É o Lobo
Reencontro meu ídolo em um bar e, com a ansiedade dos fãs, quero perguntar tudo
Uma noite distante de um inverno ofuscado pelo tempo. Aflito, o motorista do ônibus mal sabia quem ia embarcar e quem estava ali apenas para se despedir. A única certeza é que a viagem já estava atrasada.
O pequeno tumulto tinha um motivo, ou melhor, quatro motivos. Eram os quatro jovens a caminho da primeira viagem internacional: iam conhecer a Argentina. As famílias foram para a Rodoviária. Os abraços, os olhares encharcados e os conselhos intermináveis se repetiam: “se cuida”, “pegou o casaco vermelho?”, “ligue assim que chegar”.
Aos doze ou treze anos, não lembro bem, eu estava lá, junto com minha família, para abraçar meu irmão mais velho, o Pedro. Meu mano e seus três amigos, Jaime, Cesário e Biscoito, eram os caras mais felizes do planeta. Eu morria de inveja ao ver os quatro cabeludos embarcando com suas mochilas. Quatro rapazes livres pelo mundo.
Naquela plataforma da Rodoviária Novo Rio, senti pela primeira vez a vontade de me aventurar em outras terras.
Quinze anos depois daquele embarque, ainda no século passado, chegava a minha vez de pisar em Buenos Aires. Comprei um pacote turístico que incluía passagem aérea, hospedagem, show de tango e uma suculenta “parrillada”. Fui, experimentei e amei.
Alguém me perguntou qual era a principal razão daquela viagem e só aí descobri que o passeio do meu mano não era o único estímulo. O país vizinho tinha muito a mostrar: o cinema refinado, seus escritores magníficos, seu povo culto e divertido, suas belezas e até os seus problemas; aliás, bem parecidos com os nossos. Havia tanto que uma viagem só era pouco, mas, se tivesse que escolher um motivo, um só, eu apontaria na direção oposta.
A resposta era uma saudade romântica. A nostalgia de um ídolo. Um craque do meu Botafogo.
Rodolfo Fischer, um argentino alto, forte e muito habilidoso, fez parte de um time inesquecível, com Jairzinho, Paulo César Caju, Marinho Chagas, Wendell, Brito. Sempre valente, Fischer encarou retranca cerrada ao vestir a camisa 9.
A revista Placar, que eu comprava toda semana com a mesada que meu pai, o Edgar, me dava, contava em tom dramático que o craque argentino — um homem tímido — estranhava o clima, a cidade e até os companheiros. O Jornal dos Sports, em suas páginas cor-de-rosa, dizia mais ou menos assim: Craque argentino está sem ambiente.
Eu, torcedor apaixonado, não ficava preocupado, ficava assombrado, isso sim. Adiava as lições de casa, esquecia de ligar para a Claudinha e demorava a dormir, torcendo para que Fischer reencontrasse seu futebol.
Junto com minha mãe, a Therezinha, fui à Igreja Nossa Senhora de Lourdes, em Vila Isabel, rezamos o terço e, de joelhos, pedi ajuda para que nosso craque, ainda retraído, deslanchasse de vez.
Não sei que deuses nos ajudaram, mas, aos poucos, Fischer começou a fazer o que sabia: gols, muitos gols. Com o ímpeto tradicional dos argentinos, conquistou a torcida e entrou para a história como um de nossos maiores artilheiros.
Fischer era agora El Lobo, o carrasco de nossos adversários. Em quatro anos, 68 gols.
Encontro Rodolfo Fischer, dia desses, em um bar paulistano. Ele está na melhor companhia, ao lado de Jairzinho, o Furacão da Copa de 70. Revejo, extasiado, a dupla El Lobo e Furacão.
Quero me aproximar, cumprimentar, agradecer, pedir uma selfie com a cara de pau do mais intrometido dos fãs. Impossível. A gloriosa dupla está em um retrato na parede do bar. Os dois abraçados e com a estrela no peito. Jovens, bonitos, com o sorriso dos vencedores.
O garçom se aproxima e deixa o cardápio, que permanece fechado. Tiro a foto da foto. Revelo, amplio, enquadro, penduro na parede aqui de casa. É pouco, mas é tudo.
Fischer morreu há 6 anos. Queria muito perguntar obviedades, comuns aos torcedores ansiosos: qual o gol mais bonito, a maior alegria, o jogo mais difícil. E a pergunta guardada há tanto tempo:
“Fischer, é verdade que, naquela decisão contra o Palmeiras, em 1972, em que você perdeu um gol cara a cara com o goleiro, e o Botafogo deixou de ser campeão brasileiro, você ficou tão nervoso, tão transtornado, que esfaqueou a bola no vestiário aos prantos? Outros contam que você mordeu as chuteiras, é lenda?”.
El Lobo não pode responder, mas brilha na internet. Numa transmissão de rádio, o locutor resume, com vibração e linguagem rebuscada, o golaço em um clássico contra o Flamengo: El Lobo testou inapelavelmente para o fundo das malhas do guarda-metas Renato. Golaço!!!
Apesar de tantas glórias, El Lobo nunca foi campeão. Assim como outras estrelas do nosso Botafogo, ensinou que ídolos de verdade não precisam de títulos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
