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André Vieira

Jornalista e editor do portal econômico Brazil Stock Guide

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Diplomacia representativa

A reserva inédita de vagas para indígenas e quilombolas expõe como a diplomacia brasileira sempre foi menos neutra do que parecia

Palácio Itamaraty (Foto: Matheus Costa/MRE)

A decisão inédita de reservar vagas para indígenas e quilombolas no concurso do Itamaraty é um ajuste estrutural tardio. Pela primeira vez, o edital do Instituto Rio Branco incorpora explicitamente esses grupos no desenho das ações afirmativas, sob a nova lei de cotas sancionada em 2025. Das 60 vagas oferecidas, 35% serão destinadas a políticas de inclusão racial e social. O salário inicial é de R$ 22.558. É um movimento que tensiona uma tradição longa — e profundamente elitizada — da diplomacia brasileira.

Durante décadas, o Itamaraty construiu sua identidade como uma ilha de excelência meritocrática. O concurso sempre foi difícil, o domínio de línguas era inegociável e a formação intelectual, ampla. Tudo isso permanece. O que muda é o reconhecimento de que o acesso a essas credenciais nunca foi neutro. A política de cotas não rebaixa a régua — desloca o ponto de partida, admitindo que igualdade formal jamais produziu igualdade real.

Esse ajuste institucional ganha densidade quando confrontado com a memória histórica da própria Casa. Uma anedota célebre, contada pelo historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva, ilustra o quanto a seleção de candidatos ao Itamaraty já foi atravessada por critérios alheios ao mérito intelectual. Segundo ele, seu pai — poliglota, culto — teria sido descartado no início do século 20 em um almoço pelo Barão do Rio Branco não por falta de preparo, mas por ser considerado feio demais para representar o país no exterior.

O episódio, mais do que uma crueldade pessoal, revela um traço estrutural: a diplomacia brasileira foi, por muito tempo, também um projeto estético, social e racial. Não se tratava apenas de saber falar francês ou conhecer tratados internacionais, mas de parecer adequado a uma ideia específica de Brasil — branco, europeu, civilizado — que se pretendia vender ao mundo.

Essa lógica é descrita com precisão pelo antropólogo Michel Alcoforado em seu livro Coisa de Rico, best seller atual. Ali, o Itamaraty surge como um dos espaços mais acabados da elite simbólica do Estado: menos definida por riqueza e mais por capital cultural, repertório internacional e branquitude naturalizada. A exclusão nunca foi formal — operava por códigos silenciosos, como sotaque, aparência, redes sociais e pertencimento implícito.

Sob essa leitura, o concurso público funciona também como ritual de consagração. A prova é dura, mas quem chega competitivo costuma carregar uma socialização prévia rara no Brasil: ensino caro, tempo para estudar, familiaridade com o Estado como projeto de vida. A meritocracia existe — mas vem precedida por filtros invisíveis que moldaram o corpo diplomático por gerações.

É previsível que a abertura atual gere desconforto. A diplomacia sempre se viu como guardiã da imagem externa do país, quase imune às disputas internas da sociedade. Para alguns, incluir indígenas e quilombolas politiza o Itamaraty. Para outros, trata-se apenas de corrigir uma incoerência: quando o mundo discute clima, território, biodiversidade e povos tradicionais, o Brasil sempre falou sobre esses temas — raramente a partir deles.

No fim, o Itamaraty não perde estatura ao se abrir — ganha densidade estratégica. Em um mundo em que credibilidade externa depende cada vez mais de coerência interna, formar diplomatas com experiências históricas distintas não é concessão ideológica, mas ativo de soft power. Se antes o Brasil precisava parecer algo que não era, agora testa se consegue, finalmente, representar o que de fato é — com menos filtro estético e mais realidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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