Direita: violenta e injusta

Após as o primeiro turno das eleições de 2014 em razão do espantoso crescimento de setores reacionários escrevi “Será que Bolsonaro (que sempre considerei uma caricatura patética de uma direita reacionária e praticamente extinta) representa de fato muitos bolsonaros?

Jair Bolsonaro fala ao povo da Bahia
Jair Bolsonaro fala ao povo da Bahia (Foto: Alan Santos/PR)

Após as o primeiro turno das eleições de 2014 em razão do espantoso crescimento de setores reacionários escrevi  “Será que Bolsonaro (que sempre considerei uma caricatura patética de uma direita reacionária e praticamente extinta) representa de fato muitos bolsonaros? Será que há muitos bolsonaros no Brasil?”. Bem, quatro anos depois a caricatura patética elegeu-se presidente, embalado pelo golpe de 2016 e por uma campanha violenta e injusta mentiras jamais vista. 

Fato é que a esquerda no estado de São Paulo não foi “varrida do mapa” em 2014, mas que a votação expressiva de Aécio Neves no estado (quase 11 milhões de votos, contra pouco mais de 5 milhões de votos dados à então presidente Dilma) e a eleição de reacionários de todo tipo, revelava que a mesma classe média, que sempre apoiou a esquerda, não a via mais como sua representante.  

O artigo, que tinha o título “A direita está de volta?”, ressalvei que a mídia nacional tinha sido implacavelmente contraria ao governo de coalizão que o PT comandava e amplamente favorável a Aécio Neves, era um elemento para a análise responsável de um fato inegável: a opção da classe média pelos candidatos e partidos de direita estava evidenciada.  Em seguida a Lava-Jato cresceu e manipulou todo processo eleitoral, o golpe se desenhou e se consumou “com o supremo com tudo”.

Em 2014 a classe média já havia sido cooptada pelos setores mais conservadores com seu discurso sedutor de moralização e combate à corrupção, não foi a primeira vez. Foi assim no tempo de Getúlio, Juscelino e João Goulart e isso manteve o país em crise institucional por muito tempo e criou as condições objetivas para o golpe de 1964 e para o golpe de 2016.

Marilena Chauí disse que a classe média paulistana é fascista, violenta e ignorante, fiquei perplexo quando ouvi isso e rejeitei a tese, afinal, pensei, não seria possível pensar em um país menos desigual sem uma classe média forte e o aumento da classe média era visto como sinal de desenvolvimento do país, com de redução das desigualdades, de equilíbrio da pirâmide social, ou mais, de uma positiva mobilidade social, em que muitos têm ascendido na vida a partir da base. Contudo, a classe média - que seria como que um ponto de convergência conveniente para uma sociedade mais igualitária, que indicaria uma espécie de relação capital-trabalho com menos exploração – de fato passou a rejeitar as políticas públicas propostas e executadas pela esquerda. Mas por quê?

A classe-média não votou na esquerda nem em 2014, nem em 2018, porque pensa que não precisa do Estado e porque é reacionária e nada democrática, além de vazia e hipócrita. 

Outro ponto: a tal Meritocracia. Como sabemos, a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora e se opõe à democracia em vários aspectos estruturantes, em quase todos.

Por isso boa parte da classe média é contra as cotas nas universidades, pois a etnia ou a condição social não são critérios de mérito; é contra o bolsa-família, pois crê tratar-se de “ganhar dinheiro sem trabalhar”, além de um demérito que desestimula o esforço produtivo; quer mais prisões e penas mais duras porque meritocracia também significa pagar caro pela falta de mérito; reclama do pagamento de impostos porque o dinheiro ganho com o próprio suor não pode ser apropriado por um Governo que não produz muito menos ser distribuído em serviços para quem não é produtivo e não gera impostos.

A classe média revelou-se ser contra a ação Política e contra os políticos porque em uma sociedade meritocrática seria a técnica, e não a política, a base de todas as decisões.

O fato é que a direita brasileira, cuja opinião conservadora se expressa facilmente na mídia e nas redes sociais, não aceita fazer concessões sociais, é reacionária mesmo frente às mudanças menos ofensivas aos interesses dominantes (talvez seja herança do “espírito da Casa Grande” o ódio aos pobres, aos nordestinos e aos negros e condescendência ao estuprador confesso). Talvez a direita não suporte a ascensão social das classes subalternas, mesmo quando isso reforça a posição da classe ociosa no topo pela ampliação do mercado interno, como escreveu o professor Fernando Nogueira da Costa do IE da Unicamp.

A esquerda democrática está atordoada desde 2013, não entendeu o que aconteceu, não atendeu que a democracia está sob ataque.

Ser de esquerda é buscar ocupar as posições institucionais em decorrência de uma ação política de interação permanente com a sociedade, pois para governar é preciso constituir maiorias, transigir, negociar e buscar campos de não colidência e ação moderada.

Em 2014, apesar da vitória de Dilma, uma parcela da sociedade não nos enxergava como representação de seus interesses concretos e em 2018 - sem desconsiderar todas as circunstâncias e ataques, nem o golpe de 2106 – seja pela inflexão conservadora ou pela polarização assimétrica, mas principalmente porque nossos governos de coalizão compraram maiorias, quando deveriam construí-las através da política, do debate ao lado da sociedade - perdemos a eleição, perdeu-se o rumo e apesar da incompetência política e técnica dos canalhas do Planalto e da Esplanada não sabemos o que fazer.

E a direita voltou a governar o país e a estúpidos que sonham com a volta da ditadura militar. Onde estavam tantos vermes? 

Para essa nova direita, melhorias adicionais de padrão de vida no Brasil não devem vir mais do Estado, via políticas públicas, mas unicamente de conquistas individuais baseadas no esforço e mérito reconhecidos por viés de auto validação dos próprios pares. Essa é a visão individualista da direita e os manifestantes golpistas constituíam uma minoria que nós democratas não conseguimos denunciar, isolar e condenar.

Penso que, a partir da afirmação de #LulaLivre, temos que voltar a fazer política, temos que buscar apoio e apoiar os setores progressistas, os trabalhadores e seus sindicatos, os micro, pequenos e médios empresários, pois o Brasil pode e deve seguir avançando nas mudanças iniciadas em 2003, e buscar a reconciliação com a classe média e com antigos companheiros que buscaram acolhida no PT, PSB, PSOL, PCdoB, PDT, PV e os setores democráticos do centro e da direta, afinal todos tem muito a dizer, aprender e ensinar.


Se a direita é violenta e injusta temos que voltar a fazer politica de verdade, sem vaidade, certezas e convicções.

Pedro Benedito Maciel Neto, advogado, sócio da MACIEL NETO ADVOCACIA, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”. Ed. Komedi – [email protected] 

    

[1] http://www.vermelho.org.br/noticia/255316-1

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