Desafios populares em 2026
"A perspectiva de que 2026 seja a última grande eleição com a presença de Lula coloca uma tarefa urgente para os movimentos populares"
João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, defende que em 2026 é preciso fazer mais do que uma disputa eleitoral e aponta os eixos de um projeto de transformação estrutural para o Brasil.
A perspectiva de que 2026 seja a última grande eleição com a presença de Lula coloca uma tarefa urgente para os movimentos populares: elaborar não apenas uma pauta de reivindicações, mas um projeto estruturado de transformação. É a partir dessa premissa que João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, organiza sua reflexão no programa Brasil Popular exibido em 20 de junho.
O desafio está claro. Não basta para os movimentos sociais e setores progressistas da sociedade eleger candidatos, criticar governos ou apresentar pautas setoriais. É preciso ter um projeto. E esse projeto deve ser debatido coletivamente pela militância, pelos movimentos, pela academia, pelo mundo sindical etc., com horizonte de médio e longo prazo. A referência deve ser 2030.
João Paulo organiza esse debate em três eixos que considera fundantes e articulados entre si.
Modelo econômico
O primeiro eixo é a disputa pelo modelo econômico: quem controla a economia e em favor de quem ela opera. A partir do diagnóstico de que a dependência histórica e estrutural do Brasil é dirigida por interesses externos, hoje caracterizados pelo grande capital financeiro, chega ao problema que chama atenção para o volume de recursos destinados ao pagamento de juros da dívida, que superam o investimento com políticas sociais como saúde e educação. O Banco Central é apontado como nó político central, cuja autonomia impede a redução dos juros em benefício do povo.
João Paulo reforça que não podemos cometer o erro de deixar o debate econômico para técnicos especializados, afastando-o da militância e do povo. A proposta que ele apresenta é elaborar e popularizar uma alternativa econômica que responda concretamente às necessidades comuns da vida das pessoas, combinando reindustrialização, reforma agrária como vetor de desenvolvimento, reorientação do orçamento público e enfrentamento da uberização e das plataformas digitais como questão de economia política, não apenas de direitos trabalhistas.
A inteligência artificial entra nesse eixo como tema urgente; segundo ele, a esquerda precisa disputar seu uso para reduzir o esforço físico da classe trabalhadora e proporcionar melhorias coletivas para a vida do povo, e não como ferramenta de ampliação da acumulação privada de riqueza. A China é citada como referência de modelo em que o Estado tem protagonismo no desenvolvimento econômico e na superação da pobreza.
O Estado brasileiro
O segundo eixo é a natureza do Estado. O diagnóstico que João Paulo faz é que temos um dos Estados mais conservadores do mundo, que não fez a reforma agrária, foi tardio na universalização da educação superior e não atualizou leis fundamentais. O judiciário é marcado por privilégios; o legislativo foi capturado por interesses conservadores. Finaliza dizendo que, mesmo após 20 anos de governos de esquerda, o Estado não foi democratizado.
A questão central que João Paulo coloca é: o Estado já é forte, mas contra os interesses do povo. Então, como torná-lo popular e a favor da maioria? Isso exige ir além de ocupar cargos. É preciso reformar o Estado por dentro, mudando leis, estruturas e até o currículo escolar.
Um ponto de atenção específico é a segurança pública, tema que, na visão dele, a esquerda ainda não equacionou de forma consistente. A questão não é entre polícia branda ou repressiva, mas como impedir que a juventude e as crianças sejam capturadas pelo crime organizado; o caminho passa por creches, educação e disputa dos territórios.
Organização da sociedade
O terceiro eixo articula Estado, economia e cultura na pergunta: que tipo de sociedade e de humanidade queremos construir? O diagnóstico aponta para um conservadorismo cultural elevado. Destacou o feminicídio, tratando-o como uma pandemia que precisa de uma resposta da sociedade e do Estado. Chamou atenção também para os desafios colocados pela desagregação das formas coletivas de vida e o interesse da nova geração pelo empreendedorismo neoliberal, que oferece respostas individualistas para problemas estruturais.
Destaca que as políticas de proteção social existentes, como o Bolsa Família, são reconhecidas como relevantes pelo povo, mas insuficientes como projeto. É preciso dar um salto de qualidade, articulando transferência de renda com reforma agrária, industrialização, esporte, cultura e educação.
A agenda de direitos, segundo João Paulo, é necessária, mas não suficiente para dialogar com a maioria da classe trabalhadora. Ela precisa ser combinada com uma proposta econômica concreta que melhore a vida do povo.
Eleições e projeto
No plano político-institucional, João Paulo defende que as eleições de 2026 sejam usadas para projetar novos militantes para o espaço institucional. Mas alerta: o movimento popular não pode apenas eleger e se afastar. Precisa permanecer nas ruas no pós-eleição, disputando o projeto de desenvolvimento.
Acredita na necessidade de constituição de uma frente ampla para eleger Lula, mas alerta que não basta a unidade eleitoral. Essa frente deve fazer dentro dela o debate sobre o novo programa para os próximos cinco anos, que não pode se resumir a pontos de unidade contra a direita. O programa deve anunciar uma perspectiva de futuro. É preciso unidade em torno de um projeto de desenvolvimento democrático e popular.
Para encerrar, ele afirma que o debate ideológico só se sustenta quando toca os problemas concretos das pessoas, como o preço do leite da vaca e do pão, as condições de trabalho do motorista ou entregador por aplicativo, o preço do aluguel na periferia. Por isso, conclui que essa geração — dos 35 a 45 anos — tem a responsabilidade de fazer a transição com quem conduziu as lutas dos últimos 50 anos, projetando como a esquerda estará em 2030.
João Paulo Rodrigues é da direção nacional do MST e participou do programa Brasil Popular — Desafios do Projeto Nacional e Popular, exibido em 20 de junho de 2026.
Editado por: Teresa Maia
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



