que se imaginava.
Esse dado aumenta a probabilidade de cortes de juros pelo Federal Reserve a partir de junho ou julho. Embora o payroll tenha vindo mais forte — 130 mil vagas criadas contra a expectativa de 65 mil — outros indicadores estruturais do mercado de trabalho, como a relação entre vagas abertas e desempregados (JOLTS), mostram um arrefecimento relevante. Hoje há cerca de 0,9 vaga por desempregado, bem abaixo do pico pós-pandemia, quando esse número chegou a 2.
Portanto, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, o cenário aponta para o início de ciclos de flexibilização monetária ao longo de 2026. No Brasil, cresce a probabilidade de um corte de 0,50 ponto já em março, com a Selic podendo encerrar o ano próxima de 12%. Nos Estados Unidos, os dados de inflação reforçam a possibilidade de redução de juros no meio do ano. Seria uma combinação positiva para a economia global, com condições financeiras mais favoráveis nas duas maiores economias do hemisfério.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




