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Dados de comércio, serviços e indústria reforçam aposta em cortes maiores de juros

Dados de dezembro sinalizam desaceleração mais intensa da economia no fim de 2025 e ampliam expectativa de redução de 0,50 ponto da Selic pelo Copom

Prédio do Banco Central do Brasil, em Brasília (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

247 - A sequência de resultados negativos divulgados para comércio, serviços e indústria no mês de dezembro reforçou a percepção de que a economia brasileira perdeu força de forma mais intensa do que se imaginava no encerramento de 2025. A leitura de economistas é que a desaceleração mais clara da demanda, somada ao arrefecimento da inflação, aumenta as chances de um ciclo de cortes mais forte na taxa básica de juros pelo Banco Central do Brasil, relata Míriam Leitão, do jornal O Globo.

Ao analisar em conjunto as pesquisas mensais do IBGE, especialistas apontam que os três setores principais da atividade econômica terminaram o ano “pisando no freio”, apesar do desempenho positivo no acumulado de 2025. Comércio e serviços recuaram 0,4% em dezembro, enquanto a indústria teve queda mais expressiva, de 1,2%, indicando um enfraquecimento mais disseminado do consumo e da produção.

Para Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, o conjunto de dados surpreendeu negativamente e reforça os argumentos para o início de um ciclo de redução da taxa de juros já em março. Segundo ela, o resultado de dezembro sinaliza que a economia entra em 2026 com ritmo menor do que o observado anteriormente.

A avaliação é compartilhada pelo economista Luís Otávio Leal, sócio da G5 Partners, que observa que o mercado já precifica com elevado grau de certeza uma redução mais intensa na próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). “A desaceleração que vimos no segundo semestre de 2025 reforça a tendência de um ciclo de corte mais intenso. A inflação acumulada em 12 meses em fevereiro deve cair para níveis próximos de 3,60%, o que ajuda a começar com um corte mais forte”, diz Leal.

A projeção de Leal é que a próxima reunião do Copom tenha praticamente 100% de chance de resultar em um corte de 0,50 ponto percentual, cenário sustentado tanto pelo comportamento da curva de juros quanto pelo enfraquecimento da atividade no segundo semestre do ano passado.

Kawauti também chama atenção para o contraste entre os dois semestres de 2025. Embora o crescimento anual tenha ficado acima de 2%, o desempenho do período final do ano foi significativamente inferior ao início, o que reduz a chamada “inércia” de crescimento para 2026. “Ainda que o crescimento do ano tenha ficado acima de 2%, o segundo semestre foi nitidamente pior do que o primeiro. Assim, entramos no novo ano com uma atividade mais fraca, e talvez algo próximo de 1,8% seja o máximo que a economia conseguirá crescer em 2026".

A perspectiva de um avanço mais contido também é defendida por Rodolpho Tobler, pesquisador do FGV Ibre. Ele avalia que o cenário de 2026 pode se aproximar do observado em 2025 em termos de crescimento médio, mas com uma dinâmica distinta ao longo do ano.

Segundo Tobler, enquanto 2025 foi marcado por um início mais forte e uma desaceleração progressiva no segundo semestre, 2026 pode começar mais fraco, com possibilidade de melhora apenas na reta final, caso o ciclo de redução dos juros avance. “Em 2025 tivemos um primeiro semestre um pouco melhor e um segundo semestre de maior desaceleração, cada setor no seu ritmo. Para 2026, espero um crescimento ainda moderado, com um início de ano mais desafiador. À medida que a queda dos juros avance ao longo do ano, poderemos ter um fim de período um pouco mais aquecido. No fim das contas, a média anual pode acabar sendo parecida”, analisa Tobler.

O quadro delineado pelos indicadores recentes reforça, portanto, a leitura de que a desaceleração econômica já está em curso e pode abrir espaço para uma política monetária menos restritiva. 

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