E se fosse Toffoli?
"E se fosse Dias Toffoli o responsável por liberar Daniel Vorcaro de depor na CPI do INSS? A esta altura, as redes sociais estariam em combustão"
Estamos em uma segunda-feira pós-Carnaval no Brasil. Dia 23 de fevereiro. Era aguardado o depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro em um dos plenários do Senado Federal, para falar sobre a atuação de seus bancos no roubo a aposentados e pensionistas do INSS. Mas ele não comparece. Foi liberado do comparecimento na semana anterior por um ministro do Supremo Tribunal Federal.
E se fosse Dias Toffoli o responsável por liberar Daniel Vorcaro de depor na CPI do INSS? A esta altura, as redes sociais estariam em combustão. Vídeos inflamados, lives indignadas, hashtags pedindo impeachment, teorias conspiratórias recicladas. Os de sempre estariam urrando contra o "ativismo judicial", a "proteção aos poderosos", o "conluio do sistema". Bastaria o sobrenome Toffoli para que a máquina da indignação seletiva entrasse em pleno funcionamento.
Mas não foi Toffoli. Foi André Mendonça, o ministro "terrivelmente evangélico", indicado por Jair Bolsonaro. E, não por acaso, o silêncio segue ensurdecedor.
É importante deixar algo claro: a decisão de Mendonça não é, do ponto de vista técnico, um escândalo. Ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. Quem é investigado tem o direito constitucional de não depor — e Vorcaro está nessa condição. Trata-se de uma garantia elementar do Estado de Direito. Da mesma forma, decisões anteriores de Toffoli nesse caso — por mais que tenham sido alvo de críticas políticas — estavam fundamentadas na legislação e não impediram o prosseguimento das investigações pela Polícia Federal. Discordar é legítimo; fingir que há ilegalidade onde não há é oportunismo.
O ponto aqui não é jurídico. É moral e político.
A reação — ou a ausência dela — escancara que a cruzada bolsonarista contra o Supremo nunca foi, de fato, sobre liberdades constitucionais. Se fosse, o critério seria o mesmo para todos os ministros, independentemente de quem os indicou. Se fosse sobre princípios, haveria coerência. O que se vê, porém, é conveniência.
Quando o alvo é um ministro indicado por um presidente do campo progressista, mesmo que o afastamento entre eles seja público e notório, a retórica vira guerra santa. Quando a decisão parte de um ministro alinhado ao bolsonarismo, o silêncio substitui a fúria. A toga deixa de ser símbolo de opressão e passa a ser manto da prudência. O que muda não é o conteúdo da decisão, mas a identidade de quem a profere.
Isso revela muito. Talvez revele o receio de que a fala de Vorcaro pudesse expor relações de bolsonaristas com o banqueiro e suas engrenagens financeiras — lavagem de dinheiro, trambiques e tombos. Ou talvez seja apenas seletividade, mesmo.
A revolta permanente contra o STF não nasce de um amor súbito pela Constituição. Ela brota do ressentimento de quem se viu contido pelas instituições ao ultrapassar todos os limites — inclusive no episódio da tentativa de golpe que buscou subverter o resultado eleitoral. O incômodo nunca foi com supostos excessos do Judiciário; foi com a atuação firme quando os excessos vieram de quem ocupava o Poder Executivo e de seus apoiadores.
O caso Vorcaro funciona como lente de aumento. Mostra que o discurso inflamado sobre "ditadura da toga" é instrumental, não principista. Vale quando protege aliados? Silêncio. Vale quando atinge adversários? Indignação.
No fim das contas, a pergunta "e se fosse Toffoli?" não é mero exercício retórico. É um teste de coerência. E a resposta, dada pelo barulho seletivo das redes, é cristalina: para os extremistas, o problema nunca foi o Supremo. O problema sempre foi serem impedidos de agir sem limites — e ter que arcar com as consequências.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



