Donald Trump bloqueia o estreito de Ormuz
A ação desastrada de Donald Trump contribui para acelerar a perda da hegemonia unilateral dos EUA num mundo que caminha para a multipolaridade
Tanto o canal de Suez quanto o canal do Panamá são canais artificiais, é legal cobrar pedágio. Pelo direito internacional, estreitos naturais têm direito de passagem livre. Países não podem cobrar pedágio
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Fracassou a tentativa de acordo entre os EUA e o Irã em rápida reunião sob a coordenação do Paquistão. Em seguida, Donald Trump anunciou o bloqueio dos portos do Irã e interceptação de qualquer embarcação que tenha pago pedágio ao Irã para passar no Estreito de Ormuz. A confusa ordem para o bloqueio naval do Estreito de Ormuz fez cessar o tráfego que já era mínimo na via. O anúncio fez o petróleo disparar, com o barril vendido a mais de 100 dólares, e as ações na Bolsa caíram em toda parte.
Donald Trump tornou o Estreito de Ormuz o epicentro da guerra. O bloqueio naval significa uma escalada na guerra que vai contribuir ainda mais para a derrota política de Trump dentro dos EUA. Donald Trump caiu na armadilha que ele mesmo montou por pressão de Israel. Escalando a guerra ou recuando, Trump sofre uma derrota política. Ele não encontrou uma saída honrosa para a guerra.
O Irã cobra pedágio aos navios que passarem pelo Estreito de Ormuz como compensação pelos prejuízos na infraestrutura e perdas em vidas humanas causadas pelos bombardeios dos EUA e Israel. O Irã controla Ormuz, por onde passam 20% do petróleo consumido no mundo, e se vê no direito de cobrar taxas para permitir a passagem de petroleiros ou embarcações de qualquer tipo.
O objetivo é buscar compensação econômica pelos danos de guerra (infraestrutura, energia, portos), perda de receitas com sanções e necessidade de divisas. Cobrar de petroleiros que atravessam Ormuz gera receita rápida e atinge diretamente o fluxo global de petróleo. Trata-se também de pressão geopolítica. Como o Irã não consegue atingir diretamente os EUA, pode usar Ormuz como alavanca estratégica para provocar impacto global.
Cobrar pedágio para permitir a passagem de embarcações não é novidade. O Panamá cobra pedágio no Canal do Panamá e o Egito cobra no Canal de Suez. No caso do Canal do Panamá, o pagamento gira em torno dos seguintes valores: navios pequenos: cerca de US$ 15 mil – US$ 25 mil; navios médios: cerca de US$ 60 mil – US$ 100 mil; navios grandes: cerca de US$ 300 mil ou mais.
Além disso, há cobrança por capacidade (carga/tonelagem) e taxas adicionais (piloto, segurança, reserva etc.). Na prática, um grande navio cargueiro pode pagar entre US$ 300 mil e mais de US$ 1 milhão por travessia, dependendo do caso.
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No caso do Canal de Suez: navios comerciais grandes: entre US$ 300 mil e US$ 700 mil; superpetroleiros ou navios muito grandes: podem pagar US$ 1 milhão ou mais por travessia.
Contudo, há uma diferença importante. Tanto o canal de Suez quanto o canal do Panamá são canais artificiais, é legal cobrar pedágio, O problema não é apenas geográfico. Pelo direito internacional, estreitos naturais (como Ormuz) têm direito de passagem livre. Países não podem cobrar pedágio simplesmente pela passagem.
Rios são considerados bens públicos nos EUA e na Europa. A regra dominante é a livre navegação. Mas existe cobrança de taxas, principalmente nos canais artificiais, eclusas e portos. O número maior ou menor de taxas depende da legislação de cada país.
Assim, em princípio, a cobrança de pedágio no Estreito de Ormuz pode ser considerada ilegal. Mas, em matéria de violação do direito internacional, Donald Trump é campeão mundial. Em caso de guerra, porém, este argumento pode ser usado como pretexto para novas agressões militares.
E o bloqueio naval decretado pelos EUA também é ilegal. Segundo a Agência Marítima da ONU, “nenhum país tem o direito de bloquear o Estreito de Ormuz”. O Irã denunciou um ato “ilegal”, que configura “pirataria”, e ameaçou seus vizinhos do Golfo com represálias. Sem fechar a porta a novas negociações com os EUA, o Irã assegura ter controle sobre o tráfico marítimo e ameaça resposta “dura e severa” em represália às incursões militares no Estreito de Ormuz.
Além disso, segundo o jornal Le Monde de 13 de abril de 2026, “é difícil imaginar seriamente uma abordagem (ou interceptação) americana de um navio chinês transportando petróleo iraniano – especialmente a um mês da visita oficial de Donald Trump à China. O presidente dos EUA afirmou que viajará para a China para se reunir com o presidente Xi Jinping em 14 e 15 de maio de 2026”.
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Depois de noticiar o bloqueio naval dos EUA no Estreito de Ormuz, o jornal The Guardian, em 13 de abril de 2026, como a imprensa em toda parte, destaca a blasfêmia, que gerou indignação, após Donald Trump publicar imagem de Inteligência artificial de si mesmo como figura semelhante a Cristo. “Apenas alguns meses depois de assinar uma lei que deixará quase 12 milhões de americanos sem seguro saúde ao acabar com o Medicaid, Donald Trump publicou no seu Truth Social, no domingo, uma imagem gerada por inteligência artificial de si mesmo, retratando-o como uma figura semelhante a Jesus Cristo”.
Os apoiadores conservadores e cristãos do presidente dos EUA condenaram a publicação da Truth Social, chamando-a de “disgusting”, e se indignaram com o ataque verbal de Trump ao Papa.
A ação desastrada de Donald Trump contribui para acelerar a perda da hegemonia unilateral dos EUA num mundo que caminha para a multipolaridade, com destaque para a China que vem surgindo, em termos econômicos, tecnológicos e geopolíticos, como uma potência global emergente. Um dos grandes objetivos de Donald Trump com a guerra no Irã, além de apoiar Israel, é controlar o petróleo iraniano e barrar a exportação para a China.
Tudo indica que, aconteça o que acontecer, Donald Trump já perdeu a guerra e a eleição parlamentar de novembro próximo. Tudo indica também que voltará a ameaçar Cuba e Groenlândia, e a dar mais atenção a seu “quintal” na América Latina, a começar por interferir na eleição brasileira, cujo resultado será negado se o seu candidato não vencer para tornar o Brasil colônia dos EUA.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


