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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Desde 1930, a geopolítica entrou em campo e nunca mais saiu

A ideia de que o esporte teria sido um território neutro, contaminado apenas recentemente pela política, não resiste aos fatos da história

Copa do Mundo de 1930/Divulgação (Foto: Divulgação )

Falar em boicotes olímpicos, sanções esportivas ou diplomacia do futebol, na atualidade, é utilizar expressões que já fazem parte do vocabulário esportivo. Em 1930, ano da primeira Copa do Mundo, o futebol já era atravessado pela geopolítica. Ou melhor, nasceu dominada por interesses políticos das classes ligadas à burguesia industrial da Inglaterra. O comportamento inglês e o esporte praticado nas public schools exerceram grande influência nos franceses Jules Rimet e Barão de Coubertin. Jules Rimet deu, inclusive, o nome para a Copa do Mundo.  E o barão de Coubertin é, sabidamente,  ideólogo dos jogos olímpicos modernos. 

Quando a FIFA escolheu o Uruguai para sediar a primeira Copa do Mundo, em 1930, a decisão contrariou expectativas europeias. Muitos no continente consideravam natural receber o primeiro Mundial. Mas pesaram a favor dos uruguaios o bicampeonato olímpico em 1924 e 1928, fato que, inclusive, lhe rendeu o apelido de “Celeste Olímpica”.  No início do século XX, o torneio olímpico era visto como o grande campeonato mundial de futebol. 1930 também marca o centenário da Constituição uruguaia. Não à toa, o estádio que abrigou a primeira copa foi batizado de Centenário de Montevidéu. 

A escolha, porém, gerou reações

Parte da imprensa europeia tratou o torneio de 1930 com ceticismo e chegou a prever seu fracasso. Alemanha e Áustria fizeram campanha contrária ao Mundial, enquanto várias seleções europeias se recusaram a atravessar o Atlântico.

A Inglaterra, por exemplo, boicotou as três primeiras Copas do Mundo (1930, 1934, 1938) por entender que sua supremacia no futebol, como inventores do jogo, não precisava ser testada. A Federação Inglesa (FA) considerava seus torneios britânicos superiores à FIFA na época. Eles só participaram a partir de 1950, no Brasil. 

Jules Rimet precisou empenhar-se pessoalmente para garantir a participação dos únicos quatro representantes europeus presentes em Montevidéu: França, Bélgica, Romênia e Iugoslávia.

Para os que ainda não haviam percebido, a política já estava em campo. Oito anos depois, em 1938, ela se manifestaria de forma ainda mais explícita.

Na Copa da França, Uruguai e Argentina boicotaram o torneio

O gesto uruguaio era resposta à resistência europeia de 1930 e ao que se percebia como hegemonia continental dentro da FIFA. A Argentina protestava também contra a quebra da expectativa de alternância entre Europa e América do Sul na escolha das sedes. Já não era mais apenas disputa esportiva. Era disputa por poder.

Talvez esteja aí a gênese do boicote moderno como linguagem política dos megaeventos esportivos. 

O poder do futebol seduzia os regimes autoritários na primeira metade do século XX. A Itália fascista transformara os títulos mundiais de 1934 e 1938 em propaganda do regime de Mussolini. A Alemanha nazista fizera dos Jogos Olímpicos de Berlim-1936 um espetáculo político do Terceiro Reich.

Para 1942, em meio às tensões globais, havia projetos e ambições para que a Copa se convertesse também em vitrine do poder político, inclusive por parte da Alemanha nazista, para além das pretensões de Brasil, sob a chamada Era Vargas,  e a Argentina, que acreditava ter o direito a sediar o torneio. 

Entretanto, a guerra impediria as Copas de 1942 e 1946. Mas não interromperia o vínculo entre futebol e geopolítica. Ao contrário. No pós-guerra e especialmente na Guerra Fria, os megaeventos esportivos tornaram-se palcos de afirmação ideológica e política. 

Os boicotes de Melbourne-1956, Moscou-1980 e Los Angeles-1984 são marcos disso.

No futebol, a lógica foi semelhante

A Copa de 1978 serviu à propaganda da ditadura argentina. A de 1982 ocorreu sob as sombras da Guerra das Malvinas. O esporte não escapou dos conflitos internacionais.

Por isso 1938 importa. Não apenas por dois boicotes esquecidos, mas porque ali emergiu um padrão histórico: grandes eventos esportivos são também arenas diplomáticas. Espaços de disputa por legitimidade, prestígio e poder local e global. 

Das tensões do século XX às controvérsias em torno de Rússia-2018, Catar-2022 e da própria Copa de 2026, a geopolítica segue em campo.

A novidade não é a política no futebol. A novidade é fingir que ela não esteve lá desde o início. E talvez tudo tenha começado, justamente, antes mesmo do apito inicial de 1930.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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